Festival de vanguarda musical e tecnológica, Sónar volta com Hot Chip, Chemical Brother e Brodinski

Realizado por aqui em 2004 e de forma grandiosa em 2012, evento festival volta mais tímido na questão musical, com sete atrações

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2015 | 06h00

Lá se foram 20 anos. Em 1994 nasceu o Sónar – ou Festival Internacional de Música Avançada e Conferência de Criatividade e Tecnologia –, em Barcelona. A música eletrônica era um gênero de nicho, para poucos. Mais de duas décadas depois, o evento reforça sua presença em terras distantes da Catalunha. Entre os dias 24 e 28 deste mês, o Sónar volta a abrir suas portas em território paulistano pela terceira vez, para provar que o estilo galgou às altas posições no universo da música.

Realizado por aqui em 2004, em uma parceria com o festival Nokia Trends, e de forma grandiosa em 2012, com três dias de atrações, 30 mil pessoas e 48 shows de nomões como Kraftwerk, Justice, Cee Lo Green e James Blake, o festival volta mais tímido na questão musical. A noite de apresentações, chamada SónarClub, terá sete atrações. O Anhembi Parque foi trocado pelo já conhecido Espaço das Américas.

A grande atração da noite musical, realizada no dia 28 de novembro, é o The Chemical Brothers, duo britânico alguns anos mais velho do que o próprio Sónar – a banda nasceu em 1991 –, e desde àquela época já sacudia o mundo da música eletrônica (também conhecida como EDM). Em 2015, lançaram o disco Born in the Echoes, um belo petardo sonoro capaz de chacoalhar os neurônios.

O interessante da escalação musical deste ano é a escolha de artistas vanguardistas da música eletrônica de diferentes partes do planeta. Da França, com Brodinski, um DJ que se aproxima a passos largos do hip-hop e do funk norte-americano, à chilena Valesuchi, cujas batidas soam mais claustrofóbicas e sombrias. O brasileiro Zopelar, destaque cada vez maior, aqui e no exterior, é o selecionado do País nesta edição.

O representante mais “roqueiro”, com o rock entre aspas, mesmo, é o Hot Chip. A banda inglesa não se prende a gêneros. E o nome do seu novo disco diz muito sobre essa falta de paredes musicais: Why Make Sense? (ou “por que fazer sentido?”, em tradução literal). “De fato, acho que não é importante, para nós, se enquadrar em um gênero específico”, diz Al Doyle, guitarrista do grupo. Ele integrou o LCD Soundsystem, outra banda desse eletro-indie que ganhou as pistas de dança no início da década passada, atração do Sónar paulistano de 2004. O novo trabalho do grupo surpreende por soar mais orgânico e vivo, com relação aos anteriores. “Nesse álbum, tentamos soar o mais próximo possível da energia que existe em cima do palco. É uma experiência sonora”, disse. “É a tentativa de manter no álbum a música na forma mais pura e como ela foi construída.”

Depois de ser escalado para ser atração do festival de rock Lollapalooza, em São Paulo, há dois anos, o Hot Chip encontrará diante de si um público mais aberto às sonoridades eletrônicas. “Entendo o Sónar como uma marca que dá mais apoio a artistas experimentais. Eles dão espaço para músicos do underground e o fazem há 20 anos. De alguma forma, ajuda a fomentar uma cena”, disse o britânico, de Londres, em uma pequena pausa da a turnê.

Valesuchi, nome artístico da chilena Valentina Montalvo Alé, viajou até Tóquio, capital do Japão, e para Barcelona, para integrar as versões do Sónar dessas cidades. Ela vem ao Brasil e também integrará a programação musical no Chile. “Toquei em Tóquio, numa sala, para umas 100 pessoas”, ela recorda. “Foi incrível porque não sabia até onde poderia ir, esteticamente falando. No Brasil, será uma experiência completamente nova”, completa.

O DJ francês Brodinski, atualmente integrante da nata da EDM que flerta com o pop, celebra o retorno ao País pelo Sónar, justamente pela proposta que o festival apresenta: de fugir das obviedades musicais e escolhas fáceis demais. “É um lugar que as pessoas sabem do que estão falando, o que estão fazendo”, explica, em um inglês com pouco sotaque francês. Louis Rogé, nome de nascimento do produtor, celebra o bom momento da música eletrônica, cujos DJs já não são figuras escondidas na escuridão das boates e, sim, peças centrais nos palcos. “O mercado musical nos Estados Unidos é responsável por isso, de alguma forma”, ele analisa. “O público e produtores de lá começaram a notar a música eletrônica e criaram um negócio rentável. Confesso que não me preocupo em ser o número um, em ser pop ou famoso, mas é interessante ver como os DJs agora são verdadeiros rockstars.”

Não é só música. Embora o SónarClub seja o que mais chame a atenção dos fãs de música, a nova edição paulistana do festival dará muita ênfase na programação que dá espaço para temas como tecnologia e inovação. Dois braços tão importantes quanto a música para a versão catalã, o SónarCinema e Sónar+D, também chegam a São Paulo com mais força.

O primeiro deles, iniciado em 24 de novembro, trará uma homenagem à obra do holandês Frank Scheffer, um cineasta cujas lentes são conhecidas por seguir artistas de musicalidade avessa ao pop, de Frank Zappa a John Cage. E, com isso, o Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, exibirá sete longas dele com sessões gratuitas. Já o +D, a partir do dia 25, oferece uma escalação enorme de palestras, workshops e debates sobre a indústria tecnológica, criativa e, claro, artística.

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Aos 27 anos, Valentina Montalvo Alé, ou Valesuchi, volta ao Brasil, País que conheceu quando criança, como atração do SónarClub, braço musical do festival catalão a chegar pela terceira vez a São Paulo. A personalidade delicada, mostrada ao telefone, esconde uma artista eletrônica capaz de criar nuances sombrios, quedas vertiginosas e batidas que sugerem questões bastante pessoais. “Gosto de compor pela manhã. Busco um tema e vou criando essas camadas”, ela disse. “Não gosto que, ao fim do primeiro minuto da música, tudo já aconteceu.” 

SÓNARCLUB 

Espaço das Américas. R. Tagipuru, 795, Barra Funda. 

Dia 28 de novembro, sábado. 

R$ 550. Horários ainda não divulgados

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