Hannah Carvalho
Hannah Carvalho

Festival Minas no Front coloca bandas lideradas por mulheres sob os holofotes

Dominatrix, Cora, Miêta, Rakta, My Magical Glowing Lens e Ema Stoned se dividem em duplas ao longo de três noites de festival

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2018 | 06h00

“Eu queria ter mais garotas na banda, mas era difícil de encontrar”, conta Gabriela Deptulski, a criadora e líder da banda de uma garota só My Magical Glowing Lens, iniciada no quarto dela, no município de Colatina, no Espírito Santo.

Com formações diferentes a cada turnê ou disco, a artista e produtora conta que busca, a cada nova empreitada no estúdio ou Brasil adentro, companheiras de banda. “Elas ficavam escondidas. É bem comum que elas fiquem em casa, que demore mais tempo para conseguir seguir a carreira como musicista.” 

Um grande exemplo do funcionamento do lema “do it yourself” – bastante usado no mercado independente desde o início dos anos 1990, traduzido para português como “faça você mesmo” –, Gabriela, então estudante de filosofia, colocou a guitarra para vibrar, plugou os sintetizadores e colocou-se diante do microfone.

Assim, sozinha, em meio a uma nova onda de redescoberta da psicodelia pelas bandas indies do País (quase todas formadas por homens), ela estreou com um EP, com o nome da banda, em 2014. 

Com um disco já lançado (chamado Cosmos, do ano passado), outro engatilhado (numa parceria com a banda Bike) e projetos com trilhas sonoras de filmes e peças de teatro, Gabriela é uma das atrações do novo festival criado pelo Sesc Pompeia, iniciado nesta quinta-feira, 21, na zona oeste da cidade. Com ela e mais cinco bandas que dão protagonismo às mulheres, o Minas no Front visa a dar espaço no palco da Comedoria para o protagonismo feminino. As seis bandas se dividem em duplas e protagonizam uma noite cada uma, entre os dias 21 a 23. 

Além de My Magical Glowing Lens, estão convocadas Dominatrix, Cora, Miêta, Rakta e Ema Stoned. Cada uma entrega, dentro da sua identidade própria, caminhos que foram percorridos pelo rock ao longo das últimas quatro décadas, pelo menos. Da fonte psicodélica do My Magical Glowing Lens ao poder do hardcore da Dominatrix e os ruídos guitarrísticos dos anos 1990 que rodeiam o som da Miêta

“É interessante encontrar um evento com uma estrutura dessas e com essa proposta, com bandas relevantes para o cenário nacional”, diz a mineira Bruna Vilela, guitarrista da Miêta, banda que marca seu nascimento no ano de 2016. Ano passado, já como um quarteto e com a formação definida, o grupo lançou o potente e ruidoso Dive. “Para a gente, é importante estar ao lado dessas bandas.” 

A mais veterana da programação é a Dominatrix, que ocupa seu espaço no que pode ser entendido como um ponto de intersecção entre o hardcore e o punk desde 1995. Para Elisa Gargiulo, guitarrista e vocalista da banda, são tempos de mudança e representatividade. “Até hoje a gente é colocada a discutir o espaço das mulheres na música. Ouvindo questões como ‘vocês ainda sofrem preconceito?’”, ela diz. “Ainda somos vistas como porta-vozes de questões de gênero, muitas vezes não somos consideradas artistas.”

Gabriela Deptulski ainda segue criando seus espaços. De olho na legalização do aborto na Argentina, há alguns dias, ela entende que as mudanças passam pela união. “É quando a gente percebe que, unidas, a igualdade vai acontecer muito mais rápido.” 

MINAS NO FRONT 

Sesc Pompeia. Comedoria.  

R. Clélia, 93, tel. 3871-7700.  

5ª (21), 6ª (22) e sáb. (23),  às 21h. R$ 6 a R$ 20. 

CONHEÇA AS BANDAS:

Dominatrix 

Banda mais experiente do line-up, atua com a guitarra em alto volume e bateria acelerada e letras incisivas. Toca no dia 21 

Cora 

Formada em 2013, Cora lançou no ano passado seu primeiro EP, Não Vai Ter Cora, e El Rapto, o disco de estreia, neste ano. É um trabalho poderoso, com ecos e profundidade. Toca no dia 21

Miêta 

Nascido a partir de um post de Facebook, o quarteto cresce nos palcos e reverbera, com maestria, os ruídos do rock alternativo dos anos 1990. Toca no dia 22 

Rakta 

Grupo que facilmente pode se tornar queridinho de quem assiste a alguma apresentação dele ao vivo. Experimental e ritualístico. Toca no dia 22 

My Magical Glowing Lens

Banda criada por Gabriela Deptulski usa a lisergia da guitarra e sintetizador para tratar de preocupações com o meio ambiente e o feminino. Toca no dia 23 

Ema Stoned 

Muito mais do que um nome criativo, o trio (foto) experimenta os limites possíveis da sua formação e faz o ouvinte gravitar no espaço, sem rumo. Toca no dia 23 

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