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Fãs querem reconstruir casa de Bach

Cidade de Weimar, na Alemanha, pretende preservar história do compositor

Karoline Kuhla / Der Spiegel,

09 de abril de 2014 | 12h07

 Pode ser uma cidade pequena, mas Weimar é o pináculo da alta cultura alemã, mais densamente povoada de grandes figuras históricas, talvez, que qualquer outra no país. Goethe, Schiller, Herder, Liszt, Wagner, Strauss, Nietzsche, Gropius, Feininger, Kandinsky, Klee e Thomas Mann, todos a chamavam de lar. A maioria destes luminares teve seu mérito reconhecido de alguma forma na cidade. Mas um está visivelmente ausente: Johann Sebastian Bach.

O compositor viveu na cidade por 10 anos durante o século 18 na Markt 16, no coração da cidade. O edifício que ele chamou de casa foi derrubado há muito tempo, e as únicas coisas que se encontram hoje no local são um quiosque de bratwurt e um estacionamento. Não há nem sequer uma placa para indicar que um importante porão abobadado da era da Renascença está localizado abaixo dos carros. Bach provavelmente mantinha seus suprimentos pessoais ali, incluindo a generosa provisão de “30 barris de cerveja” que lhe eram destinados a cada ano como complemento salarial pelos serviços musicais que prestava aos duques de Weimar. Calculado para um ano, isso significa que o compositor barroco dispunha de cerca de 4,5 litros de birita para entornar a cada dia.

“Precisamos deste local para celebrar Bach”, diz Myriam Eichberger, uma professora na Escola de Música Liszt que organizou um rol impressionante de apoiadores numa petição para sua campanha. Os signatários incluem o Nobel de medicina Günter Blobel, da Alemanha, o Nobel de literatura John Coetzee, da África do Sul, e o maestro austríaco Nikolaus Harnoncourt, conhecido em todo o mundo por suas apresentações anuais televisionadas do Concerto de Ano Novo com a Orquestra Filarmônica de Viena. Cerca de 11 mil fãs de Bach de todo o mundo assinaram a petição online em change.org. Eles estão reivindicando a reconstrução do antigo edifício onde Bach viveu e que o porão histórico seja acessível ao público.

O compositor, é claro, viveu em outros lugares do Estado da Turíngia onde hoje é comemorado, com casas de Bach localizadas em Wechmar, Arnstadt e Eisenach, para não mencionar um bom número de igrejas onde o músico tocou órgão, casou-se ou seus filhos foram batizados.

O elefanta na sala Por enquanto, porém, não foi a aparente abundância de locais de peregrinação a Bach na Alemanha que tem obstruído os esforços de Eichberger e seus colegas de campanha. A areia na engrenagem tem sido a Arabella Hospitality, uma empresa pertencente à bilionária família Schörghuber de Munique.

Em Weimar, os Schörghuber operam o Hotel Elephant, um estabelecimento cinco estrelas que sempre foi o principal endereço na praça. Tanto Goethe como Hitler se contam entre os hóspedes proeminentes que pernoitaram no hotel. Ocorre que o hotel também possui a propriedade onde estava a casa de Bach até sua demolição em 1989. O capítulo local do Partido Comunista ordenou que ela fosse derrubada no último inverno antes da queda do Muro. Hoje ele é usado como um estacionamento com 70 vagas, que o gerente do Arabella Hospitality, Reinhold Weise, diz que são “fundamentais e importantes para o hotel”.

Mesmo que a empresa dona do hotel viesse a considerar a reutilização da propriedade, Weise tem outras ideias para isso, incluindo uma área de spa e quartos adicionais para hóspedes. Se esses planos fossem em frente, as vagas de estacionamento seriam realocadas numa garagem subterrânea, diz Weise. Este, porém, é o cenário de horror para os fãs de Bach porque colocaria em risco o histórico porão.

Mas esses planos não serão realizados tão cedo. A Arabella Hospitality não acredita que o terreno de Weimar seja suficientemente lucrativo no momento para justificar um investimento importante. “Somos uma companhia que depende da geração de lucros”, diz Weise.

Por enquanto, o terreno continuará sendo um estacionamento, o que dá mais tempo para Myrian Eichberger promover sua campanha. “Sou flautista e capaz de prender o fôlego por bastante tempo”, diz ela. Eichberger já conseguiu um financiador inicial. O fã de Bach, Blobel, que hoje vive em Nova York, se ofereceu para comprar a propriedade contestada na Markt 16.

Um impulso para o turismo? Bach mudou-se para o prédio em 1708, aos 23 anos de idade, junto com sua mulher grávida. Ele se tornou organista da corte e depois maestro de concertos para os duques de Weimar. Foi aqui que ele compôs a maioria de suas obras para órgão e mais de 30 cantatas. O porão é o único lembrete tangível da passagem do maestro na cidade. Aliás, o porão abobadado representa o único remanescente arquitetônico de edifício que tenha sido oficialmente reconhecido como um lugar onde Bach viveu um dia, diz Eichberger. É por isso, acrescenta, que é imperativo que ele seja reconstruído. Ela espera que algum dia concertos de hora de almoço deleitem plateias numa casa resgatada de Bach.

Eichberger considera também que isso seria mais interessante para o Hotel Elephant do que um estacionamento subterrâneo. O hotel aparece como um ambiente no clássico Lotte em Weimar de Thomas Mann, um fato do qual o hotel continua se beneficiando até hoje, diz Eichberger. Um memorial ao compositor bem ao lado do hotel seria ainda mais lucrativo, acrescenta.

“Com o devido respeito a Thomas Mann”, diz ela, “Johann Sebastian Bach era um titã.”

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