Jeremy Sangare/Divulgação
Jeremy Sangare/Divulgação

Festival Sesc de Música de Câmara propõe diversidade a clássicos

Com curadoria de Claudia Toni, festival reúne, de 22 de novembro a 2 de dezembro, grandes grupos e propõe novas formas de diálogo

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

22 Novembro 2018 | 06h00

Com a diversidade como norte, começa nesta quinta, 22, o Festival Sesc de Música de Câmara, que vai ocupar diversas unidades da instituição na capital e no interior até o dia 2 de dezembro. O objetivo é mostrar diferentes aspectos da música de câmara, propondo o diálogo entre artistas brasileiros e estrangeiros – e repensar o modo como está organizado o meio musical brasileiro. A abertura oficial, hoje, acontece no Sesc Consolação, com o Quarteto Zaïde, da França, e o clarinetista brasileiro Ovanir Buosi.

“O que me aflige no nosso meio musical é a falta de diversidade”, diz a curadora do festival Claudia Toni. “A programação clássica é pequena e óbvia, tende a estar apartada daquilo que está acontecendo no mundo. É limitada. O festival busca seguir um outro caminho, tratando de temas importantes, como a presença das mulheres.” 

Mesmo à luz de formatos tradicionais, Toni acredita na possibilidade de inovação. “Teremos um quarteto de cordas tocando com um clarinetista. Você pode perguntar: qual a novidade nisso? Ela está no fato de que temos um quarteto francês tocando com um solista brasileiro, o contrário do que costuma acontecer”, ela explica. 

“E, em outros casos, fomos além nesse diálogo com artistas brasileiros, como na encomenda que fizemos para o compositor Leonardo Martinelli, cuja obra será estreada por um grupo que tem ganho cada vez mais espaço lá fora, o Berlin Counterpoint.” Martinelli também participa de uma série de debates entre participantes do evento no dia 26, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc.

Outro destaque da programação é o Tallis Scholars, grupo inglês especializado na música do Renascimento, que além de se apresentar fará um dia de ensaios com participação de cantores brasileiros. O acordeonista dinamarquês Andreas Borregaard vai se apresentar ao lado do Quarteto Camargo Guarnieri. O Quarteto Troupe, baseado em Londres, com um trabalho dedicado à formação de público, fará apresentações para o público infantil e adulto com um repertório que inclui a música brasileira. O fagotista Fabio Cury vai se unir aos músicos do Grupo de Pesquisa de Música da Renascença e Contemporânea (GreCO), para um programa que terá como destaque o trabalho da compositora brasileira Michelle Agnes, que mora em Paris. O Tesla Quartet, grupo norte-americano, vai se apresentar com o pianista Ricardo Castro (o conjunto também fará o Quarteto n.º 17 de Villa-Lobos, além de trabalhar em Salvador com os jovens do Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (Neojiba).

Um programa especial vai reunir os percussionistas Ricardo Bologna e Eduardo Leandro, membros do Duo Contexto, a jovens músicos, em um espetáculo batizado de Entre Tambores, Baquetas e Chocalhos, que também terá a participação do pianista Horácio Gouveia. “É muito bom ver esse encontro de gerações, em que muito é compartilhado, ensinado, cada detalhe”, diz Toni, que ressalta a presença no programa da obra Ionisation, de Edgar Varèse. “É uma composição que tem 90 anos de idade e há quanto tempo não é feita aqui?”

Mercado. Para Claudia Toni, o festival tem como objetivo também mudar a percepção que se tem no Brasil da música de câmara. “Eu fico surpresa que essa não seja uma preocupação constante. Nunca produzimos tantos músicos e com tamanha qualidade. Mas a pergunta que eu coloco é: essa gente vai tocar onde?”

Para ela, a música de câmara é uma opção interessante de caminho. “Eu coloco uma questão prática. Municípios pequenos podem não ter verba para manter uma grande orquestra sinfônica, mas um conjunto pequeno de música de câmara pode ocupar esse espaço. E esse, claro, é apenas um exemplo.”

Ela acredita, no entanto, que é preciso repensar aspectos da formação de artistas. “As instituições de ensino cresceram em qualidade, mas continuam velhas na forma de abordar a carreira do músico. Como um jovem músico vai se preparar para enfrentar a vida profissional? É preciso formar artistas capazes de repensar o próprio fazer musical, entendendo que uma orquestra não precisa ser o único objetivo possível. Faz parte da atividade do artista hoje buscar alternativas para se fazer música de outras formas”, acrescenta.

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