Festival da Globo: música já gravada é selecionada

Não será apenas por uma sofrível qualidade artística que o Festival da Música Brasileira de 2000 deverá ser lembrado pelas futuras gerações. Uma irregularidade comprovada pelo Jornal da Tarde coloca em questão a eficiência da organização do evento produzido pela Rede Globo e pode comprometer a credibilidade dos próprios concorrentes. O samba Pra se Juntar a Nós, uma das 48 obras selecionadas entre os 24.190 inscritos, não é inédito. A música feita em parceria por Carlinhos do Cavaco e Nilson Pinheiro é a 11ª faixa do disco Carlinhos do Cavaco, produzido de forma independente e lançado em 97.No ano seguinte, o álbum recebeu uma indicação para o Prêmio Sharp na categoria melhor samba revelação. A canção faz parte do catálogo da Cid, editora e gravadora carioca que fez a distribuição do disco na época do lançamento.Apesar de não ter sido classificado entre os 12 finalistas que se apresentarão hoje, no Credicard Hall, Carlinhos conquistou com a música uma das vagas para o prêmio de melhor intérprete. O vencedor desta categoria ganhará R$ 100 mil e lançará um disco pela Som Livre, empresa fonográfica das Organizações Globo.Ineditismo obrigatório - O ineditismo da obra é uma regra básica em todos os festivais. A inscrição de composições que já foram divulgadas pela mídia ou gravadas para comercialização, como o caso de Pra se Juntar a Nós, é expressamente proibida. A presença destas músicas desvirtuaria completamente a proposta de um evento que pretende revelar trabalhos novos e desconhecidos do grande público. Carlinhos do Cavaco conta que foi instruído por um membro da própria organização do evento, que prefere não revelar o nome, para inscrever a canção. "Falei para ele que a música já estava gravada em meu disco e ele me perguntou se ela já havia sido divulgada nas rádios. Respondi que não, e ele afirmou que eu poderia inscrevê-la", diz o músico. Pra se Juntar a Nós não chegou a ser tocada nas rádios. Mas apenas o fato de estar em um CD que foi vendido nas lojas elimina seu ineditismo. O diretor de comunicações da Rede Globo, Luiz Erlanger, afirma que o departamento jurídico da empresa fez um levantamento junto às associações de compositores nacionais para conferir se as gravações selecionadas eram mesmo inéditas. "Fizemos um pente fino nestas entidades e não encontramos registros de nenhuma das 48 músicas classificadas." A editora Cid reforça que a canção está editada em seus arquivos. "Carlinhos do Cavaco lançou seu disco conosco há um três anos e sua obra está toda aqui, inclusive a música Pra se Juntar a Nós", confirma Marli dos Santos, responsável pela empresa. O produtor do festival, Solano Ribeiro, confessa que o sistema de seleção é vulnerável por não contar com um controle sobre as obras que são enviadas aos jurados. "Recebi mais de 24 mil CDs. Como poderíamos saber se, em algum momento, estes candidatos gravaram ou não suas canções? Quando se inscrevem, os músicos assinam um termo em que se comprometem a não apresentarem canções que não sejam inéditas. Nós confiamos nos concorrentes." Sem má-fé - Para o sambista, sua classificação foi uma grande surpresa. "Não acreditei quando vi que estava entre os 48. Para mim, que luto há 18 anos em busca de locais para divulgar meu trabalho, este já foi um grande prêmio." Ele diz não temer por sua desclassificação. "Se soubesse que seria um dos concorrentes, jamais teria mandado uma música já gravada para um evento deste porte. Mas não fiz nada com má fé e, inclusive, no momento da inscrição informei os organizadores que a canção já havia sido gravada." O situação de Carlinhos do Cavaco ficou complicada. Segundo Ribeiro, os jurados se reunirão hoje para decidirem se ele continuará na disputa pela categoria melhor intérprete. "Se esta música tivesse se classificado para a final, seria desclassificada com certeza." Carlinhos contesta o termo ineditismo. Para ele, o fato de sua canção ter sido lançada em um CD não significa que ela tenha deixado de ser inédita. "Esta música estava totalmente inédita até o dia em que a apresentei no festival. "Quem está no meio sabe o quanto o músico precisa ser persistente. Não conseguimos espaço nas rádios e muito menos em programas de tevê, que só tocam quando recebem dinheiro dos artistas. O festival foi minha primeira chance de mostrar este trabalho." O sambista acredita ainda que outros músicos enviaram ao festival canções já lançadas em discos. Apesar de não citar casos concretos, diz estar certo de que não é o único a ter uma composição não-inédita concorrendo. "Há compositores que mandaram músicas feitas há vinte anos. Você acredita que esta música tenha ficado tanto tempo na gaveta sem ter sido gravada?", questiona o compositor, referindo-se a Morte no Escadão, feita pelo paulista José Carlos Guerreiro há 24 anos.

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