Fátima Guedes interpreta Gudin em novo CD

Junte-se o ótimo e o ótimo. Resultado possível é um CD em que Fátima Guedes cante as músicas de Eduardo Gudin. Com arranjos para orquestra de cordas e metais escritos pelo compositor. Pois está quase pronto. Luzes da Mesma Luz acabou de ser gravado na semana passada. O título sai da canção de Gudin e Sérgio Natureza que já havia sido gravada no primeiro disco do grupo Notícias de um Brasil, comandado por Gudin. A solista desta faixa era Mônica Salmaso.O show de lançamento de Luzes da Mesma Luz será no Sesc Vila Mariana, em cujos estúdios o disco foi gravado. Acompanhada pela orquestra, Fátima cantará as 13 composições do disco que têm letra. Há uma suíte orquestral - Abertura. O disco sai com selo da gravadora Dabliú. O financiamento do projeto é do Sesc São Paulo.Além da faixa instrumental, há mais três inéditas, no disco. As nove outras foram escolhidas pelo autor entre as que considera mais significativas de sua carreira - Gudin calcula que tenha composto cerca de 200 músicas, desde que começou, no fim dos anos 60.O arranjador - A idéia, conta o músico, não foi fazer um songbook, mas partiu de sua necessidade de mostrar-se como arranjador, além de compositor. "Quis deixar consignado que sou um arranjador que lida com orquestra e faz canções", diz. Não é muito comum. Gudin enumera: "Edu Lobo, Tom Jobim, Ari Barroso, Vadico, Francis Hime, Dori Caymmi escrevem ou escreveram canções respondendo pelas partes de orquestra."Isso quase acabou. Edu, Francis e Dori são de uma geração antes de Gudin. Depois, desapareceram as orquestras, substituídas por teclados, e nem havia como os compositores aprenderem a lidar com elas. E orquestra é coisa cara. E escrever para orquestra exige um grau de especialização altíssimo."Eu precisava mostrar as orquestrações que sei fazer (sempre há uma faixa com orquestra, nos discos de Gudin, desde o início da carreira; o que nunca houve foi um disco inteiro com orquestra). Esse era o momento. Achei que se não fizesse agora esse trabalho, não faria mais nada na vida", conta.Ele andou com o projeto para cima e para baixo. Mas orquestra é coisa cara - o Sesc, sempre o Sesc, acabou comprando a idéia. O diretor do órgão, Danilo Santos de Miranda, sugeriu que Gudin convidasse um intérprete.Ele tinha um bom leque de opções, desde Vânia Bastos, sua mulher, até Leila Pinheiro, revelada com uma música sua (o samba Verde, parceria com Costa Netto), e Mônica Salmaso. "Mas eu tinha acabado de assistir a um show da Fátima. Falou com ela."Disco de músicas suas, com arranjos seus, topo já", disse Fátima. Ela costuma gravar seus próprios CDs a cada dois anos. Lançou um, todo autoral, Muito Intensa, no ano passado. Deverá lançar o próximo - misturando composições novas e antigas - no ano que vem. Estava, ao receber o convite, portanto, num momento bom para fazer um trabalho paralelo ao seu.Agrada-lhe a idéia de ser intérprete. Ultimamente, quase sempre grava, em seus discos, músicas de outros autores. "Além disso, tenho sido constantemente chamada para atuar como cantora por exemplo, nos songbooks do Tom Jobim, do Djavan, do Dorival Caymmi, e nos discos do Guinga", lembra Fátima. "Tenho investido nesse papel para melhorar os meus shows; pensei que a vida inteira seria compositora, atuando nos bastidores, e queria me expor mais; então, tratei de melhorar meu canto, tomei aulas...."A cantora Fátima Guedes começou a crescer em importância nos anos 90. Seu timbre se tornou mais grave - sem perder os agudos -, o canto ficou mais denso, expressivo, significativo: é o canto de uma grande autora de melodias generosa o bastante para entregar-se com profunda paixão às melodias alheias, de uma poetisa brilhante e madura o bastante para matizar, iluminar novos significados nos versos de outros."E eu adoro o trabalho do Eduardo Gudin", confessa. "Eu bebi nas águas da música dele, nos 70 e 80, enquanto me formava, eu mesma, como compositora", diz. "Ele é sofisticado e popular, o que é difícil; seu trabalho melódico tem sempre saídas inteligentíssimas", prossegue. "E uma das músicas que mais me marcaram em toda a vida foi Mordaça, dele e do Paulo César Pinheiro." Mordaça não foi importante apenas na vida de Fátima, mas um samba que ser tornou hino de todos os que resistiam ao regime militar.Indispensável - Fátima Guedes tem composto em ritmo mais lento. "É que, acho, chegou a hora de só falar o indispensável; tenho um discurso longo - o que mais teria para dizer sobre o amor? Uma pitadinha, uma descoberta, vou trabalhando nas coisinhas pequenas", fala de seu momento. "Então, chegou o tempo de olhar as miudezas e me aprimorar como cantora" - fecha o ciclo.Seja como for, Eduardo Gudin não estava preparado para a perfeição alcançada por sua intérprete. "Ela não erra; juro que nunca vi, em 30 anos de música, ninguém assim", espanta-se. "Ela não desafina, ela aprofunda as canções, ela pega-as por seu lado mais complexo e intenso", admira-se.Quem teve a sorte de ouvir um pouco da gravação só pode confirmar as palavras do compositor. Fátima, ela mesma, é mais crítica. Quer mudar um final de frase, que achou estranho. Gudin sussurra para o técnico: "Não apague nada, não apague nada: abra uma versão nova, não posso correr o risco de perder essa."Nada se perdeu. Ele passou quatro meses, um pouco mais, escrevendo os arranjos. Gravou com a orquestra no teatro do Sesc Vila Mariana, o mesmo em que vai lançar o disco. Mandou as fitas para Fátima, que as estudou em casa. Depois foi só entrar em estúdio - e em três dias o disco estava pronto, faltando apenas a mixagem.Os instrumentos - Ele escreveu para 20 cordas (12 violinos, quatro violas e quatro violoncelos) e nove sopros (clarone, trompetes, trompa, trombone, clarinete, flautas e saxofones). O disco não tem piano - no lugar, entra o violão do compositor, à frente do time de base formado por Toninho Pinheiro (bateria), Lito Robledo (contrabaixo), Luís Carlos de Paula e Jorginho Cebion (percussões).Ele acha que, além de tudo, seu disco pode acabar com um preconceito muito arraigado segundo o qual quem lida com samba (e, se compõe muitas canções, compõe muito mais sambas) não lida com orquestra.Na hora da escolha do repertório, partiu do que considera suas quatro músicas básicas: Verde e Paulista (com Costa Netto), Velho Ateu (com Roberto Riberti) e Mordaça (com Paulo César Pinheiro). As inéditas são o samba Apaixonada (com Jota Petrolino), Néo-Brasil (só dele) e uma canção que tem o nome provisório de Serenizar (também só dele), além da abertura instrumental.As outras são o samba Estrela do Norte (com Costa Netto), Ângulos (com Arrigo Barnabé e Caetano Veloso, música que deu título ao mais recente disco de Eliete Negreiros), Luzes da Mesma Luz (com Sérgio Natureza), Das Flores e Obrigado (só dele).

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.