Filarmônica de Nova York apresenta-se em SP

A Filarmônica de Nova York encerrou ontem, no México, a primeira fase de sua última turnê pela América Latina sob o comando do maestro Kurt Masur como diretor musical. Após três apresentações na capital mexicana, o grupo segue na hoje para o Brasil, onde se apresenta em São Paulo (domingo, no Parque do Ibirapuera, de segunda a quarta, na Sala São Paulo, com ingressos já esgotados) e no Rio (quinta, no Teatro Municipal). Completam a turnê apresentações no Teatro Municipal de Santiago, no Chile, e no Teatro Colón, em Buenos Aires, Argentina.Para a turnê, a orquestra selecionou peças de Strauss (Quatro Últimas Canções - com participação da soprano Christine Brewer -, Till Eulenspiegel, Don Juan, Morte e Transfiguração), Bruckner (Sinfonia n.º 4), Shostakovich (Sinfonia n.º 1), Schumann (Concerto para Quatro Trompas) e Tan Dun, autor premiado com o Oscar deste ano pela trilha do filme O Tigre e o Dragão (Water Percussion Concert).No México, em um concerto especial no Museu de Arte Contemporânea de Monterrey, o grupo também apresentou peças de Schubert, Mozart e uma seleção de autores de música popular mexicana. No concerto de domingo, no Parque do Ibirapuera, com entrada franca, a filarmônica vai incluir, também, além de Strauss e Shostakovich, a abertura da ópera Os Mestres Cantores de Nuremberg, de Wagner.Segundo Masur - que no início de julho volta a São Paulo para reger a Orquestra Sinfônica do Estado em um programa com Beethoven e Wagner -, a escolha de Strauss como carro-chefe dos programas teve em vista mostrar a qualidade da orquestra que, em sua opinião, toca hoje mais unida e mais comprometida com a interpretação das peças que executa. "Com Strauss, um grupo pode mostrar quão alto pode chegar em termos de qualidade técnica e interpretativa", diz Masur.No entanto, o maestro faz questão de ressaltar que o restante dos programas é também bastante interessante e significativo dentro do trabalho da orquestra. Considera a Sinfonia n.º 1, de Shostakovich - comumente deixada do lado de fora das principais casas de concerto - uma obra-prima. "É um grande testemunho de um jovem compositor, que, logo após a Revolução Russa, compôs uma obra que une política e música de modo muito interessante e que deveria ser muito mais executada do que é hoje. Trata-se de uma peça que mostra Shostakovich como o verdadeiro sucessor de Gustav Mahler."No que diz respeito à Sinfonia n.º 4, de Bruckner, Masur também chama a atenção para injustiças cometidas por outros maestros e por críticos. Lembra a piada que diz que Bruckner é o Mahler de quem não têm dinheiro para contratar músicos bons o suficiente para interpretar o autor de A Canção da Terra, e chama a atenção para o fato de que sua obra não foi totalmente compreendida pela sociedade atual. "Bruckner era um organista e a instrumentação de suas sinfonias foi pensada com o som de órgão. E, nessa sinfonia que vamos tocar, Bruckner cria uma atmosfera sonora que lembra o sonho de um jovem menino, sua imaginação romântica, sua vontade de correr o mundo e sua forte religiosidade."Apesar de se mostrar feliz com as peças escolhidas para a turnê pela América Latina, Masur afirma que em todo o mundo está ficando mais difícil montar programas modernos e um pouco mais inventivos. "Quando oferecemos obras de novos compositores ou peças menos executadas de autores já consagrados, recebemos um não como resposta, pois há um grande componente político e financeiro que interfere nessa escolha", indica. "Por isso, fiquei surpreso desta vez por conseguir incluir Bruckner e Shostakovich na turnê."Hora de parar - Masur deixa a Filarmônica de Nova York a partir da temporada 2002-2003 da orquestra, quando Lorin Maazel assume o posto (sua sucessão causou certa polêmica, pois, segundo a imprensa norte-americana, nunca ficaram claros os motivos de sua saída, assim como os da escolha de Maazel). A partir dessa temporada também, o maestro assume a direção da Orquestra Nacional da França. "Sair de Nova York será algo que farei com lágrimas nos olhos, e pensei em parar, mas o convite para trabalhar em Paris foi tentador e resolvi aceitar."Isso porque, de acordo com o maestro, a vida musical de Paris se encontra em um momento de crescimento do qual ele gostaria de participar. Além disso, ele ressalta as possibilidades de trabalho com a orquestra, que o interessaram bastante. "Por ser uma orquestra ligada ao rádio, teremos a possibilidade de transmitir para um grande número de pessoas e gravar peças de novos compositores. Além disso, a orquestra é formada por muitos jovens ambiciosos, que querem trabalhar muito; e dar uma cara à orquestra e participar deste processo me atrai bastante."No entanto, o relacionamento com a Filarmônica de Nova York deve continuar. Conforme o diretor-executivo da orquestra, Zarin Mehta (irmão do maestro Zubin Mehta, atual diretor da Filarmônica de Israel), Masur já acertou um contrato que prevê três semanas por ano de trabalho com a orquestra, "um modo de manter a forte ligação estabelecida entre o maestro ao longo dos dez anos em que ele esteve à sua frente".Sobre esse relacionamento, Masur acredita que pôde proporcionar à orquestra algo que ela não tinha quando ele assumiu o posto de direção: prazer de tocar. "Tocar havia se tornado algo mecânico e a orquestra havia perdido o contato com o público, o que criou uma distância desfavorável", lembra. Hoje, para Masur, os músicos fazem parte da vida artística da cidade de modo mais amplo e direto, o que interfere nos seus trabalhos. "Sinto que a orquestra está interessada na concepção do regente, os músicos querem entender cada passagem que estão tocando, querem ilustrar cada frase musical, e entendem, também, quem é o público que está à frente deles, o que faz muita diferença." Se Masur pôde dar isso à orquestra, o que ganhou em troca? "Todo maestro tem desejos e poder vê-los realizados pela orquestra é muito bom."Aos 72 anos, Masur, quando indagado sobre o que de novo podem os regentes acrescentar a repertórios já gravados por centenas de orquestras e maestros, lembra uma frase que ouviu do célebre regente russo Yeuvgueni Mravinsky, no início de sua carreira. Masur havia ido a Leningrado e, após ver a orquestra local executar diversas vezes as mesmas sinfonias de Tchaikovski perguntou a Mravinski o que fazer contra a rotina. A resposta foi simples: se os músicos já sabem a partitura de cabeça, já tocaram várias vezes a peça, basta fazer um ensaio livre para lembrá-los da beleza da música. "É isso", completa o maestro.Orquestra Filarmônica de Nova York - Domingo, às 11 horas. Grátis. Praça da Paz - Parque do Ibirapuera. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º); segunda, concerto fechado, terça e quarta, às 21 horas. De R$ 120,00 a R$ 290,00. Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, s/n.º, tel. 3337-5414

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