Eugênio Sávio/Divulgação
Eugênio Sávio/Divulgação

Filarmônica de Minas Gerais ganha sala de concertos em Belo Horizonte

Orquestra apresentou a 'Sinfornia n.º 2' de Mahler na nova sede

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

01 Março 2015 | 19h04

A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais inaugurou, com um concerto na noite da última sexta-feira, 27, sua nova sede: a Sala Minas Gerais, parte de um complexo batizado em homenagem ao ex-presidente Itamar Franco. No repertório, a Sinfonia nº 2 de Mahler, com a participação do Coral Lírico de Minas Gerais, o Coro da Osesp, a meio-soprano Ednéia de Oliveira e a soprano Edna D’Oliveira, sob a regência de Fábio Mechetti.

A Sala Minas Gerais, localizada no Barro Preto, ocupa uma área de 32 mil metros quadrados - o complexo inteiro, projetado por Jô Vasconcellos, inclui ainda a nova sede da Rede Minas, da Rádio Inconfidência e um restaurante, além de espaço de convivência, e chega a 41 mil metros quadrados. O teatro tem capacidade para 1.500 pessoas e foi projetado pelo arquiteto especializado em acústica José Augusto Nepomuceno, o mesmo responsável pela Sala São Paulo.

O formato da Sala Minas Gerais, no entanto, é um pouco diferente do adotado em São Paulo. Foi aplicado, segundo explica Nepomuceno, o “conceito surround”, ou em terraços, “dentro de uma orientação longitudinal, ou retangular”. “Por isso trouxemos o envolvimento e a proximidade da tipologia em terraços com os atributos acústicos das salas em forma de caixa-de-sapato”, escreve ele em texto no qual explica as bases do projeto.

Ao longo de todo este ano, a filarmônica vai interpretar um repertório bastante diversificado - e é essa é uma maneira de testar a sala e fazer os ajustes necessários. É um processo, claro. Mas, na noite de sexta, os ouvidos mal podiam disfarçar a curiosidade: como soa, afinal, a Sala Minas Gerais? A primeira (excelente) impressão é de um som brilhante, que favorece leituras atentas às dinâmicas e a detalhes.

Tudo soa bastante transparente. E isso ficou ainda mais evidente por conta da interpretação da filarmônica sob regência de Mechetti. Seu Mahler se faz a partir da busca de equilíbrio entre os naipes e da exploração dos timbres da orquestra. Na segunda sinfonia, isso é particularmente importante, uma vez que a obra é marcada por enormes contrastes. E, nesse sentido, foi muito feliz toda a sequência que se inicia com a canção Luz Primordial (interpretada com delicadeza e pathos por Ednéia de Oliveira) e desemboca no monumental último movimento, com participação do coro (em grande forma) e da soprano (a excelente Edna D’Oliveira).

Criada em 2007, a Filarmônica de Minas Gerais conseguiu, em pouco tempo, a façanha de transformar-se em uma das principais orquestras do país. Já realizou mais de 2.500 apresentações, chegando a um público de 600 mil pessoas; atraiu para Belo Horizonte grandes maestros e solistas e, apresentando um repertório diversificado, tem sido capaz de fugir do óbvio e de fazer da cidade um polo importante da vida sinfônica brasileira.

Com a nova sala, o grupo - que antes apresentava-se no Palácio das Artes - vai poder duplicar seu número de concertos já em 2015 e a ideia é poder também desenvolver e ampliar outros projetos que tem como objetivo a formação de músicos e de público. Nesse sentido, a expectativa é de que a Sala Minas Gerais não seja apenas palco de concertos, mas transforme-se, nas palavras de Mechetti, “em um polo de irradiação de música e cultura, entendendo a cultura não como um evento, mas como um processo”.

A chegada da sala coincide, no entanto, com o momento de troca das forças políticas no comando do estado, agora chefiadas pelo governador Fernando Pimentel (PT). E, no início de janeiro, ao assumir o posto de secretário de Cultura, Ângelo Oswaldo concedeu uma entrevista na qual referiu-se à sala como uma das “Versalhes construídas em Minas Gerais, com o povo à margem”. Na noite de sexta, porém, Oswaldo comprometeu-se a finalizar a Estação Itamar Franco, uma vez que os demais prédios do complexo ainda estão em obras.

É direito e dever do Estado fiscalizar a atividade de qualquer instituição por ele financiada. Mas associar a música clássica e a sua importância no contexto cultural e social a Luis XIV, Maria Antonieta e a uma elite extravagante é recorrer a um clichê que o meio musical brasileiro tem derrubado nos últimos anos. Melhor seria que, juntos, governo e orquestra pudessem refletir juntos, sem preconceitos, sobre os sentidos da atividade de uma orquestra de excelência em um mundo em constante transformação como o nosso. Espaço para isso eles agora já tem.

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