Filarmônica estréia em SP em noite de gala

A multidão de guardadores de carros que se esparramava pelas ruas do Centro, ontem à noite, denunciava que o programa no Teatro Municipal era dos bons. No palco, estaria aquela que é considerada a melhor orquestra sinfônica do mundo, a de Berlim. As peles de animais nos pescoços das senhoras não deixavam dúvidas: a noite era para gente muito fina. Do lado de fora, os mortais que pagaram pequenas fortunas (de R$ 80 a R$ 280) para se dar de presente a rara oportunidade de ouvir música da melhor qualidade não escaparam de dar de cara com a realidade. "Aí doutor, a gente passando fome e vocês gastando a maior grana para ir no teatro", foi o que ouviram Julio Andrade, jornalista, e sua mulher, a dona de confecção Vera Andrade, ao descer do carro."A gente já chega aqui com culpa", disse ele, que levou a mulher ao que considerava "um programa imperdível". "É o encontro dos extremos", confirmou Márcia Augusta Petroni, que estava com o casal, à espera do marido, no alto da escadaria do Municipal. Mas muitos dos que lá estiveram puderam se livrar do constrangimento de tropeçar em flanelinhas. São os que fazem parte da turma dos "com motoristas". Os condutores - nenhum em traje típico, com luvinhas ou coisa parecida - formaram fila na lateral do teatro, com seus carrões estacionados irregularmente sem o menor constrangimento.A apresentação da Orquestra Filarmônica de Berlim não atraiu vips de ocasião ou figurinhas fáceis da noite paulistana. Foi um programa para iniciados, muitos deles assinantes do Mozarteum Brasileiro, freqüentadores assíduos de concertos. "Viria até de joelhos, é como estar vendo o Papa", comparou Beatriz Baumer, que estava com o marido, o industrial Ruy Baumer. "Eu estou acompanhando, ela é que entende de concertos", despistou Baumer.A colônia alemã também compareceu em peso para conferir a performance de seus compatriotas. Amantes de música clássica, José Antõnio Esteves e Bea Esteves estavam com as amigas Gabriela Lambsdorff e Gabriela Diefenthal. "Somos artigos fixos do teatro", brincou Bea. A presença de Roberto Marinho foi anunciada pelo diz-que-me-diz, mas se o dono da Globo foi, entrou pela porta dos fundos e driblou a escadaria do Municipal. Poucos políticos deram as caras por lá. Miguel Colassuono (PMDB-SP) e a mulher, Marlene, também são assinantes do Mozarteum e não perderiam o concerto por nada. "É uma oportunidade especial , um programa de Primeiro Mundo", avaliou. O secretário municipal de Saúde, Jorge Pagura, chegou acompanhado da esposa, Rosana, depois de o segundo sinal ter tocado, e subiu às pressas as escadarias. Também apressadinha, Tereza Collor entrou como um relâmpago de braços dados com o namorado, o empresário Gustavo Halbrich. Ao soar do terceiro sinal, o hall do Municipal já estava vazio. Os ricos, finos, cheirosos e charmosos tinham tomado seus lugares. Lá fora, no mundo real, um camelô pôs para tocar Indiferença, um forró daqueles na voz de Frank Aguiar. Sons do Brasil no coração de São Paulo.

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