Fernanda Montenegro interpreta Strauss no Municipal

Teatro, voz, música. Esses três elementos se uniram de maneira muito especial quando, em 1897, Richard Strauss compôs, a partir de textos do poeta Alfred Tennyson, um melodrama que narra a comovente história de um desencontro amoroso. Um melodrama é uma peça escrita para narrador e acompanhamento musical. E, quando se tem nas duas pontas da interpretação artistas de qualidade indiscutível, é certeza de momentos mágicos - como o que a gente espera para esta terça-feira, quando o pianista Jean-Louis Steuerman e a atriz Fernanda Montenegro subirão ao palco do Teatro Municipal para interpretar o "Enoch Arden" de Strauss, em noite com renda revertida para a Care Brasil, que trabalha com programas de combate à pobreza nas principais regiões do País.Enoch Arden narra a história de três jovens - Enoch, Annie e Philip. Enoch sai em viagem e é considerado morto após um naufrágio; Annie, sem notícias dele, perde a esperança de reencontrá-lo e casa-se com Philip; mas Enoch consegue, tempos depois, retornar à terra, reencontra Annie, mas recusa-se a revelar a ela sua verdadeira identidade, que ela só descobre anos após sua morte. Fernanda e Steuermann apresentaram o "Enoch Arden" pela primeira vez no Espaço Promon, em 2001, dentro da série de concertos BankBoston. Na época, o pianista falou sobre o caráter da obra. "É uma peça incrivelmente complicada, mesmo porque o poema de Tennyson é bastante complexo. Strauss está sempre buscando valorizar a poesia, o texto, da mesma forma que o texto parece valorizar e ressaltar a música", disse o pianista.Em conversa com o Estado, na semana passada, Fernanda concorda. "Há algumas gravações em que o declamador corre solto, como se esquecesse a música. E ela se torna um acompanhamento básico. O que não é justo, não faz jus à música de Strauss, pelo seu temperamento e por sua importância histórica", diz.Fernanda faz questão de ressaltar diversas vezes ao longo da entrevista que não conhece a técnica da música, que não pode nem deve falar de suas minúcias. Mas o fato é que ela fala da música de Strauss com muita propriedade, da mesma maneira como identifica de modo muito interessante a relação do texto com a música. "Há um diálogo, uma complementação dramática clara entre voz e piano na partitura de Strauss", diz, falando então das especificidades de cada um dos elementos do melodrama. A começar pela voz do declamador. "A voz humana está longe de ser uma ciência exata. Por mais cuidados que se tome, a voz oscila. Se você se apresenta na quinta, vai mostrar uma nitidez que, no domingo, já não existe mais." E o piano? "O intérprete do instrumento musical trabalha bem ou mal em uma escala menos alterável." Não, não, nada de matemática pura. "É claro que varia de acordo com muitos fatores, mas tem um tempo matemático, respeitável e respeitoso."E como conciliar os dois universos na interpretação do melodrama? "Teoricamente? Bom, posso falar apenas de forma prática, da minha experiência. Eu sei que é possível. A voz não deixa, por tudo o que falei, de ser um instrumento. Mas você precisa aprender a trabalhar com o falível", diz. "Sabe, há uma gravação ao vivo dos Mestres Cantores de Nuremberg, de Wagner, agora não me lembro qual, em que você percebe que a voz do cantor vai enrouquecendo e que ele luta com ela à medida em que o espetáculo acontece. Gosto muito dessa gravação. Esse contexto dá à interpretação uma dinâmica diferente. Talvez, se o cantor não estivesse com problemas, não teríamos no final das contas essa força dramática."TennysonPoeta condecorado pelo Império Britânico, Lord Arthur Tennyson (1809-1892) construiu muitas de suas obras a partir de temas clássicos ou mitológicos, caso por exemplo de uma de suas mais célebres criações, Idílios do Rei, série de poemas baseados nas lendas do Rei Arthur. Em Enoch Arden, no entanto, a temática muda um pouco de foco, volta-se a uma história cotidiana para falar de amor ou, mais precisamente, de uma morte provocada pela impossibilidade da concretização de um amor. "Tennyson é um dos melhores autores do Romantismo", diz Fernanda. "Para mim, Enoch Arden é a história de um amor dilacerado, da renúncia pelo bem do próximo. E o que mais me impressiona é a maneira como ele a conta. Não há gorduras. Às vezes a gente confunde gordura romântica com o verdadeiro romantismo. Arthur Tennyson nos oferece a medida clássica do romantismo. E é compreendido por Strauss, que corta qualquer gordura também de sua música." 3.º Care in Concert. Teatro Municipal.Praça Ramos de Azevedo s/n.º, Centro, 3222-8698. Amanhã, 21 h. R$ 60 a R$ 100

Agencia Estado,

21 de agosto de 2006 | 15h03

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