Festival reúne 11 grupos de hip hop em SP

Quando o Pharcyde surgiu na cenahip hop de Los Angeles, a crítica saudou - com surpresa - ogrupo como sendo "a banda de Los Angeles que não é do gangstarap", segundo descreve a enciclopédia Vibe de hip hop. Era1992, e o mundo do rap na cidade estava em pé de guerra,trocando as rimas pela metranca."Nestes dez anos, as pessoas mudaram, o gosto daspessoas mudou, o gangsta rap já não é uma opção festejada e hádiferentes caminhos para o hip hop - você tem Puffy Daddy e temBritney", disse o rapper Bootie Brown, do Pharcyde, falando portelefone de Los Angeles. Isso é bom, na sua avaliação, porquemanteve o gênero no topo o tempo todo. "Eu respeito, porexemplo, Eminem, acho que faz boa música, mas há um tanto devaidade que suplanta a música hoje em dia, e isso não é bom - umcaso claro é o de Britney Spears", considera Brown.Com letras divertidas, um senso exato de escracho,inteligência e também raiva - por que não? -, o Pharcyde fez seucaminho e chega aos dez anos de existência ainda na estrada. É agrande estrela do festival SP Rima com Paz, no Sesc Belenzinho,na sexta e no sábado, a partir das 21 horas, no Espaço Dançanteda unidade. Ao todo, sobem ao palco 11 atrações, três delasgrupos internacionais .Bootie Brown é uma figura simpática e a idéia de tocarno Brasil deixa-o muito animado. Diz que a música que se fazaqui é "mainstream" e o underground brasileiro viaja o mundo,influencia e tem diálogo com a música de todo o planeta. "Adoroa vibração, o background africano da sua música", diz.Agradeceu pelos elogios ao mais recente disco doPharcyde, Plain Rap (lançado aqui pela Trama), mas acha quebom mesmo vai ser o próximo disco. "Espere só, você vai ver",anuncia. Ele diz que será lançado por um selo alemão e será ummix entre um rap balançado e uma batida mais funk.Segundo Bootie Brown, é correto dizer que o estilo doPharcyde alimenta-se tanto de referências do Cartoon Networkquanto do jazz de Thelonious Monk. "Eu adoro os desenhos doCartoon, uma arte que se vale da realidade mas não depende dela;que procura passar mensagens para as crianças sem ser moralistae que vê as coisas como elas poderiam ter acontecido", eleafirma.Chega mesmo a exemplificar com uma antiga série em queum caubói, um bad guy dos cartuns, passa parte da trama sedigladiando com os índios e termina tudo numa espécie decelebração louca, com todo mundo dançando. "É isso, é comopoderia ter acontecido", brinca.O mundo de referências e comentários rimados do Pharcyde, no entanto, vai longe. Na canção Drop, ele canta que o punké obsoleto, que suas músicas falam mais besteira do que se vendecoisas em liquidação. Em Trust, descrevem a si mesmos como"maestros do ritmo e construtores de realidade". Tudoenvolvido numa deliciosa atmosfera funk."Há grandes diferenças entre nosso primeiro álbum e omais recente", diz Bootie Brown. "Nós tínhamos naquela época21, 22 anos, e éramos muito palhaços, fumávamos muito e fazíamostudo por intuição", considera. "Eu gosto de ter diversão, defazer coisas divertidas, mas acho que mesmo na diversão há umlado sério e outro alienado", pondera.Ainda assim, sua nova disposição não chega ao cúmulo defazer uma canção sobre os atentados de 11 de setembro, avisa."Os Estados Unidos têm de começar a pensar que talvez mereçamisso, que algo está errado quando há países que têm tanto eoutros que não têm nada", diz. "Não gosto dessa situação deembargo, na qual o FBI entra na minha casa procurando por uminimigo, que me enche de perguntas esquisitas quando vou tirarminha carteira de motorista."Quando surgiu, no circuito underground dos clubes de LosAngeles, o Pharcyde era um quarteto: os MCs Imani Wilcox eBootie Brown (codinome de Royme Robinson), mais Slim Kid (TreHardson) e Fatlip (Derrick Stewart). Este último foi o primeiroa deixar a banda, no ano passado - os remanescentes disseram queestava barbarizando com os aditivos químicos e a convivênciaficou difícil.Descobertos pelo selo Delicious Vinyl, os quatroproduziram o disco de estréia em 1993 - Bizarre Ride II to thePharcyde. Era seu trabalho mais adolescente, com boutadessobre sexo e humor de rua, um tanto rasteiro e inconseqüente.Em 1995, produziram LabCabinCalifornia (também lançadoaqui pela Trama), já mais trabalhado, com um pé no R&B e algumasagaz visão do mundo - mas não exatamente algo revolucionário."Ela foi minha paixão de colégio desde o início/Quanto tudo queeu tinha era esperança, minha saúde e minha arte", canta BootieBrown em Groupie Therapy.O Pharcyde modificou-se nos últimos tempos. Os MCs Imanie Bootie Brown são os anfitriões da coisa, ladeados pelo DJM-Walk. O álbum Plain Rap é a principal base do espetáculo,mas os fãs podem esperar canções de toda a carreira da banda,especialmente hits como Otha Fish, Ya Mama e Passin MeBy.Na sexta, quando começa o festival SP Rima com Paz, umdesfile da melhor estirpe do rap nacional toma o palco do SescBelenzinho. A estrela maior, é claro, são os Racionais MCs,maior fenômeno do rap nacional.Os Racionais venderam mais de 1 milhão de discos de seumais recente trabalho, Sobrevivendo no Inferno. Gaba-se denão contar com esquema promocional, mas tem bom trânsito na MTVe emissoras mainstream. Está na estrada com canções inéditas deseu próximo disco, fazendo uma avant première do trabalho emtodo canto que se apresenta.Além dos Racionais, estarão em cena o grupo SNJ (SomosNós a Justiça), o Zion-I, a dupla de MCs de Niterói Black Alien& Speed e a Academia Brasileira de Rimas. No sábado, também às 21 horas, é a vez de Pharcyde,Rappin´ Hood (com participação especial de Mzuri Sana), KidKoala, o quinteto paulistano Mamelo Sound System e o Autoload(formado pelo baixista Marcos Kuru e pelo DJ/produtorPerifÉrico).A programação visual da mostra é do grafiteiro Flip, umdos principais integrantes do CISMA, grupo de grafiteiros de SãoPaulo. SP Rima com Paz. Sexta, às 21 horas: Racionais MCs,SNJ, Zion-I, Black Alien & Speed, ABR. Sábado, às 21 horas:Pharcyde, Kid Koala, Autoload, Mamelo Sound System, Rappin´Hood.R$ 12,00. Sesc Belenzinho. Avenida Álvaro Ramos, 991, tel.6605-8143.

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