Debora Agostini
Debora Agostini

Felipe Câmara lança singles de acordo com as estações do ano

Ao final, álbum que começa a ser revelado à meia-noite desta sexta (26) terá canções inspiradas pelas sensações trazidas pelas quatro épocas

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2021 | 05h00

O caminho foi longo e doloroso até Felipe Câmara encontrar um pouco mais de si mesmo. Cantor e compositor desde os 15 anos, advogado de formação e produtor musical, um apaixonado pela noiva com quem vivia há três, sua vida recomeçou justamente quando pareceu não ter mais para onde prosseguir. Ao decidir deixar o trabalho bem posicionado de advogado para se dedicar à música, abrindo mão do emprego e colocando os projetos de um futuro sólido em risco, a mulher se foi e o deixou devastado.

O fato é que música já era mais uma força que o impulsionava à sua revelia do que exatamente uma escolha. Quando conta todos os anos desde a primeira vez em que recorda-se estar diante de um microfone, aos 15, em um grupo que já investia em material próprio chamado Fábrica Brasil, ele descobre que 20 anos se passaram. Mesmo depois de estudar Direito, seguiu na música com amigos que também a levaram a sério depois dos primeiros arroubos e formou outro grupo, o Ópera Mundo. Ao mesmo tempo, estudava técnicas de gravação, uma curiosidade que descobriu aos 12, e se tornava produtor de estúdio. “Cara, vai chegar uma hora em que você vai precisar assumir sua música”, disse seu mestre dos trabalhos diante das mesas de som, o guitarrista e produtor do Space Blues, Alexandre Fontanetti.

Ao deixar o terno, a gravata, as audiências e o peso das expectativas de um casamento, Felipe assumiu-se músico em tempo integral primeiro no Folk na Kombi, em 2013, formado com os amigos Bhezão e Jonavo. Um trio equilibrado por três forças que, justamente para funcionar tão bem, juntava-se de fragmentos e não do todo de suas partes. Ou seja, o Folk é sempre um pouco de Jonavo, Felipe e Bhezão, personalidades artísticas que só serão reveladas com toda a bagagem que têm em seus trabalhos solos. Apesar de terem feito juntos um álbum novo e ainda inédito durante os quase 30 dias em que estiveram confinados em regime de quarentena por conta da pandemia, todos eles, hoje, seguem por carreiras solo. E então vem a segunda grande decisão de Felipe desde o rompimento com o Direito, com a noiva e com todas as promessas de uma vida próspera que esse combo poderia proporcionar. Ele decidiu assumir com a mesma coragem o que também nunca foi uma escolha, mas uma imposição de sua voz e de sua composição: o canto romântico. 

Cantores românticos tiveram sua linhagem interrompida no Brasil desde que essa expressão ganhou um contexto de “produto mercadológico cafona”. Um massacre ao qual os Estados Unidos e os outros países da América Latina não foram submetidos a ponto de não verem mais esses cantores surgirem em suas terras. Michael Bublé, Sam Smith e Ed Sheeran agradecem. Por aqui, de repente, todas as vozes que saíram de Roberto Carlos a partir de sua transmutação de jovem guardista para cantor romântico em San Remo, 1968, e terminaram em Paulo Ricardo, nos anos 2000, se tornaram uma espécie de “formato a ser evitado.” “Sempre fui um romântico”, diz Felipe. “Por que não fazer isso com classe? Não entendo por que eles desapareceram.”

Havia então uma boa história a se contar a partir de um rompimento amoroso, um rosto bonito a ser assumido e não mais escondido por pudores de uma pretensa legitimação na negação dos traços físicos e, o mais importante, um interessante material criativo que Felipe começa a mostrar agora, com estratégias para redes sociais que os últimos românticos não tiveram.

Seu projeto se chama Um Ano (uma suave remissão a humano) e será lançado aos poucos e inspirado pelas quatro estações do ano. À meia-noite de hoje (26) sai a música Pardon Me e, no dia 9 de abril, o clipe, abrindo a safra do outono. As seguintes serão E Se a Gente (com música em 23 de abril e clipe em 7 de maio), Não Queria te Perder (música em 21 e clipe em 28 de maio) e um poema musicado (em 28 de maio). “O outono é o término de uma relação amorosa. As folhas caem e a água seca, mas o sol mostra que há esperança”, diz Felipe.  uando o inverno chegar com todo o peso ou a libertação de sua solitude, uma das canções escolhidas será uma versão para Sete Vidas, que o autor Zeca Baleiro lançou no volume 2 de seu álbum O Amor no Caos. É cedo para se compreender o todo, e isso vale também para Felipe. Por ora, seu canto outonal é rouco, belo e profundo e seu lugar de romantismo ganha autenticidade ao se amparar nos arranjos do rock com uma verdade que tem o mesmo tamanho de sua coragem.

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