Feira em SP celebra a resistência do LP

O lado B está fora de perigo. Gasto mas com saúde, sorri quando ouve dizer que seus dias estão contados. Japoneses e americanos o deram por morto assim que vieram com uma bolachinha a laser esnobe e sem charme mas pronta para revolucionar a indústria fonográfica. Vinte anos passados, a pirataria a leva para a UTI e o velho LP sai para se divertir.A resistência do vinil está reunida em uma feira até dia 6 de abril no Conjunto Nacional da Avenida Paulista, entre 10h e 18h. Foram para lá com suas raridades uma dezena de vendedores que enchem o peito para dizer que só trabalham com vinil. O evento é para promover o filme Durval Discos que, a partir de sexta-feira nos cinemas, contará a atormentada vida de um comerciante de LPs que sente coceiras só de pensar em vender CDs.Os "Durvais" armam seus caixotes e sorte de quem aparece primeiro. No começo do dia são maiores as chances de pinçar raridades. Há bancas especializadas em rock e que oferecem com fartura Beatles, Rolling Stones, Canned Heat, Pink Floyd e Eric Clapton a preços entre R$ 7 e R$ 30. Os nem tão razoáveis assim são, quem diria, os nacionais. Isso porque a bossa nova está em alta em países da Europa e Japão e os comerciantes recebem muitos clientes estrangeiros que querem levar esses discos para fora do País. Um álbum de Lennie Dale chamado Um Show de Bossa, por exemplo, sai a R$ 150. O vendedor, Nelson Charles Machado, pagou por ele R$ 5 em uma loja no Rio de Janeiro.A morte do LP, para Charles Machado, nunca vai chegar. "A cada momento existe uma febre nova que faz as pessoas voltarem a consumir vinil." Sua loja, na Rua 7 de Abril, 176, recebe interessados em música brasileira de lugares como Alemanha, Grécia, Japão, Holanda, Coréia do Norte e do Sul, Argentina e Chile. São compradores que ganham a vida com o comércio do vinil brasileiro e que, por tabela, inflacionam o preço dos discos de bossa nova."Fiquei sabendo que um japonês que me comprou um disco de Elis Regina por R$ 100 vendeu em seu país por R$ 1 mil", conta Charles. "O gênero que mais vendemos é bossa nova. O engraçado é que discos de Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Maria Bethânia, que as gravadoras vivem relançando em CD, ninguém quer saber de comprar", diz o vendedor Walter Alves, que começou a trabalhar com vinil em 1950.Aos que insistem na eliminação do bolachão e de seus respectivos lados A e B, há dois endereços que precisam conhecer. Nas tardes de sábado no Páteo do Colégio, centro de São Paulo, há uma inacreditável feira de troca e venda de disquinhos de 78 rotações. São os primórdios do LP, peças raras que vinham com apenas uma música de cada lado, vivendo como se estivessem nos anos 30. E existe a loja Casa Lomuto, na Praça da Sé, também especializada em redondinhos de 78 rpm. "Esses também são raros mesmo", fala o vendedor Jurandir Diniz mostrando a capa de um compacto de Wilson Simonal.É natural que a discussão discos de vinil versus CD ressalte paixões e saudosismo. Mas Mário Gaspar, que trabalha com bolachões há 12 anos, faz uma análise quase sociológica. Quem acusa o LP de ter um som inferior, diz ele, é porque não tem conhecimento de seu poder. "As agulhas são caríssimas, as caixas de som boas também. E muita gente ouve em aparelhos baratos e tem uma falsa impressão." Na era do LP, lembra ele, não havia pirataria. "Seria muito caro fazer reproduções de LPs." Está aí a dica para as gravadoras voltarem a ganhar dinheiro: fazer rodar de novo as velhas bolachas de vinil.

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