Festival põe em destaque a cena punk

Sem as roupas pretas e o lápisescuro nos olhos, dificilmente alguém imaginaria que a estudanteMaria Natália Pereira de Queiroz, de 17 anos, é uma adepta domovimento punk. Moradora de Alto de Pinheiros, bairro de classemédia alta de São Paulo, Natália circulava pela Casa de CulturaTendal da Lapa, na terça-feira, para conferir o festival punkO Fim do Mundo, que permanece no local até sábado. "A genteluta pela igualdade", defende ela. "Antes, eu era gótica, mas comecei afreqüentar esses lugares porque o namorado da minha amiga épunk." Natália identificou-se tanto com a cartilha anarquista elibertária defendida pelo movimento que há um ano se juntou aele.Preconceito ou repressão da família? A estudante garanteque não sofre, mas seu pai não perde a oportunidade de umapequena provocação quando ela sai com os amigos: "Onde você vaivestida assim, vai para um velório?" Para sua amiga, aestudante Vanessa Cristina Illa, de 14, ser punk na idade delasnão significa "fogo de palha" de adolescente. "Tem gente que jápassou dos 30 anos e não abandonou o punk", afirma.É o caso de André Athayde Beck, de 31 anos e fundador dogrupo Suco Gástrico, que se apresentou no festival. A banda foiformada em 1989 por jovens operários. Atualmente, está naterceira formação. "Naquela época, eu tinha 19 anos. Sofria comproblemas característicos da classe suburbana e, ao mesmo tempo,tinha conhecimento da cultura anarquista", diz Beck. "A gentesabia que a opressão era causada pelo governo federal."A criação da banda foi um grito de protesto. Hoje, eleacredita que o conceito de punk não é mais o mesmo. "Há ummovimento paralelo, de pessoas não sofridas, não assalariadas,que vivem em belas mansões e comem sucrilhos e cereais todos osdias", critica.Apesar da atitude radical, o Suco Gástrico pedia em seushow, por intermédio de sua vocalista, Graziella Tini, um mundonovo, sem violência. A banda abriu o festival de terça-feira,seguido pelas bandas Lixomania, Antropólogos, Rrraict Tuff eFungos. No total, o evento O Fim do Mundo reúne 60 bandasundergrounds. É um dos principais - e raríssimos - festivais depunk nacional. Faz parte da 2.ª Semana Jovem, realizada com oapoio da Secretaria Municipal de Cultura, e fecha a trilogiainiciada em 1982, com o festival O Começo do Fim do Mundo.No ano passado, levou o nome de A Um Passo do Fim do Mundo.Estudioso do movimento e autor do livro O Que É oPunk, o escritor e teatrólogo Antônio Bivar é idealizador doevento. "Morei na Inglaterra durante quatro anos, quandoexplodiu a volta do punk, no início dos anos 80", conta ele, umdos organizadores deste O Fim do Mundo. "Ao retornar aoBrasil, vi que era algo que já existia aqui."Segundo Bivar, o início do punk remete a meados dos anos70, nos Estados Unidos. Mas o movimento explodiu mesmo naInglaterra. Entre os ingleses, é notória a contribuição dolendário Sex Pistols. "O punk nasceu da insatisfação doproletariado. Hoje, o movimento não é tão de impacto, mas deidentificação."Quem quiser conhecer mais o cenário punk brasileiro valeuma passada no festival do Tendal. Amanhã (08), às 15h30, serárealizada mostra de vídeo Ópera Punk e debate e, mais tarde,a partir das 19 horas, se apresentam as bandas Esquizofrenia,Indigesto, Grind Day, Passeatas e Esgoto. Sábado, dia doencerramento, estão programados shows a partir das 15h30, comAto Público, Pátria Armada, Phobia, entre outros.Festival O Fim do Mundo. Amanhã (08), das 19 às 22horas; sábado, das 16 às 22 horas. Grátis. Casa de CulturaTendal da Lapa. Rua Guaicurus, 1.100, São Paulo, tel. 3862-1837.Até sábado.

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