Filarmônica Checa se apresenta na Sala São Paulo

Resgatando obras pouco conhecidas de compositores célebres ou tornando célebres compositores esquecidos pelo mainstream da música internacional, o maestro alemão Gerd Albrecht conquistou um lugar especial no panorama da regência. Como convidado, já esteve à frente de todas as principais orquestras do globo. Como diretor musical, ajudou a manter no primeiro time grupos como a Filarmônica Checa, que ele dirigiu nos anos 80 e 90 e com a qual chega a São Paulo esta semana para dois concertos, nesta terça e na quarta-feira, na Sala São Paulo, dentro da temporada de concertos internacionais da Sociedade de Cultura Artística.Albrecht preparou dois programas para a turnê pela América Latina. Nesta terça-feira, abre o concerto com a Abertura Otello, de Dvorak, interpreta o Concerto n.º 5 para Pianoe Orquestra de Beethoven e encerra a noite com a Sinfonia nº 8 de Dvorak. Na quarta, toca Lontano, de Ligeti, o Concerto para Piano e Orquestra de Schumann e a Sinfonia n.º 9 de Dvorak. A solista, nas duas apresentações, será Elisabeth Leonskaya, uma das maravilhas russas do piano, dona de uma trajetória das mais sólidas, seja em apresentações ao vivo, seja em CDs - sua série com Kurt Masur, a Filarmônica de Nova York e todos os principais concertos do repertório é audição mais que recomendada.Por telefone, de Praga, um simpático Albrecht, que nada tem a ver com a figura sisuda das fotos, explicou a composição do programa. "Esta é uma orquestra checa. Tem 110 anos, o que significa que o próprio Dvorak regeu suas obras com ela. Então é natural que exista uma expectativa de que interpretemos obras como as sinfonias 8 e 9, que estão entre as suas mais célebres. Mas fiz questão de incluir a Abertura Otello. Quantas vezes você já a ouviu em concertos ultimamente? É muito raro. O que não faz sentido, porque é uma peça das mais interessantes dentro da obra de Dvorak."E como explicar, então, sua ausência - e, aí, a Abertura Otello serve como um entre muitos outros exemplos. "A explicação é simples: comodismo. O programador do concerto subestima o público que, por sua vez, se acostuma com programas menos instigantes e deixa de exigir uma atitude mais ousada. E aí os diretores artísticos vêm e dizem que, se não ousam, é porque o público não quer. É uma situação antiga", diz Albrecht. "Quando você se arrisca um pouco, descobre que o resultado pode ser dos mais enriquecedores. Há uns anos, estive no Japão em turnê. O público japonês, todo mundo diz, é conservador, não gosta de nada que saia da rotina, etc., etc. Pois fiz um festival Janacek lá. Toquei a Missa Glagolítica, por exemplo. Um sucesso. As platéias merecem um voto de confiança."Albrecht conta que esta busca pelo desconhecido o acompanha desde cedo. "Um de meus primeiros trabalhos como diretor foi em um teatro no qual meu predecessor havia criado uma série de música contemporânea. Era um fracasso, ninguém ia assistir e esperavam que eu cancelasse, mas não o fiz. Ao contrário, antes de cada apresentação, conversava com o público e colocava os compositores ali do meu lado, explicando suas idéias. De uma hora para a outra, o público apareceu, a televisão veio, os jornais", ele conta. E explica que foi assim que percebeu a força e a importância de um trabalho didático. "Um cara como Leonard Bernstein foi fundamental. Conversava com o público, foi à televisão ensinar música. É esse o modelo. É disso que precisamos." Orquestra Filarmônica Checa. Sala São Paulo (1.501 lug.). Praça Júlio Prestes, s/n.º, centro, 3337-5414. Hoje e amanhã, 21 h. R$ 140 a R$ 280

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