Valéria Gonçalvez/Estadão
Valéria Gonçalvez/Estadão

Fenômeno da internet, pianista ucraniana Valentina Lisitsa se apresenta em São Paulo

Em conversa com o 'Estado', ela disse acreditar que jovens músicos têm de escolher entre o público leigo ou o especializado

João Luiz Sampaio, Especial para o Estado

27 de julho de 2018 | 06h00

A pianista ucraniana Valentina Lisitsa não usa meias palavras. Jovens músicos precisam fazer, e logo, uma escolha, ela diz: querem dedicar suas vidas ao contato com o público ou tentar se juntar ao “clube cada vez menor de conhecedores, aquela plateia que frequenta os exclusivos festivais de música europeus”? “É um desafio tão antigo quanto o de Mozart, que precisou escolher entre ser um músico de corte ou partir para Viena e escrever para as chamadas classes baixas”, relembra, mas não sem ressaltar uma diferença: o músico de hoje tem a seu lado a internet como ferramenta.

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O impacto que a tecnologia pode ter em uma carreira não é um tema estranho à pianista. Pelo contrário. Depois de vencer concursos importantes na Europa e ser considerada um dos talentos mais promissores de sua geração, ela se descobriu de repente vivendo no interior dos Estados Unidos, sem convites para trabalho. “Até um asilo no qual me ofereci para tocar de graça declinou a oferta”, ela lembra. Abandonar a música parecia um caminho lógico. Mas, antes, ela resolveu gravar um vídeo com uma peça de Rachmaninov e colocar no YouTube. Cerca de uma década depois, seus vídeos já foram vistos mais de 170 milhões de vezes, uma marca inigualável no universo clássico – e ela, aos 45 anos, é solista das mais famosas mundo afora, com o Brasil como destaque: quase 10% dos 440 mil assinantes na plataforma de vídeos são brasileiros e fãs do País representam o terceiro maior grupo entre os 124 mil seguidores da pianista no Facebook, atrás apenas de melômanos dos Estados Unidos e da Itália.

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“Graças às mídias sociais e à internet, somos hoje uma grande família em todo o mundo. Uma família disfuncional, claro, com todos prontos a agarrar os demais pelo pescoço. Mas, ainda assim, hoje em todo o mundo, e em países em ascensão (não gosto do preconceito do termo terceiro mundo), há muitos jovens com acesso total à versão digital da herança cultural da humanidade”, diz Lisitsa ao Estado. “Aqueles que querem aprender, possuem as ferramentas e isso é um abalo sísmico incrível. Pois com o crescimento aumenta também a polarização e na música clássica o abismo entre elite e massas cresce exponencialmente. Isso exige uma nova maneira de pensar. Os jovens precisam abraçar esses desafios e se divertir no processo.”

Lisitsa está no Brasil para dois concertos, nesta sexta e sábado, no Teatro Municipal de São Paulo, onde toca o Concerto nº 3 para piano e orquestra de Rachmaninov, regida por Fabio Mechetti. “No passado, não fui cuidadosa e disse brincando em uma entrevista que odiava Rachmaninov”, ela lembra, dizendo que se referia na verdade à maneira como sua música era vendida, seja como um fóssil do século 19 ou com um estilo hollywoodiano. “Como qualquer adolescente em sua fase rebelde eu fiz pouco da música preferida dos meus pais. Precisei de tempo para começar a entender a profundidade de sua arte”, ela explica, afirmando que “nenhuma composição para piano e orquestra chega perto do alcance emocional que o concerto nº 3 oferece”.

Para ela, todo tipo de conversa sobre como esta música é tecnicamente difícil é “coisa de Hollywood”. A dificuldade, diz, é atingir essa dimensão de significados – o que vale para outros autores. “Adoro chocar as pessoas dizendo que tocar piano é fácil. O que quero dizer é que é mais fácil do que segurar com o pescoço e o queixo uma caixa de madeira ou tocar um instrumento de sopro até seu lábio rachar. Nós pianistas sentamos em um banquinho acolchoado e tocamos as teclas. A dificuldade é outra. Como despertar uma lágrima em quem ouve? É uma tarefa formidável. Quando toco, quero levar o público a uma jornada espiritual, fazê-los ficar em silêncio, meditar, criar um momento em que o tempo para e você absorve a música com o seu coração, não com o cérebro ou com os olhos.”

A brincadeira sobre Rachmaninov custou “reprimendas” na internet por parte de fãs e outros músicos. Mas polêmicas fazem parte do cotidiano da artista que, em seu twitter, trata de temas tão diversos quanto o futuro da música ou a interferência do governo russo na Ucrânia (que ela defende, por sinal). Não é algo comum no mercado da música clássica. “O mercado é o mercado. E a questão dele é : como vender algo. É por isso que sempre se opta por causas nem sempre de fato significativas”, afirma. 

Para ela, “os poucos artistas que ousam ser genuínos, seja em favor do que for, precisam estar preparados para lidar com ventos contrários impressionantes”. “Foi o caso da inimitável pianista Helene Grimaud, com sua luta pela vida dos lobos selvagens, que não é uma causa exatamente popular para muitas pessoas; ou então do maestro e pianista Daniel Barenboim, um gigante musical do nosso tempo, que se uniu à defesa dos palestinos muito antes dela entrar na moda entre a elite cultural europeia. O exemplo dele me parece perfeito: quis usar a música para construir pontes e foi tachado de traidor e terrorista quando fez um concerto com crianças palestinas e israelenses em Ramallah. Sim, a vida pode ser mais fácil para um músico neutro, mas não se trata de uma fuga da vida? Como na obra de Rachmaninov, Beethoven ou Tchaikovski, o destino bate à nossa porta – e você não pode se esconder durante toda a vida atrás da carapaça vazia da ‘arte pura’.” 

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