Festival Percpan revela novos talentos

Desde que foi criado, em 1994, o Percpan - Panorama Percussivo Mundial já fez e continua fazendo história nos quesitos ineditismo e descobertas sonoras. De volta ao palco e ao conceito de origem, a 13ª edição do festival, no Teatro Castro Alves, em Salvador, revelou aos ouvidos nacionais no fim de semana alguns nomes pelos quais vale a pena pesquisar e se aprofundar: o grupo anglo-indiano The Dhol Foundation, a dupla formada pelo italiano Carlo Rizzo e pelo francês Paul Mindy, e o trio liderado pelo baterista japonês Takashi Numazawa. Foram experiências estimulantes, porque além da exibição de técnica apurada e do senso rítmico, esses músicos estabelecem empatia com o público combinando invenções, experimentalismo e dinâmica de performance. Os paulistanos e cariocas terão a oportunidade de vê-los em setembro. No Rio, os palcos já estão até definidos. "Quero reunir os mais acústicos (Carlo Rizzo, Giovanni, Mino Cinelu) na Sala Cecília Meireles e os mais dançantes (Nação Zumbi, Takashi Numazawa e Dhol Foundation) no Circo Voador", conta a baiana Elizabeth Cayres, socióloga e idealizadora do festival. "O próximo terá foco na África", avisa o pandeirista carioca Marcos Suzano, diretor artístico do evento, cargo que recebeu das mãos de Naná Vasconcelos e Gilberto Gil. Apesar de nunca ter tido ligação com a indústria cultural, o Percpan chegou a cortejar o mainstream, convidando cantores como Jorge Benjor e Adriana Calcanhotto em outras edições. Perdeu patrocínio e espaço em Salvador, mudou a sede para o Recife em 2001 e, dois anos depois, para o Rio. Esta 13.ª edição foi marcada não só pelo bom resultado geral, mas pelo restabelecimento de seu conceito. Ou seja, mesmo que alguns músicos tenham apresentado repertório com música vocal e instrumentos harmônicos, a estrela principal foi a percussão. Liderado pelo genial Johnny Kalsi - que já tocou no Asian Dub Foundation e na trilha do filme A Última Tentação de Cristo, de Martins Scorsese -, o Dhol Foundation, no sábado, deu trabalho para os seguranças, que não conseguiram impedir a dança frenética da platéia do Teatro Castro, onde qualquer movimento corporal em pé é coibido veementemente. Mesclando batidas tradicionais com modernas, via eletrônica, hip-hop e o bhangra indiano, o Dhol transformou o teatro num clube. Houve até quem reconhecesse certa semelhança em seu tecno tribal com as estripulias de Carlinhos Brown na Timbalada. As comparações param aí. Sem dança, mas também envolvente, o trio de Numazawa obteve resultado de impacto semelhante no domingo em sua longa jam session, misturando psicodelia, "rumba louca", rock e new age. Mal se ouviu o pandeiro de Marcos Suzano, que fez participação discreta diante de violino eletrificado, baixo e guitarra em contraponto à bateria alucinada de Numazawa. Este raramente tocava uma seqüência lógica, criando variações surpreendentes sobre o mesmo tema. Fazer show percussivo numa terra como a Bahia deixa alguns estrangeiros encabulados. Foi o que observou o francês Paul Mindy, que, acompanhando Carlo Rizzo, tocou e cantou clássicos nacionais, como Berimbau (Baden Powell/Vinicius de Moraes) e Saudade da Bahia (Dorival Caymmi). Explica-se: ele é professor do Conservatório de Aubervilliers-LaCourneuve, especializado em música brasileira. A sintonia com Rizzo fez da apresentação da dupla a mais bem resolvida do festival. Rizzo é músico de espantosa criatividade e chegou ao pico ao executar o tamborim multitonal, que ele próprio inventa, toca com naturalidade ímpar e dali tira sons de uma bateria inteira com a palma da mão. Boa parte desta edição foi marcada por apresentações de peças longas e únicas, caso do congueiro porto-riquenho Giovanni Hidalgo, do francês Mino Cinelu e do trio de Numazawa. Longe do transe provocado pelos Tambores do Burundi em 1999, Hidalgo e Cinelu exibiram boa técnica e criatividade experimental, mas fizeram o que se chama de show para músico. Atração mais popular, os pernambucanos do Nação Zumbi, já se sabe, batem tambores que pesam toneladas de maracatu. O mais interessante da atitude do grupo, que fechou o festival em alta, é que não se limitou a repetir o excelente show da turnê de Futura. Adequando-se à qualidade acústica do teatro, os músicos exploraram aspectos menos vistos nos shows que costumam fazer para multidões. Talvez nunca tenham executado tão bem ao vivo temas instrumentais como Coco Dub. O outra atração nacional de maior interesse foi o percussionista carioca Ricardo Siri, seu grupo e a já famosa carcaça de Fusca. Com buzina, tabla, panelas dentro de tinas d´água e até didgeridoo (aquele instrumento de sopro aborígine popularizado pelo grupo Jamiroquai), o som de Siri é universalista. Tem jazz, música celta, árabe, samba, mas os temas carecem um pouco de melhor finalização. O repórter viajou a convite da produção do festival

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