Festival da Globo: surpresa até para o vencedor

"Eu tenho que comer muito feijão ainda", repetia, incessantemente, o gaúcho Ricardo Soares, compositor vencedor do Festival da Música Brasileira da Rede Globo, no final da premiação. Surpreso com o resultado, e com o cheque de R$ 400 mil que recebeu pela vitória, disse que seu intuito era fazer com Tudo Bem Meu Bem o mesmo que Quentin Tarantino fez com o cinema. "Ele não trouxe nada de novo, mas sim determinadas referências que fizeram com que ele parecesse original", disse.Ele subiu ao palco sob chuva de vaias e gritos de "É Marmelada...". Na platéia, a única palavra que pôde resumir o sentimento gerado após a decisão do júri é indignação. Mesmo composta por, em grande parte, torcidas organizadas, a platéia soube avaliar o que havia de bom no festival. Ricardo Soares, bancando o rockeiro rebelde, passou despercebido. Com o prêmio nas mãos, ele aproveitou o momento para confrontar o público com caretas. Sobre o episódio, comentou: "Não existe uma balança para pesar música". José Cordeiro/AE"É marmelada..."A vitória de Tudo Bem Meu Bem foi uma surpresa. Para alguns agradável. Para muitos, nem tanto. João Araújo, presidente da Som Livre, reconheceu na música valores que talvez nela não existam. "A primeira frase da canção é um achado na história da música brasileira, parabenizo a decisão do júri", disse, referindo-se ao verso "Você tem tudo que eu quero para ser meu problema". E emendou, "Mandei flores para duas mulheres com essa frase no cartão e elas adoraram, porque nem todo mundo tem coragem de dizer que o outro é o seu problema".Das três músicas campeãs, Tudo Bem Meu Bem, Morte no Escadão e Tempo das Águas, duas eram rocks. Cinqüenta anos depois da invenção do gênero, chegamos à conclusão que a "nova" música brasileira é o rock and roll. Foi o que quis o júri, formado por alguns dos maiores especialistas em música no País. Nomes incontestáveis como Fernando Faro, Mauro Dias, Patrícia Palumbo, Carlos Bozo Jr., José Maurício Machline, Maria Carmem Barbosa, Waly Salomão, Tom Leão, Geraldinho Carneiro, João Araújo. José Cordeiro/AEBrincos, música de Amauri Falabella interpretada por Lula Barboza, envolveu a platéia e ficou com o prêmio popularOutros prêmios - Contudo, o público, em sua "sábia ignorância", consagrou Brincos, de Amauri Falabella, defendida magistralmente por Lula Barboza. A música não tem nada de inovadora. No entanto, tem uma bela harmonia e um indiscutível apelo popular. Tudo isso sem deixar de ser sofisticada. A história de vida de seu compositor talvez seja a mais interessante do festival. Operador de cargas no aeroporto de Guarulhos, Amauri mandou sua música desacreditado e chegou ao final consagrado pelo público: "Eu sou o grande campeão", desabafou emocionado. Coube a ele um prêmio de "consolo" de R$ 100 mil.José Carlos Guerreiro, autor de Morte no Escadão, música que compôs há 22 anos, quando tinha apenas 19 era o menos surpreso entre os vencedores. Cumprimentou um por um os integrantes do Tianastácia, que interpretaram sua composição, e dividiu com os rapazes mineiros a euforia da vitória.Já Bilora, autor de Tempo das Águas, esteve deslocado. Sertanejo de Minas Gerais, não sabia direito como se colocar. Muito menos qual a pose certa a fazer para parecer uma estrela global. Seus companheiros de banda estavam mais à vontade. Eles falaram principalmente da importância de resgatar as origens da música brasileira, e comprovaram que uma zabumba e uma viola ainda é o suficiente para compor uma boa canção popular. Ná Ozetti, pela bela interpretação de Show, de Luiz Tatit e Fábio Tagliaferri, recebeu o prêmio de melhor intérprete. É mais um reconhecimento a uma das maiores cantoras que surgiu nos anos 80. Ná estava visivelmente consternada. Não esperava a vitória e, por isso, não sabia ainda o que fazer com o prêmio que recebeu, R$ 150 mil mais o direito de gravar um disco pela Som Livre. "Eu não quis gerar qualquer expectativa interna, por isso, afastei a idéia da vitória da minha cabeça. Agora que ganhei, a ficha ainda não caiu", comentou. Divulgação/"É um rock pobre, como pobres são outras canções do festival", diz Solano Ribeiro, sobre a música campeãNova edição - Solano Ribeiro, organizador do festival ao lado de Roberto Talma, avaliou de maneira positiva esta edição do Festival da Música Brasileira. "Por mim, eu começava hoje a organização de um novo festival, mas dependo de apoio da emissora". A Rede Globo de televisão ainda não decidiu se organizará outras edições do festival.Para ele, a decisão do júri mostra uma certa confusão que existe hoje em nossa música. Mas sua felicidade pelo evento estava baseada em dois argumentos. Primeiro, a mídia e o público voltaram a falar de música brasileira, o que não ocorria há anos. Segundo, o conceito de regional está se alterando. Baseado no desempenho de Bilora, que com uma música tipicamente regional recebeu o 3º lugar, perguntou: "O regional só é regional até o mundo descobrir. Não foi isso que aconteceu com o Olodum quando o Paul Simon gravou com eles?"Sobre a decisão do júri, disse que em nenhum momento houve intervenção da emissora organizadora. A respeito da música campeã, declarou: "É um rock pobre, como pobres são outras canções do festival. No entanto as pessoas gostam pois ela tem uma letra engraçada".Enquete virtual realizado pelo site de emissora em conjunto com a Som Livre destacou Xi, de Pirituba a Santo André, de Rafael Altério e Kléber Albuquerque, como a preferida dos internautas, reunindo impressionantes 58% dos votos. O segundo lugar foi para Necessidade Básica, de Nelson Lemos, interpretada por Paulinho Lemos. Ficou com 33% dos votos.

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