Festival de Tatuí mescla nomes consagrados e novatos

Raul de Souza, Renato Borghetti, RosaPassos, André Mehmari e Ná Ozzetti, Marco Pereira, Itiberê Zwarg Essa gente toda e muitos músicos mais transformaram a cidade deTatuí, a 137 quilômetros da capital, numa grande festa sonora eharmônica desde 23 de fevereiro até sábado passado. Com shows noTeatro Procópio Ferreira, workshops no Conservatório de Tatuí econcorridas jam sessions no Espaço Cooperativa, a sétima ediçãodo festival Brasil Instrumental continuou abrindo espaço paranomes consagrados e novatos, apresentou projetos inéditos, showsimpecáveis e divertidas rodadas de improviso. Além do mais,contribuiu para o intercâmbio de instrumentistas de diversasorigens (Áustria, Peru e Argentina incluídos), deixando asensação de que é possível melhorar o mundo ao redor com arte,sensibilidade e consciência de sua importância. Um bom começo é ter um ambiente favorável como este, quefaz qualquer um voltar com uma certa esperança para o cotidiano.Boa parte da platéia é formada de músicos, estudantes do próprioconservatório, além de gente da própria cidade e interessados deterras distantes como uma violinista austríaca, que veioaprender mais sobre música brasileira. Muitos dos que estiveramna platéia em anos anteriores hoje estão no palco. E não é raroouvir dos instrumentistas que experiências vistas alitransformaram suas vidas. Um desses músicos é o guitarrista gaúcho Zoca Jungs, deLajeado, que se formou no Conservatório de Tatuí e voltou esteano para ver os shows e colaborar no monitoramento dos workshopsno festival. "Isso aqui não tem em lugar nenhum. Além deaprender com os caras os músicos tem contato com váriascorrentes", aponta Zoca. "Mas o ponto principal é o tratamentoque a música brasileira tem aqui em Tatuí. É como os americanostratam o jazz." Outro gaúcho, o sensacional violonista Daniel Sá do grupo do gaiteiro Renato Borghetti, também ressaltou noworkshop a mesma virtude. "O conservatório de Tatuí é um dospoucos que tratam a música popular com a mesma seriedade daerudita." Apontado como protagonista de um dos momentos maismarcantes do festival, Itiberê Zwarg passou quatro dias testandoe trocando idéias com músicos novos; compôs com eles uma peçaque foi apresentada com grande sucesso na noite de terça-feirapassada. Outros projetos inéditos mostrados no palco do TeatroProcópio Ferreira foram o do Trio 3-63 e do saxofonista ManéSilveira. O trio - formado pelo percussionista Marcos Suzano, aflautista Andrea Ernest Dias e o pianista Paulo Braga, um dosorganizadores do festival - só tinha se apresentado antes emMarselha (França). Em sua estréia no Brasil, apresentaram desdechoros ancestrais do início do século passado até experimentoscom música contemporânea.Rosa Passos, Márcio Bahia e jam sessions Substituindo Johnny Alf, que cancelou sua participaçãopor problemas de saúde, o quinteto de Mané Silveira antecipou ostemas do próximo CD, ainda em fase de gravação. As cantoras RosaPassos (com o baixista Paulo Paulelli) e Ná Ozzetti (com opianista André Mehmari, chamado de "gênio" por parte dosestudantes na platéia) também brilharam com a voz, parêntese queo festival abre, sem preconceito. "A gente não está negando acanção, já tivemos Joyce e Leny Andrade no festival", lembra oflautista Paulo Flores, o outro organizador. "Nossa preocupaçãoé valorizar a música não comercial, abrir horizontes e mostrar adiversidade." Para ele, a edição de 2007 se equipara à de 2002,quando se apresentaram Hermeto Pascoal, César Camargo Mariano,Banda Mantiqueira, Guinga e Toninho Horta. Entre shows memoráveis, como o de Rosa Passos comPaulelli, do baterista Márcio Bahia e o citado encontro deItiberê com jovens músicos, e animadas jam sessions, é notável oalto grau de cumplicidade entre instrumentistas como os dosgrupos de Renato Borghetti e Raul de Souza, todos brilhantes.Além disso, vale ressaltar a generosidade dos veteranos emrelação aos novatos. A Banda Brasil Instrumental, que homenageouo Maestro Branco, teve tanto espaço para Vinicius Dorin, ManéSilveira e Daniel Alcântara, como para os jovens FernandoChequinho e Diego Garbin, que tocou ao lado do mestre Cambé - ostrês formados pelo Conservatório de Tatuí. A jam session com a banda de Raul foi outro bom exemplode intercâmbio entre novatos e tarimbados em território livre.Nesse aspecto, o festival é também bem sedimentado. Ao mesmotempo que tem cacife para reunir nomes consagrados, como MarcoPereira, Proveta, entre muitos outros, também promove a mostrapara principiantes. Já na quarta edição, teve nas anterioresgente como o trompetista Rubinho Antunes (que voltou agora paralançar seu CD), o Trio Setó, o pianista Marcelo Onofri, o grupode choro Quatro a Zero e Fábio Leal, que, segundo o colega ZocaJungs, é responsável por atrair "um monte" de guitarristas paraaprender com ele em Tatuí. Predisposição para absorver novasexperiências é o que não falta ali.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.