Fernando Cavalcanti/Divulgação
Fernando Cavalcanti/Divulgação

Festival em Copacabana resume a 'anti-cena' mais produtiva da música brasileira

Tulipa Ruiz, Emicida, Chico Cesar e Gal Costa, ao lado de Milton Nascimento, fazem balanço de um modelo que completa dez anos

Julio Maria / RIO, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 19h20

Um festival de música em Copacabana, no domingo, fez uma espécie de balanço dos dez anos de um dos projetos de financiamento mais comentados da área artística. A empresa de cosméticos Natura escalou alguns dos nomes que lançaram trabalhos nos últimos meses com parcelas de dinheiro incentivado e outras do caixa da própria empresa. Para quem olhava apenas para o palco, era tudo música, com momentos comoventes mesmo debaixo da chuva e um encontro inédito em praça pública entre Milton Nascimento e Gal Costa. Para quem fosse além, era também o resumo da ópera de um modelo de negócios que completa dez anos.

Ali estava a cena que o 'selo' da empresa ajudou a sedimentar. Um anti-movimento, no sentido estético e geracional, em que idiomas e idades não precisam estar alinhados para que as mensagens cheguem ao destinatário. Há uma renovação em curso, sendo feita pelo novo e pelo velho. Existe saída para a cultura mesmo em um País com as estruturas de Estado paralisadas. Música deixou de ser investimento de teor proselitista das empresas para se tornar estratégia de comunicação. E agora, depois de dez anos, é hora de apostar na renovação e deixar que os beneficiados até aqui trilhem seus próprios caminhos.

Tulipa Ruiz é uma força inquestionável. Seu disco 'Dancê' manteve a carreira na progressão iniciada pelos dois anteriores e expôs mais de seu magnetismo. Mesmo debaixo do temporal que abateu Copacabana, ela arrebatou boa parte da plateia. Sua voz, no entanto, pode deixar de surpreender se o recurso dos agudos nos estertores continuar sendo usado se critério. Ela pode pegar outros caminhos, encontrar a dose certa mesmo de sua maior virtude.

Emicida é um ‘case’. Além de fazer o acima da curva 'Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa', ele desafiou tabus do meio que lhe deu vida. Pois quem imaginaria, há dez ou quinze anos, o rap recebendo patrocínio de uma empresa de cosméticos? Seu equilíbrio tem sido sábio. Sem vender convicções, amplia o universo do próprio gênero ao aliar indignação e groove fora dos padrões engessados pela linha dura. Antes do patrocínio, aprendeu a andar sozinho ao lado do irmão Fióti e profissionalizou sua independência, algo que a potência Racionais MC’s ainda não conseguiu fazer. Agora, a liberdade artística tem preço. Ao ir mais longe, Emicida, além de rimar, quer cantar. E é no canto em que pega seu calcanhar de Aquiles. Se puder educar a voz e ganhar potência, vai fazer uma sinergia entre mundos ainda mais vitoriosa.

Chico Cesar fez um disco vibrante chamado 'Estado de Poesia'. É um absurdo de compositor e merecia a tranquilidade desse suporte. Faz canção popular cheia de contestação sem medo das velhas formas. Quer mais é se comunicar, mas há algo que parece estar sempre triste ali dentro. Chico tem uma tristeza sua, daquelas que maltratam como se cobrassem um preço antes de se tornarem belas canções.

E aí vem Gal Costa. Ao ver Milton surgindo em sua fragilidade angustiante, fez por ele o que a plateia queria fazer. Cuidou, deu carinho, o colocou no colo. Seu 'Estratosférica' é uma das maiores pontes, erguida pelo produtor Marcus Preto, ligando a música do passado ao presente. Um assunto de utilidade pública e saúde artística que impede que o novo modelo de negócios se torne apenas negócio.

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