Fernando Faro lembra Baden Powell

Pouco antes de começar a editar um programa para a TV Cultura, na sexta-feira, Fernando Faro conversou com a reportagem. O principal assunto foi a lembrança do amigo Baden Powell, que morreu no dia 26. Faro foi, como disse Baden numa entrevista concedida em maio, um anjo da guarda. E foi ele quem produziu os dois últimos discos do grande violonista da música popular brasileira, Baden, João Pernambuco e o Sertão, editado pelo Sesc, e Lembranças, que a Trama lança em novembro.Baden foi apresentado a Faro, no começo dos anos 60, pelo jornalista Franco Paulino, produtor do programa Ensaio Geral, da TV Excelsior. "Franco era muito meu amigo e me disse: ´Baixo (é assim que Faro chama, carinhosamente, as pessoas, e assim se refere a si mesmo), eu quero te apresentar um cara legal´." Continua: "De cara, ficamos amigos, conversamos muito e Baden nos convidou para ir ao seu apartamento, na Praça Roosevelt." Chegando lá, como recorda Faro, Baden disse que ia fazer um feijão para os convidados. "Fez o feijão e ficou tocando Pixinguinha, Garoto e a gente sentindo aquele cheiro incrível", continua. "Mas era de feijão queimado." Isso ocorreu por volta das quatro horas da manhã. Todos ficaram até às seis tentando salvar o feijão. Põe açúcar, água, tira água e nada. Não comeram feijão, naquela noite. E a amizade começou assim. "É legal que tenha começado com comida, essencial para vida."Baden não tinha facilidade para fazer amigos. Era desconfiado. Desviava de jornalistas, da mídia, era anti-estrela. "Uma vez, ele fez uma música, Noite de Natal, para o seu pai ", conta Faro. "Eu estava na TV Tupi, era diretor musical, e gravei a música em cassete e guardei. "Um dia, Faro recebeu um recado do amigo: "Baixinho, não deixa ninguém ouvir a música, porque é um negócio meu, me faz pensar no meu pai". Então, Baden contou que, quando fez a música e Vinícius pôs a letra, os dois caíram no choro. Baden e Vinícius se conheceram em 1960, segundo registra a biografia do violonista, O Violão Vadio de Baden Powell, de Dominique Dreyfus, que tem a falha de não retratar a amizade de Baden com Faro. "Baden era apaixonado pelo Vinícius, os dois bebiam pra chuchu, eram muito companheiros, praticamente acordavam com o copo de uísque nas mãos", diz Faro. "Acho que Vinícius e o Baden eram feitos do mesmo material", conta, após um longo suspiro.Lembranças - A amizade foi fundamental para a realização de Lembranças, o último CD de Baden, ainda não lançado. A produção foi dominada por uma intensa troca de recordações. "Nessa troca, eu tirei muita coisa dele, sabe, e dei muitas coisas minhas para ele, também", conta Faro. Não houve, lembra ele, a intenção de registrar apenas as composições de Baden. "Não é um disco linear, é uma coisa de estar conversando", recorda. "Lembro de uma música de Noel Rosa e João de Barro, As Pastorinhas: eu dizia a ele que essa música me trazia de volta Sílvio Caldas; foram recordações, revelações."Baden e Faro ficaram cerca de 15 dias produzindo Lembranças. O disco foi feito do mesmo jeito que o de João Pernambuco. Como era? "Eu dizia: ´Baixo, toca um jongo de João Pernambuco´, e ele tocava. Então eu dizia: ´Isso não te lembra o sertão nordestino, não cabe aí uma citação do maracatu, uma coisa qualquer do Zé do Norte´?" Baden respondia: "Estou entendendo, baixinho"O repertório de Lembranças não tem composições inéditas. É um disco de arranjos, que foi buscar músicas do fundo do baú da memória, como Inquietação, de Ari Barroso. "Ele gostava muito de Ari e Sílvio Caldas", conta Faro. "Adorava o Sílvio, e recomendou-lhe que cantasse Inquietação, na época em que o acompanhava e a Elisete Cardoso."Em maio, Baden também já havia antecipado como seria o novo trabalho. Dizia: "Discos podem ser feitos com várias motivações; uns são de composições novas, outros têm músicas cantadas e esse terá o repertório vestido com nova roupagem - esse é um disco de saudades." Já havia gravado O Astronauta dele e de Vinícius de Morais, e Molambo, do seu mestre violonista Jaime Florence, o Meira. Molambo foi sucesso nos anos 50, nas gravações de Roberto Luna e Cauby Peixoto. Essa foi a primeira música a ser gravada do novo disco."Meira é o começo do Baden, fundamental na sua formação", recorda Faro. "Uma vez, levei o Meira à minha casa; ele ficava com o cigarrinho no canto da boca, só observando o Baden tocar", conta. "Depois pegava os dedos de Baden e dizia para que ele os esticasse, para montar o acorde, e Baden dizia que não dava", continua. "Ele falava que dava sim - chamava Baden de ´filho´ -, todo paciente", lembra. "Achei aquilo muito engraçado." Meira era um dos integrantes do Regional do Canhoto, que tinha na formação Gilson do Pandeiro, o cavaquinhista Canhoto, o flautista Altamiro Carrilho, o violonista Dino Sete Cordas e acordeonista Orlando Silveira. Foi Meira quem apresentou Pixinguinha a Baden. Faro conta: "Eu quis que o Baden trouxesse para o presente, com a música, a doçura da personalidade de Meira, e com ela a recordação dos primeiros acordes, tocados quando criança." Meira tocava um violão urbano cultivado nas rodas de choro do subúrbio carioca. E Baden, além de ser o mais genial violonista brasileiro, foi o seu herdeiro.Philippe e Louis-Marcel, filhos de Baden, não são exatamente herdeiros da música do pai, entende Faro - apesar de Baden tê-los preparado para isso. "Essa coisa de ser levado no ombro do pai para acompanhar serestas, isso não volta", acredita. "Cada acorde, cada nota de Baden traduz um momento emocionante do cancioneiro" diz. "Ele era maravilhoso; era o único violonista que sabia fazer, pois os outros são talvez mais preocupados com a técnica." Ele estava com pique para fazer um segundo disco? "Estava, nós íamos fazer um segundo disco, pela Trama, de choro", diz Faro. "Tinha um grupo no Rio que ele dizia ser fantástico. Falava para mim: "Baixinho, na primeira a gente mata a gravação." Na primeira? "Ele não era de matar - fazer a gravação definitiva - de primeira", diz Faro. Lembra ainda que Baden pensou em usar o estúdio da sua igreja evangélica. Dizia que era ótimo para gravação de discos.Ter-se tornado religioso, para o homem Baden, foi muito bom, acredita Faro. "Mas para o artista Baden, acho que não foi tão bom", considera. "Ele deixou de cantar os Afro-Sambas, que são um momento fantástico da obra." Por causa da religião, Baden abandou os Afro-Sambas, que têm como tema as religiões de origem africana. "Renegar essas músicas me pareceu um pecado, um pequeno crime, mas não posso ficar mais bravo com ele."Faro tem no currículo, além de 42 anos de TV, a produção de uma série de discos - não faz idéia de um número exato. Ele registrou e descobriu preciosidades da música brasileira. Há duas décadas, é o apresentador, produtor e diretor musical do programa Ensaio, da TV Cultura, e professor de História da Música Popular Brasileira na Faculdade São Marcos. Na TV Tupi, onde dirigiu vários musicais, como TV de Vanguarda e Móbile (neste, pela primeira vez na TV brasileira, não se ouvia a pergunta do entrevistador, apenas a resposta do entrevistado, fórmula que foi mantida no Ensaio). Na década de 70, o programa saiu da TV Record e foi para a TV Cultura, passando a se chamar MPB Especial. Faro passou depois pela Globo, Bandeirantes e Record. Voltou para a Cultura em 89 e retomou o antigo projeto, de novo com o nome de Ensaio.Baden foi entrevistado três vezes no Ensaio, cuja proposta é registrar a amplitude da música brasileira. "Quero fazer um programa com o Zé Ramos, um dos fundadores da Mangueira", conta Faro. "Eu pedi para Christininha (Christina Buarque) que me ajudasse a encontrá-lo." Ela disse a Faro que achava que não ia dar certo, porque Zé Ramos não quer falar de música, só fala do seu trabalho: é pedreiro. "Acho fantástico que a vida vaze pela música e a supere, que seja mais importante que a música", afirma Faro. "Acho a vida muito importante." Quando Baden estava internado, Faro pediu a Philippe, filho dele, e a Bete, sua mulher, que lhe dessem um recado: "Digam ao Baden para não morrer; não por ele, por mim, mas acho que não deram o recado."

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