Beto Figueiroa
Beto Figueiroa

Festival Mimo coloca no mesmo palco Liniker e As Bahias e a Cozinha Mineira

Em Paraty, atrações com foco nas questões de gênero e de afirmação feminina são o forte desta edição do evento, que segue até domingo, 8

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 12h21

Nem foi tudo tão arquitetado quanto parece. Aos poucos, quando fechava a programação do festival de música Mimo deste ano, a produtora e idealizadora Lu Araújo sentiu um movimento natural levando o evento em direção a um lugar necessário. A afirmação de valores e as discussões relacionadas ao gênero seriam o ponto de exclamação da edição. A passagem da Mimo por Paraty (RJ) virou então, pela primeira vez em um festival no Brasil, um palco para atrações formadas por mulheres e artistas trans.

A abertura desta sexta, 6, teve a dobradinha que se dialoga naturalmente. O palco ao lado da Igreja da Matriz, na Praça Central, teve shows de As Bahias e a Cozinha Mineira e, sem seguida, Liniker e os Caramelows. Já havia sido realizado pela tarde um encontro de ideias mediado pela jornalista Christina Fuscaldo, entre plateia e a artista Liniker. O festival segue até domingo, 8, com nomes como a cantora inglesa Ala.ni, Baby do Brasil e a malinense Oumou Sangaré (sábado, 7) e Teresa Salgueiro (8).

Um circuito de filmes, regido pela diretora Rejane Zilles, o Festival Mimo de Cinema, garante uma programação de vida própria e intensa. As atrações de sexta, na Casa de Cultura, foram Bambas, de Anna Furtado, e O Piano que Conversa, de Marcelo Machado na faixa das 18h. Às 20h, ou com um pouco de atraso, foram exibidos Ilú Obá de Min, Uma Homenagem a Elza Soares, bela obra de Beto Brant sobre o bloco negro formado por mulheres que percorre as ruas do centro de São Paulo uma vez por ano, e Clara Estrela, de Susanna Lira e Rodrigo Alzuguir, um comovente perfil de Clara Nunes retratado apenas por sua voz e suas ideias retiradas de depoimentos e entrevistas.  

De volta aos shows, no palco da noite da sexta, com um show após o outro, foi mais fácil entender os pontos de conexão entre os dois trabalhos, As Bahias e Liniker, e os de distanciamento. Apesar de empunharem o mesmo discurso, lutarem pelas mesmas causas, cantarem juntas em momentos dos dois shows, há um vale que os separam. E, artisticamente, Liniker se sai mais bem resolvida. Seu projeto de som, à frente dos Caramelows, tem coesão e proposta, ainda que surgida de forma natural pelo apego dos músicos à linguagem dos anos 1970. Não há maiores ousadias em músicas como Remonta, Zero ou Louise du Bresil, uma postura tranquila que colide com a coragem de tomada de posição fora do palco, mas há uma linha ligando tudo o que acontece ali. 

As Bahias ainda carecem de um acabamento, ou de fazer desta falta de acabamento uma verdade. O canto de Raquel Virgínia e Assucena Assucena, duas explosões de energia à frente da banda, tomam em muitas situações a ideia do protesto, o que fica sempre a um milímetro do grito. E, por mais relevante que seja o texto, se ele for sempre gritado em uníssono, por quase duas horas, sua força será a mesma do que a de um sussurro.

Com menos novidades no repertório do que As Bahias, que colocavam no palco da Mimo o repertório do novo 'Bixa' (título em referência ao álbum 'Bicho', de Caetano Veloso), Liniker apostou em sua jovem mas já poderosa coleção. Você Fez Merda, Box Okê e Pra Ela se juntavam a outras seis ou sete canções que as pessoas cantam com as mãos para cima. Ela tem força de cena indiscutível, mas sua voz é um fio de uma ideia de interpretação que se sustenta pelas referências que ouve sobretudo de cantoras e cantores norte-americanos e brasileiros dos anos 1970. Liniker pode crescer muito se realmente quiser partir para improvisos deste canto negro, mas precisa estudar. Ou melhor, se estudar, para entender o que está perdendo com a própria limitação. Quando ganhar fluência nesse idioma, será tão corajosa no canto quanto é na vida.       

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