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Festival cearense mostra que no local há um oásis de educação e produção de talentos

Evento chegou ao fim neste domingo

Aquiles Rique Reis - ESPECIAL PARA O ESTADO , O Estado de S. Paulo

08 Dezembro 2014 | 19h04

JERICOACOARA - Lá vai o ônibus coalhado de músicos para Jericoacoara. A viagem dura pelo menos sete horas: seis até Jijoca, à beira de um areal, onde o ônibus não se arrisca entrar, e mais uma hora a bordo de jardineiras, velhas caminhonetes com tração nas quatro rodas. 

Como se soprasse linearmente, sempre à frente, o vento nos conduzia. Com um reverente meneio de cabeça, o vento nos apeou. Graças a ele amanhecemos num lugar majestoso, à beira-mar. Lá, na terça-feira, começaria a 6.ª edição do Festival Choro Jazz de Jericoacoara. 

Tudo “culpa” do Capucho, gaúcho arretado, responsável pela ideia genial de levar música brasileira de qualidade a um lugar tão aparentemente distante, onde o vento agita a calmaria e os coqueiros vencem a areia marinha, transformando o deserto cultural em oásis. 


Terça de manhã, espalhadas pela vila de Jeri, começaram as oficinas. Dentre outros, Celsinho Silva ministrou os primeiros mandamentos do pandeiro para quem o ouvia como se principiasse uma página nova em seu caderno. Feito porta se abrindo em mais saídas, François de Lima ensinou improviso a partir do trombone. O italiano Marcele Gabrielle tocou clarineta, tão bela que trazia em si o frescor e a alegria. E Rogerinho Caetano fraseou com seu violão de sete cordas. À tarde, Arismar do Espírito Santo incentivou os jovens a tocarem juntos. E o pianista André Mehmari deu dicas de como criar arranjos que, no futuro, poderão reciclar conceitos.

E foram dois shows por noite na pracinha de Jeri: louvo aos quatro ventos os improvisos dos violões do Duo Taufic, e louvo a ventania que deu asas às mãos do baterista Marcio Bahia. 

Louvo a brisa marinha que nos arrepia os pelos diante do som dos violões do Duofel; e louvo o balanço que o vento emprestou aos choros tocados pelo sexteto Água de Moringa e também pelo craque do bandolim, Joel Nascimento. 

Louvo a guitarra de Ricardo Silveira, que parece ser seu terceiro braço - irresistível; e louvo o vento de Jeri que fez François de Lima alçar voo em sua apresentação. 

Louvo o pianista André Mehmari e o clarinetista italiano Gabriele Mirabassi; e louvo o pianista português Mário Laginha e seu Novo Trio.

Louvo a banda Choro Jazz, integrada por jovens alunos da escola de música de Sambaíba (pertinho de Jeri), outra iniciativa do Capucho; louvo a cantora Ana Cristina, que eletrizou a garotada na pracinha de Jeri; louvo as crianças da Filarmônica Israel Gomes, de Carnaíba, no sertão pernambucano - comovente. 

Louvo João Donato, homenageado pelo festival por sua obra e por seus oitenta anos de vida. Ele que, com um quarteto de grandes músicos, contagiou o público.

Noite de domingo e a praça flutua numa louvação coletiva à música. Entram Celsinho Silva (pandeiro), Rogerinho Caetano (violão de sete), Eduardo Neves (flauta e sax) e Luis Barcelos (bandolim). É o Só Alegria, cujo show foi para mim a grande surpresa do festival, junto com os do Duo Taufic e do Bandão Choro Jazz. Este último, integrado por jovens músicos de Jeri aperfeiçoados pelas oficinas do festival, encerrou o evento com um som de altíssimo nível.

Findo o festival, o vento terral soprando um “até breve”, relembro versos de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto: É belo porque corrompe/ Com sangue novo a anemia/ Infecciona a miséria, com vida nova e sadia/ Com oásis o deserto, com ventos a calmaria.

E assim a vida segue em Jericoacoara, lugar onde o vento faz a curva, e onde existe um oásis de educação, com sangue novo infiltrando-se ignorância adentro. Novos ares ampliando consciências.

* AQUILES RIQUE REIS É MÚSICO E VOCALISTA DO MPB4

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