Ettore Ferrari/ EFE
Ettore Ferrari/ EFE

Feminismo e ovação a Rita Pavone marcam abertura do Festival de Sanremo

Discurso forte da jornalista Rula Jebreal contra o machismo fechou a noite

Redação, Ansa

05 de fevereiro de 2020 | 10h27

A performance da cantora Rita Pavone foi um dos destaques da noite de abertura do Festival de Sanremo, na terça-feira, 4, principal competição musical da Itália e que acontece até 8 de fevereiro.

Ausente do concurso desde 1972, a estrela de 74 anos levantou o público no Teatro Ariston com a canção Niente (Resilienza 74), mostrando que sua energia no palco não tem idade. Ao fim da exibição, Pavone foi ovacionada pela plateia, onde algumas pessoas também não seguravam as lágrimas.

A veterana cantora está atrás de seu primeiro título em Sanremo e compete com outros 23 artistas, incluindo Achille Lauro, Francesco Gabbani e a também experiente Tosca.

Outro destaque da noite foi Tiziano Ferro, que participa como convidado e fez releituras emotivas de Nel blu dipinto di blu, de Domenico Modugno, e Almeno tu nell'universo, de Mia Martini.

 

Feminismo

A abertura do Festival de Sanremo foi encerrada com um impactante monólogo da jornalista e escritora ítalo-palestina Rula Jebreal, cuja participação era uma das mais aguardadas neste ano.

Ainda em dezembro, a notícia de que Jebreal seria convidada para uma das noites do festival suscitara críticas na extrema direita italiana, que já antevia um discurso sobre sexismo e machismo. E a jornalista não decepcionou seus apoiadores nem seus críticos, levando a bandeira do feminismo ao palco do Teatro Ariston.

O discurso começou com uma citação de perguntas feitas em um tribunal italiano a duas garotas que haviam sido estupradas, como "Você usava roupas íntimas naquela noite?" ou "Você acha sexy homens que usam jeans?".

"Perguntas insinuantes e que escondem uma verdade amarga, cruel: nós, mulheres, nunca somos inocentes. Nós não o somos porque denunciamos muito tarde, porque denunciamos muito cedo, porque somos muito bonitas ou muita feias, porque éramos muito desinibidas", disse.

Nascida em Haifa, Israel, de uma mãe de origem nigeriana, Jebreal chegou à Itália com cerca de 20 anos, para estudar fisioterapia na Universidade de Bolonha, mas acabou seguindo a carreira jornalística.

"Na Itália, este magnífico país que me acolheu, os números são implacáveis: a cada três dias uma mulher é morta. E em 85% dos casos o assassino não precisa bater na porta por um motivo simples: ele tem as chaves da casa", acrescentou.

Jebreal contou a história de sua mãe, Nadia, que se suicidou quando ela tinha cinco anos. "Minha mãe foi estuprada e brutalizada duas vezes: aos 13 anos, por um homem, e depois pelo sistema, que a forçou ao silêncio, que não a permitiu denunciar. As feridas sangram ainda mais quando não acreditam. O homem que a violentou por anos, cuja lembrança inapagável estava com ela enquanto as chamas consumiam seu corpo, tinha as chaves da casa", afirmou.

Em seguida, ela se dirigiu diretamente aos homens: "Deixem-nos livres para ser o que quisermos, mãe de 10 filhos ou mãe de ninguém, donas de casa ou seguir carreira, santas ou putas, deixem-nos fazer o que quisermos com nosso corpo e se rebelem junto a nós quando alguém nos diz o que devemos fazer. Sejam nossos cúmplices".

"Não devemos mais ter medo. Nós, mulheres, queremos ser livres no espaço e no tempo, ser silêncio e barulho. Queremos ser justamente isso, música", concluiu a jornalista, enquanto as câmeras filmavam sua filha emocionada na plateia. 

 

 

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