Andrew White/The New York Times
Andrew White/The New York Times

Father John Misty, de herói indie a colaborador de Lady Gaga e Beyoncé, lança novo disco

'Pure Comedy' chega às plataformas digitais nesta sexta-feira, 7

Pedro Antunes , O Estado de S.Paulo

05 Abril 2017 | 05h00

Era fim de 2014 e Joshua Tillman decidiu colocar alguns vícios em estado de inanição. Deixou de comer carne vermelha, limou o álcool da sua dieta e interrompeu o consumo de drogas. Queria liberar a persona de Father John Misty, nome dado ao projeto dele criado desde que deixou o posto de baterista do Fleet Foxes, banda de folk de relativo sucesso nos Estados Unidos e Reino Unido, em 2012. 

Buscava a clareza para encontrar, no mundo à volta, as canções de Pure Comedy, terceiro disco como Father John Misty. E o que viu foi um mundo em bancarrota e derrocada. É com ironia e uma visão muito peculiar sobre a sociedade contemporânea ultraconectada e, ao mesmo tempo, tão distante que ele discorre ao longo de 13 cações e 74 minutos. O disco chega às plataformas digitais nesta sexta-feira, 7. 

Em entrevista por telefone, Tillman é capaz de manter a aura excêntrica que se ouve nos seus trabalhos – além de Pure Comedy, ele também lançou Fear Fun (2012) e I Love You, Honeybear (2015), sob o nome de Father John Misty. Do outro lado da linha, era possível ouvir o latido de cachorros do vizinho de Tillman, a quem ele não parece nutrir muito apreço. É tão irônico quanto suas letras ao questionar a sua capacidade de explicar o álbum e suas intenções quando, de acordo com o próprio, está tudo ali, “naquelas 13 canções”, ele diz, rindo.

“É bastante irônica essa situação, na verdade”, diz o músico de 35 anos. “Não sou um intelectual. Não sou um filósofo. Eu sou um compositor e, nesse período antes do lançamento do disco, tenho me visto na posição de explicar coisas sobre meu disco, algo que não sou muito bom em fazer.” A dificuldade em dar uma entrevista, ele diz, vem da falta de recursos que uma conversa, uma forma de comunicação mais limitada do que uma canção, oferece. “É difícil, para mim, confiar apenas nas palavras, porque, como músico, tenho outras coisas ao meu favor, como arranjos, melodias, humor e alma”, ele explica. “É frustrante saber que qualquer pergunta que você me faça aqui, agora, será muito melhor respondida com a frase ‘está tudo no disco’ (risos). Não escrevo de forma completamente abstrata. Minhas letras são como ter uma conversa.”

Tillman, contudo, entende que vive uma situação inédita na sua carreira. Atualmente, ele é uma das poucas figuras do universo alternativo a ter uma entrada tão bem-sucedida no universo mainstream e pop. Ele surpreendeu os próprios fãs ao surgir no créditos do disco Lemonade, de Beyoncé, no ano passado. Ele contribuiu com versos e com a melodia da música Hold Up, uma das melhores do álbum. Já Joanne, disco da Lady Gaga na qual ela assumiu uma estética menos dançante, também conta com os créditos de Tillman – nas faixas Sinner’s Prayer e Come to Mama.

Dois dos maiores lançamentos do ano (em cifras) tinham o nome do sujeito que, até pouco tempo atrás, era um misterioso cantor folk de canções de amor e noitadas, com versos ensopados de sarcasmo e sem frivolidades. Tillman sabia que Pure Comedy viria para mudar seu jogo. Seria um disco mais ouvido e comentado do que os dois antecessores. Até o visual mudou: cabelos longos e barba gigantesca foram trocados por um penteado mais hipster retrô e um bigode nada discreto (algo bastante 1980, um híbrido de um frequentador de boate de disco de Nova York com Zezé Di Camargo do início de carreira). 

O resultado já está chegando. O site The Humanist ousou ao chamar Tillman de “voz de uma geração relutante”. Já o The New York Times decretou Pure Comedy como o “álbum ideal para a Era do Absurdo”. As críticas positivas que o disco vem recebendo enaltecem o tom político do álbum. Total Entertainment Forever, por exemplo, é uma reflexão sobre as consequências da superexposição e questiona uma sociedade que vive uma “era do entretenimento”. “Limpe suas lágrimas, você se tornou uma estrela, baby”, canta. “Não é um disco político”, ele pondera, contudo. “Trata-se de um álbum de amor. Sobre amar alguém, a humanidade, até nas suas falhas.” 

Justo Tillman, alguém que inventou o nome de Father John Misty em uma das muitas viagens de ácido, é encarado como o “mensageiro da verdade que ninguém quer dizer.” Ele, como era esperado, nega o rótulo e a missão. “Father John Misty é meu anti alter ego. Algo que criei para não ter que me conter em nada”, diz. “Até ouvir esse nome me faz rir, entende?” 

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