Filarmônica de São Petersburgo volta renovada

A Orquestra Filarmônica de SãoPetersburgo começa amanhã na Sala São Paulo uma série deapresentações na cidade. Sob regência do maestro Iúri Temirkánov, o grupo, acompanhado do pianista georgiano Alexander Toradze,toca amanhã, sábado e quarta-feira na Sala São Paulo e nodomingo, com entrada franca, no Parque do Ibirapuera. Aorquestra já esteve na cidade em outras duas ocasiões, na décadade 90, mas a filarmônica está diferente. E quem garante éTemirkánov, que há quase 15 anos é diretor musical do grupo, umdos mais tradicionais da Rússia. "A orquestra mudou porque ostempos mudaram", diz ele, indicando a presença de novasrelações de poder e trabalho que resultam e interferem no ato defazer música.Quanto ao repertório, a ênfase na produção russaaproxima essas apresentações daquelas de outros anos. HáTchaikóvski (Sinfonia Patética), Moussorgski (Amanhecer noRio Moscou), Prokófiev (concertos para piano e orquestra n.º 2e n.º 3), Stravinski (O Pássaro de Fogo) - para não falardos trechos de Borodin, Shostakóvich, Glinka, Kachaturian, queformam o programa do Ibirapuera. Mas há também Wagner(Prelúdio do Ato 3 de Lohengrin), Ravel (La Valse) eDebussy (La Mer).Temirkánov não justifica a escolha a partir da velhamáxima de que orquestras russas tocam o repertório de sua pátriacomo nenhum outro grupo do mundo. Há, claro, especificidades,"uma combinação da natureza russa com a cultura européia" aque ele já se referiu em outras ocasiões. Mas, no fim das contas, "bom músico é bom músico". Mas essa tão falada "naturezarussa" não interfere? De onde vem a mística a respeito do somrusso, das melhores cordas do mundo? "Você pode dizer que, porexemplo, Tchaikóvski é executado, às vezes, de modo muitosentimental mundo afora. Mas como se declarar melhor do que asmuitas interpretações de Karajan com as filarmônicas de Berlimou Viena?"A associação com o repertório russo, comenta Temirkánov,é, em parte, fruto de uma época de propaganda de um regimepolítico. Mas, os tempos mudaram, relembra o maestro. "O mundoda música é diferente hoje e ampliar o repertório foi algo que aorquestra precisou fazer." E foi Temirkánov, que assumiu ogrupo em 1988, o responsável por transformar a orquestra, àmedida que Gorbachev mudava a União Soviética.Quando assumiu a Filarmônica de São Petersburgo (naépoca, Filarmônica de Leningrado), em 1988, as mudançaspolíticas e econômicas pelas quais passavam a União Soviéticaeram apenas uma parte do problema a ser enfrentado. A outra,pairando sobre seus ombros: o fantasma de Ievguêni Mravinski, que nos últimos 50 anos havia dirigido o grupo, período que já foichamado de "ditadura genial", no qual a orquestra alcançou anotoriedade e a sonoridade que a tornariam famosa."Mravinski era o fruto de uma época política. Suaatitude com relação aos músicos, assim como a de Toscanini ouGeorge Szell com os seus, fazia sentido ou era ao menoscompreensível, se pensada no contexto político da época." Hoje,para ele, o autoritarismo não se sustenta. "Como maestro, devoencarar os membros da orquestra como colegas e os encorajar afazer o mesmo com relação a mim", afirma. "Mas é claro que aorquestra não pode agir como se estivesse em uma jam-session, adisciplina e o respeito são fundamentais com relação aoregente."Ainda ressaltando a importância da compreensão doscontextos sociopolítico e econômico na vida das orquestras,Temirkánov resume de modo bastante sucinto seus 15 anos detrabalho com a orquestra. "Mudamos o repertório e enfrentamosjuntos os cortes no incentivo do governo"."Para os músicos, a situação hoje não é boa, o governoajuda, mas não como antigamente. Antes de viajar, conversei como presidente Putin, que reafirmou o interesse do governo emajudar a orquestra. Dentro, é claro, do possível." Mas asituação não é ruim apenas na Rússia. "Falta dinheiro em todolugar e isso se reflete, claro, na produção cultural."Se a crise financeira é evidente, Temirkánov acreditaque se exagera um pouco ao se criticar o trabalho de regentesque deixariam de lado o trabalho cuidadoso e paciente com poucasorquestras em troca de carreiras baseadas em compromissos comomaestros convidados, com pouco ou nenhum tempo de ensaio."Coisas assim existem, mas acredito que sempre vai existirtambém gente boa, esperta o suficiente para não se atrever atrabalhar sem saber o que está fazendo. No fundo, acho que aindaexiste gente capaz de notar a diferença."Amigo - Para as apresentações em São Paulo, Temirkánovconvidou o pianista Alexander Toradze, seu amigo e colega detrabalho de longa data data. Os dois se conheceram háaproximadamente 20 anos e, pouco tempo mais tarde, uma dessassituações complicadas de vida acabou por aproximá-los, comoToradze, sentado ao lado de Temirkánov, faz questão de lembrar."Eu fazia um concerto na Espanha quando resolvi, comomuitos outros artistas soviéticos, que era hora de deixar aUnião Soviética. Era uma época de muito controle, pressão."Pediu asilo, conseguiu, mas sua família continuou no seu país deorigem. Cinqüenta dias sem notícias dos dois lados, a volta cadavez mais uma opção inviável, Toradze leu em jornais sobre umaturnê de Temirkánov pela Europa, com a orquestra do Kírov."Mandei por meio de amigos, já que eu não podia viajar, umacarta, juntamente com remédios para meu pai, para Iúri, pedindoa ele que procurasse minha família. E ele aceitou, correndo orisco de ser pego e sofrer duras conseqüências." Temirkánov nãocomenta a história, mas Toradze exalta o gesto de amizade.Afeito a uma boa história, Toradze comenta também queentre as peças de seu repertório, o Concerto n.º 2 deProkófiev, que ele toca na cidade, tem um lugar bastanteespecial. "Ele faz parte de um momento complicado da vida docompositor, o que torna sua interpretação uma tarefa bastanteintensa."Ele relembra que o concerto foi composto em honra deMaximilian Schmidt, também músico e intelectual, uma das grandesinfluências em sua vida, que havia se suicidado pouco tempoantes, mandando a seguinte carta a Prokófiev: "Te mando asúltimas notícias. Dei um tiro em mim mesmo. Não sofra demais. Arazão não é importante".A razão, diz Toradze ("foi o que me contouRostropovich"), foi o sucesso do aluno e amigo Prokófiev. "Eleentrou em profunda depressão ao ver que seu aluno o haviasuperado." O concerto, portanto, carrega, na opinião de Toradze, as impressões do recebimento daquelas "últimas notícias". "Éuma obra monumental, um símbolo, acima de tudo de amizade." Ecomo isso interfere na interpretação da peça. "É difícil dizer,mas depois que fiquei sabendo da história, sinto a peça de ummodo bastante diferente. Tenho a impressão clara de que a peçamostra um Prokófiev em mutação, assimilando um sentimento grandedemais para controlar", diz. "De qualquer forma, basta ouviros acordes do início, indicando batidas de um coração, para tera sensação de que se está perante um conto de tragédia."Orquestra Filarmônica de São Petersburgo. Regência deIúri Temirkánov. Solos Alexander Toradze (piano). Sexta, sábadoe quarta, às 21 horas. De R$ 120 a R$ 290. Sala São Paulo. PraçaJúlio Prestes, s/n.º, tel. 3337-5414. No domingo, às 11h30,apresentação gratuita no Parque do Ibirapuera. Av. Pedro ÁlvaresCabral, s/n.º. Patrocínio: Bovespa, Telefônica, Votorantin.

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