Filarmônica de NY exibe raro virtuosismo

Na escuridão completa, ruídos insólitos partem de vários pontos da sala, como se fossem sons de um universo em formação. À medida que as luzes se erguem sobre a orquestra, o solista, Christopher S. Lamb, vem do fundo do auditório para o palco e dá início à peça. É eficientemente teatral o início de Water Percussion Concert, do chinês Tan Dun, com que se abriu o concerto de terça-feira da Filarmônica de Nova York, na Sala São Paulo. Dotada da estrutura de um concerto tradicional, a obra faz a orquestra dialogar com instrumentos de percussão imersos em grandes vasilhas transparentes cheias d´água, cujo som é modificado pelo líquido, ele também gerador de música, à medida que é manipulado, agitado pelas mãos do instrumentista. Nas extremidades do palco, dois outros percussionistas apóiam o solista com o uso de gongos, vibrafones, tubos e batedores também tocados dentro das cubas d´água. Surpreendentemente original em sua concepção e resultados, a peça combina a sugestão de sons da natureza a melodias pentatônicas, que remetem às tradições da Ópera de Pequim, e a efeitos orquestrais de um tonalismo livre que provêm da música ocidental. Situa-se na encruzilhada Leste-Oeste na medida em que explora características típicas da música oriental, situando-as no quadro de uma forma ocidental, a do concerto para solista e orquestra. Até cadências o concerto possui. São incríveis os momentos em que, calando-se, a orquestra deixa que o excepcional percussionista Christopher Lamb extraia sonoridades refinadas dos tambores d´água emborcados dentro do líquido, dos gongos, dos tubos cheios de água, de uma escumadeira que, ao vazar, na coda do Allegro Molto Agitato final, faz um eficiente efeito de nota conclusiva, com seu som de chuveiro caindo dentro da vasilha.Strauss - Numa segunda parte inteiramente dedicada a Richard Strauss, a execução brilhantíssima de dois poemas sinfônicos, Don Juan op. 20 e As Alegres Diabruras de Till Eulenspiegel op 28, emoldurou a mais bela jóia dos dois concertos: a execução das Quatro Últimas Canções, ciclo de poemas de Hermann Hesse e Eichendorf que, aludindo à velhice e à espera da morte, constitui na verdade uma extasiada celebração da vida.Volumosa, com graves opulentos e agudos fáceis, a voz da soprano Christine Brewer flutua facilmente sobre a orquestra, até mesmo nas passagens de escrita instrumental mais expansiva. Tanto na terça quanto na repetição da quarta-feira, Brewer ofereceu uma interpretação de alto nível, que teria sido ainda mais envolvente não fosse a escolha, por Kurt Masur, de andamentos um tanto rápidos demais. Isso não significa, porém, que Masur não tenha estado atento às filigranas de uma orquestração deslumbrante: os desenhos das cordas em September, o solo do violino no Beim Schlafengehen interlúdio de , a meditativa introdução a Im Abendrot, os sons da natureza com que o ciclo serenamente se encerra. Brewer tem absoluto domínio da escrita straussiana, seja nos melismas sobre a palavra "vogelsang", na primeira estrofe de Frühling; seja no trillo de "sommer lächelt", na segunda canção; ou no delicado pianíssimo da frase com que essa peça se encerra, envolta numa bela melodia para a trompa. A voz não perde o colorido de uma extensão à outra do registro, e é tão audível na região grave da primeira estrofe de Im Abendrot quanto nas ondas cada vez mais agudas do final de Beim Schlafengehen, que levam a voz a pairar sobre a orquestra na beleza transfiguradora do verso em que Hesse evoca a alma encontrando a paz no círculo mágico da noite. Identificação - Acompanhado, na terça-feira, pelos dois poemas sinfônicos - cuja impecável realização exibiu todo o virtuosismo da Filarmônica, bem como a afinidade de Masur com a música de Strauss - o ciclo das Quatro Últimas Canções precedeu, na quarta-feira, a execução da Sinfonia nº 3 Romântica, de Anton Bruckner, um outro autor com o qual o regente está muito identificado. Apresentada de acordo com a edição Robert Haas, de 1936, que reproduz a versão estreada por Hans Richter em 1881 - ou seja, com os três primeiros movimentos de 1878 e o Finale reescrito em 1880 - a Romântica, uma das partituras mais luminosas de Bruckner, está impregnada do sentimento místico da natureza. Em Bruckner, é sempre fundamental o papel dos metais; e na Quarta ele é particularmente difícil: além de apresentar o tema nos movimentos extremos, as trompas carregam nos ombros o espetacular Scherzo Alla Caccia, uma das páginas mais vibrantes da produção sinfônica bruckneriana. O excelente naipe de sopros da Filarmônica de Nova York tornou eletrizante a leitura muito precisa que Masur ofereceu dessa arquitetura complexa, nos crescendos que, no primeiro movimento, trazem de volta o amplo tema principal; nas ondas sonoras do verdadeiro poema sinfônico que é o scherzo, com seus apelos de corne de caça, ruídos da matilha e toda a agitação da caça; mas sobretudo no retorno, antes do final, do tema gerador da sinfonia, para um místico coral de exaltação à beleza da Criação. Mesmo nos momentos de escrita mais compacta, foi transparente a articulação e o equilíbrio dos planos sonoros. De perfeita beleza foi o contemplativo Adagio: Sehr Langsam, cheio daquela inspiração melódica muito peculiar que faz a glória dos movimentos lentos de Bruckner. Masur moldou perfeitamente o contraste entre a doçura de canto popular do primeiro tema e o tom exaltado de hino do segundo, marcado "com muita força". E levou a um encerramento de grande concentração lírica um movimento cujas suaves ondas sonoras só poderiam ter sido concebidas por um grande organista, como foi Bruckner. Extras - Uma das Danças Húngaras, de Brahms, e a abertura dos Mestres Cantores - de tirar o fôlego, com um crescendo final impecavelmente construído - foram os extras da terça e da quarta. Nos dois dias, o concerto se encerrou com o conjunto de sopros da orquestra executando - sem a intervenção do maestro - um virtuosístico arranjo de I Like to Be in America, de West Side Story, de Leonard Bernstein, homenagem mais do que merecida a um dos maiores titulares da Filarmônica.

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