Filas e bandas híbridas dão a tônica do Skol Beats

Filas quilométricas durante toda amadrugada, do lado de fora, festa contínua do lado de dentro. Oterceiro Skol Beats, com lotação total, foi a farra musical do ano,com 40 mil pessoas dançando da tarde de sábado até a manhã dehoje, com o sol a pino, no Autódromo de Interlagos , zona sul deSão Paulo. As filas para entrar (a partir da meia-noite) eramenormes, por dois motivos: a maior parte do público deixou parair ferver na alta madrugada e a exigência da apresentação daidentidade (idade mínima: 18 anos) tornava a triagem morosa.Muita gente levou até três horas na fila. Por outro lado, uma vigilância severa de polícia eorganização faziam com que o movimento fosse tranqüilo do ladode fora, apesar da gula dos flanelinhas (cobravam até R$ 20,00por uma vaga). Com os ingressos esgotados (várias faixasespalhadas pela vizinhança do autódromo desencorajavam osretardatários), restava recorrer aos cambistas, que também nãotinham muita coisa em mãos. Uma entrada (de R$ 45,00) podiacustar até R$ 100,00, no mercado negro. Ordem e marketing - Um festival sob o signo da ordem edo marketing, o Skol Beats precisa aprimorar alguns dos seusmecanismos comerciais. Afora os preços exorbitantes cobradospelas empresas que se instalaram em Interlagos, houve tambémgafes imperdoáveis. Durante o show do grupo galês Kosheen, porexemplo, o telão no fundo exibia imagens de comerciais dospatrocinadores, uma atriz tapando os olhos com chinelos e coisasdo tipo. Numa oficina mecânica do lado de fora dos portões deInterlagos, um grupo de "sem-ingresso" organizou uma ravealternativa, com drum´n´bass popular e cerveja mais barata,quase na frente do posto policial. Do lado de dentro, muita badalação. Massagistas na tendaChill Out cuidavam do corpo (a R$ 15,00), enquanto osfreqüentadores podiam comprar óculos modernosos, roupas degrifes alternativas, deitar em colchões de ar e dormir na grama,sob o olhar complacente de um time de seguranças mais educado doque de costume. O primeiro grande show, ainda na noite de sábado, foi odo DJ britânico Goldie - uma apresentação cheia de problemas, acomeçar pela desorganização do próprio DJ, que não conseguiuachar a tempo o vinil com que abriria seu set, às 19 horas. Porisso, o DJ brasileiro Xerxes ficou segurando a peteca até as19h15, quando Goldie encontrou o disco. Xerxes, um sujeito tímido e de pulsão irresistível nospick-ups, fez um contraponto interessante com o som de Goldie,mais pretensioso e também o que mais apela à condição dopersonalismo - aquela condição que torna a performance do DJindispensável à fruição do som. Às 19h16, o MC de Goldie arriscou um português ecumprimentou as cerca de 2 mil pessoas que o aguardavam ansiosasna pista. "Olá, galera! Bem-vindos ao Skol Beats!", gritou,antes de seu microfone falhar. O segundo percalço foi umproblema com o som da tenda, que irritou o DJ inglês e o fezchegar a desligar o som. No meio da interrupção, ele atirou oboné para a platéia e dançou na frente do seu equipamento. Goldie é um dos mais importantes astros da cena dodrum´n´bass desde a metade dos anos 90. Figura singular, temfeito pontas em diversos filmes (estrelou até um da série 007) efoi namorado da cantora Björk. Seu som é personalizado, combatidas quebradas e pesadas e - invariavelmente - vocalizaçõesfemininas no meio. Underground baiano - A cantora baiana Rebeca Matta,destaque da cena underground de Salvador, estava na platéia paraconferir o show do grupo Kosheen. "Vi em Londres, émaravilhoso", afirmou. A cantora do Kosheen, Sian Evans,elogiou a recepção calorosa que teve e saudou o público com osclichês estrangeiros: um povo quente, acolhedor, brasileiro,portanto. No fim das contas, as bandas híbridas foram as maiscelebradas pela platéia, grupos que unem tecnologia com músicosreais tocando em tempo real, caso do Kosheen - a banda levantoua platéia com o hit Hide U - e do Groove Armada. O Groove Armada reúne um time de músicos não muitobrilhante, com baixo e percussão como elementos maismarcadamente efetivos, e samplers comandados pelo cérebroeletrônico do grupo, que maneja laptops e programadores. Comessa mistura de orgânico e eletrônico, eles também tiveram êxitoem seduzir a platéia, particularmente na hora dos hits, comoMy Friend (que está na trilha da novela O Clone, daGlobo). Nas diferentes tendas, ficava a sensação de que haviauma preferência pela chamada "lenha" (o som mais pesado,acelerado), com a tenda Movement mais cheia de gente afoita pelodrum´n´bass. Em outras, como a Bugged Out!, dava até para fazerevoluções com os malabares - houve uma verdadeira invasãodeles. "Gente bonita", elogiava, em português, o DJ TomMiddleton, velho conhecido da noite de São Paulo, no BuggedOut!. De fato, Middleton esteve certíssimo. Transmutaçõesfashion de Woodstock, os festivais de música eletrônica pareceque vieram para ficar, com a pose, o overacting, a euforiaprogramática, os abraços de meia hora, os diálogos cifrados deconnaisseurs.

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