Mario Anzuoni/Reuters
Mario Anzuoni/Reuters

Fenômeno do K-pop conquista novos públicos com mistura de ritmo e visual

Gênero musical coreano que faz sucesso há décadas na Ásia desembarca com tudo no Ocidente

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2019 | 03h00

É fato que a indústria da música dos EUA valoriza e protege a produção nacional, tornando-se raros os casos de artistas não americanos que ganham holofotes em seus domínios. E não estamos falando de um mercado qualquer. Ainda hoje, o sucesso de um artista nos EUA é trampolim para que conquiste o restante do mundo. Dentro desse cenário, a música pop sul-coreana – conhecida como K-pop – é responsável por um feito e tanto: ela furou o bloqueio e chegou à América. Os grandes responsáveis por isso? Os sete rapazes, de cabelos coloridos e carisma bem lapidado, que fazem parte do fenômeno chamado BTS, a boyband número 1 do K-pop. 

Em tempos de redes sociais, o grupo sul-coreano foi expandindo seu acesso a públicos adolescentes e jovens para além da Ásia.

Diante dos números impressionantes de visualizações dos clipes do BTS no YouTube, que atingem rapidamente a marca de milhões, a dita “mídia tradicional” norte-americana se viu obrigada a olhar com mais atenção para esses garotos na faixa dos 20 e poucos anos – e também a dar espaço a eles. Um caso clássico de que a demanda determinou a oferta. O grupo foi capa da revista Time, deu entrevista em programas como The Ellen DeGeneres Show e The Tonight Show com Jimmy Fallon, discursou na Assembleia-Geral da ONU, falando sobre a importância do amor-próprio. Ainda no mercado americano, no ano passado, eles viram seu álbum Love Yourself: Answer no primeiro lugar em vendas e lideraram a lista da Billboard 200 com o disco Love Yourself: Tear. Isso sem contar a turnê com ingressos lotados que o grupo fez por países como EUA, Inglaterra e aqui no Brasil. 

Este ano, o BTS estará na cerimônia do Grammy, no dia 10 de fevereiro, em Los Angeles, concorrendo na categoria Best Recording Package (melhor pacote de gravação), pelo disco Love Yourself: Tear. “O álbum marca o primeiro reconhecimento do grupo e um grande momento de avanço para o cenário musical coreano”, diz um artigo da Billboard, sobre a indicação do grupo para o prêmio.

Seguindo os passos do BTS na América, o Black Pink, formado por quatro garotas, será o primeiro girl group de K-pop a se apresentar no Coachella, em 20 anos de história do festival. O evento ocorre em abril, na Califórnia, e terá também em seu line-up artistas como Ariana Grande, Diplo e Janelle Monáe. Ainda sobre o quarteto sul-coreano, elas entraram na Billboard Hot 100, com o single Ddu-Du Ddu-Du e fizeram parceria com a cantora e compositora britânica Dua Lipa. 

História do K-pop

A história do K-pop, gênero musical criado na Coreia do Sul, não é recente. Remonta ao início dos anos 1990. Mais precisamente em 1992, quando o grupo Seo Taiji and Boys participou de um show de talentos local. O estilo deles chocou: não correspondia a nada visto na música do país até então. Faziam rap, dançavam como bboys. O grupo fez grande sucesso e tornou-se referência. Ainda na década de 1990, o governo da Coreia do Sul percebeu que, com sua cultura, tinha uma mina nas mãos. Pronto: criava-se uma cena musical forte.

Em termos sonoros, o K-pop bebe na fonte do pop americano, mas mistura também outros ritmos como hip-hop, pop-rock e electronic dance music. É difícil mensurar quantos grupos, masculinos e femininos, existem atualmente. Isso porque as três empresas sul-coreanas responsáveis por criar a fórmula do K-pop, SM Entertainment, JYP Entertainment e YG Entertainment, lançam grupos como uma fabricação em série. Para cada grupo que se desfaz, outros surgem. E essas empresas que cuidam da carreira dos idols – como são chamados os integrantes dos grupos – são rígidas em relação à vida pessoal deles: não podem assumir namoros em público e precisam ter conduta cotidiana irreparável. 

Pode-se levar anos para um grupo ser lançado. Afinal, a construção da imagem é um dos segredos do sucesso nesse mercado. “Tem muito ensaio, muita direção, é tudo muito ‘profissa’. Os caras não estão brincando. E por que não pode surgir um talento? Ainda mais nesse esquema em que a maior parte desses grupos trabalha”, diz o produtor João Marcello Bôscoli. O visual colorido, meio lúdico, os clipes bem produzidos e as coreografias sincronizadas são os trunfos deles. “Eles fazem sucesso porque têm um apelo muito pop com a galera mais jovem. Cada integrante representa alguma coisa com a qual a molecada se identifica, um é mais romântico, outro mais esportivo, que é o que se fazia nos EUA no começo dos anos 2000, com Backstreet Boys, ‘N Sync”, afirma o também produtor Rick Bonadio. “Então, essa influência é muito forte. Foi daí que surgiram os grupos de K-pop fazendo essa linha de grupo musical, e cantando músicas que são produzidas no estilo americano, com algumas pitadas de coisas orientais. Muitas vezes, cantam em inglês e também em coreano.” 

O cantor Psy passou como um furacão com Gangnam Style em 2012 e colocou a Coreia do Sul no mapa. Mas passou.

Depois de tantos anos dominando a indústria asiática, o que fez o K-pop atravessar a fronteira para o Ocidente? Bôscoli aponta a revolução tecnológica digital como um dos possíveis motivos. “Eles fazem música pop de uma forma contemporânea, com ferramentas contemporâneas”, completa. Hoje, o grupo BTS, indiscutivelmente, lidera essa cena, mas outras estrelas como EXO, Monsta X, Black Pink e tantas outras também estão ampliando seus mercados. “O K-pop sempre existiu, mas está chegando agora com mais força”, diz Bôscoli. “Vem de um ecossistema com muito dinheiro, sobrevive lá por si. Chegou aqui, e tem que ver se vai permanecer. Um polo a Coreia do Sul já é, mas precisa ver se vai continuar dialogando com o Ocidente.” 

K-pop no Brasil

O glossário dos fãs de K-pop é bem específico. Eles se referem aos integrantes dos grupos como idols. Quando lança o 1.º clipe, o grupo não estreia: debuta. Aliás, não é clipe que se fala, mas, sim, MV (music video). Essa pequena aula foi dada por três fãs brasileiros, na Av. Paulista, num domingo, após um evento de dança de K-pop. As estudantes Caroline Umezaki, de 19 anos, e Sayuri Hioki, de 17, fazem parte do grupo cover de K-pop Black Energy. As sete integrantes do grupo costumam ensaiar as coreografias no Centro Cultural São Paulo, assim como outros grupos covers. “Passou de um estilo musical para um estilo de vida. Comecei a dançar, instiga a gente a conhecer outras culturas, línguas”, diz Sayuri, que descobriu K-pop aos 10 anos. Caroline conheceu aos 11. A faixa etária dos fãs abrange, em média, dos 10 aos 15 anos. Mas Caroline e Sayuri levaram essa paixão adiante. O estudante Dallson Freitas, de 21, também. “Não via diferença entre o pop no Brasil e nos EUA”, diz Dallson, até ele descobrir o K-pop. Hoje, faz parte de quatro grupos covers. 

Fundador da K.O. Entertainment, Lucas Jötten transformou a admiração pelo K-pop em negócios. A empresa dele, baseada em São Paulo, desenvolve eventos focados em cultura coreana e K-pop, além de produzir os grupos de B-pop High Hill (cuja música Não Sou Obrigada está na trilha da novela As Aventuras de Poliana, do SBT) e EVE, que se inspiram no K-pop. Para Lucas, essa onda coreana pelo mundo é significativa. “Entrar no mercado americano é uma vitória para o artista não americano.”

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