Werther Santana/AE
Werther Santana/AE

Fãs gastam quase R$ 10 mil para ver seus ídolos no exterior

Admiradores de Roberto Carlos, Claudia Leitte e Ivete Sangalo contam por que vale a pena

Ana Rita Martins, Jornal da Tarde

04 de setembro de 2011 | 09h11

“Dessa vez eu vou pegar a rosa”, afirma a empresária Dirce Maia, de 58 anos. Ela não quer uma flor qualquer, dessas que crescem nos canteiros de Pilar do Sul, cidade do interior de São Paulo onde vive. Dirce quer uma das rosas que o cantor Roberto Carlos costuma jogar para as fãs durante os shows. E nem o fato de o próximo espetáculo ser em Jerusalém, Israel, na quarta-feira próxima, foi capaz de tirar a meta de sua cabeça. A fã pagou nove mil reais por um pacote turístico que dá direito a cinco noites no local e à apresentação do cantor. Desse dinheiro, ela desembolsou dois mil reais a mais para ficar na primeira fileira do anfiteatro. “Não haverá nada entre eu e o Rei”, anima-se.

Dirce não é a única a não se intimidar nem com as fronteiras, nem com o preço a que uma viagem dessas pode chegar. Com ela, viajarão as amigas Marina Rita dos Santos Toledo, professora, de 48 anos, e Filomena dos Santos, também professora, de 50 anos. Marina conta que parcelou a viagem de sete mil reais em dez vezes. “O orçamento vai ficar apertado, mas vale a pena”, diz. Ela, Dirce e Filomena colecionam discos, fitas, CD’s e fronhas com a estampa do ídolo. Até porta-retratos com a foto dele – como se fosse da família –, elas têm.

Perguntada sobre por que ir tão longe para ouvir Roberto Carlos, já que ele costuma se apresentar no Estado, Marina quase se ofende: “Imagina ele cantando ‘Jesus Cristo’ em plena Terra Santa, minha filha… É outra coisa”, afirma. Depois, dá a entender que, no fundo, o que interessa mesmo, independentemente do lugar, são as lembranças que o cantor evoca. “Quando o ouço, lembro da juventude. Eu mandava cartas para as rádios, oferecendo músicas românticas dele para os paqueras”, recorda.

A depender da estrutura do evento – orçado em 30 milhões de reais –, é bem provável que as amigas de fato se emocionem. Roberto Carlos se apresentará para cinco mil pessoas, no anfiteatro aberto Brechat Hasultan (Piscina do Sultão, em português), localizado ao lado da muralha da Cidade Velha. O show será filmado com câmeras 3D e poderá, inclusive, chegar aos cinemas até o fim do ano. A previsão é de que ele cante em português, espanhol, italiano e, talvez, em hebraico.

Transmissão ao vivo

Novo demais para ser saudosista como Marina, mas igualmente fã fervoroso, é o paulistano Igor Ismail, de 16 anos. O adolescente, por sua vez, foi até os Estados Unidos, em julho desse ano, para assistir a dois shows da cantora Claudia Leitte.

Além de pular sob o som agitado da baiana, Igor ainda aproveitou a ocasião para fazer a alegria de outros fãs. Como ele e alguns amigos têm uma rádio online, 24 horas, que toca músicas da cantora e que tem programas dedicados a ela, Igor teve a ideia de transmitir, ao vivo, os shows nos Estados Unidos, com direito a comentar a performance da cantora. “Tivemos quatro mil ouvintes nesses dias. Foi um recorde”, ele conta. O rapaz já conhece o show da cantora de cor: só esse ano foi a dez apres

Outra baiana que mobiliza os fãs, até para fora do Brasil, é a cantora Ivete Sangalo. Em setembro do ano passado, ela gravou um DVD na Praça Madison, em Nova York. A paulistana Renata Vasconcellos, de 18 anos, esperava pelo evento há três anos. “Quando fiz quinze anos, Ivete anunciou que faria um show no exterior, mas ele foi cancelado”, conta. “Só que eu tinha a certeza de que uma hora ia rolar”, completa. Justamente por acreditar na investida internacional de Ivete, a adolescente abriu mão da festa de quinze anos, em troca de uma viagem que nem sabia quando ia acontecer. O avô tentou convencê-la de que era melhor não trocar o certo pelo duvidoso, mas não adiantou. Três anos depois, a família investiu 10 mil reais para a adolescente ver os shows. Foram 5 dias nos EUA.

Renata não só foi ao show, como ainda tirou fotos com a cantora, numa festa privada que esta deu em Nova York. “Eu e outros fãs ficamos sabendo, por colunas sociais, que ela faria uma festa numa balada”, conta. “Daí fomos para lá e pedimos na cara de pau, para quem saía, a camiseta que era o convite da festa”, completa.

A mãe de Renata, a empresária Lúcia Vasconcellos, de 50 anos, admite certa influência sobre a admiração da filha pela cantora. Quando a menina tinha três anos, a família morava em Salvador e costumava levá-la para os camarotes, no carnaval. “Ela ouve Ivete desde sempre”, diz. Ruy, marido de Lúcia e pai de Renata, vez ou outra comenta que a fã, na verdade, é Lúcia. “E faz sentido”, diz a mãe. “Não é só para acompanhar a Renata que eu fui à vários shows, inclusive para Nova York. Eu gosto”, diz. A empresária costuma gastar cerca de 300 reais mensais com ingressos para a filha. “Nesse mês, fui a três shows da Ivete”, comenta Renata.

Há fãs, aliás, que priorizam o ídolo até mesmo na hora de escolher entre ir vê-lo no exterior ou comprar um carro. É o caso do funcionário público Carlos Jacobina, de 33 anos, também fanático por Ivete. Só esse ano, ele já assistiu a dez shows da artista.

A primeira vez que saiu do País para ver a cantora foi em 2006. Viajou até Berlim para um festival de verão onde ela se apresentaria e, com isso, usou parte do dinheiro com o qual pagaria um carro à vista. O show foi cancelado, Carlos não sabia para onde ir, não falava alemão e voltou desolado para o Brasil. “Mas desolado não é derrotado”, ele diz.

Em 2009, quando soube que a cantora estava indicada ao Grammy Latino, em várias categorias, o fã não se conteve. “Ela não ia ao Grammy. Resolveu mandar só representantes. Mesmo assim, por conta própria, resolvi ir até lá, em novembro, para assistir a cerimônia”, conta. Carlos foi até Las Vegas e gastou oito mil reais só para prestigiar as indicações de Ivete (o convite, ele conseguiu por meio de um cambista). A cantora acabou não sendo premiada.

Em setembro do ano passado, ele também esteve no show da cantora na Praça Madison. Só que, antes de embarcar, resolveu prestar mais uma homenagem à baiana. Mandou para o presidente Obama, em plena Casa Branca, um pacote com um DVD da cantora e um convite para que ele assistisse à apresentação. Obama não foi, mas Ivete ficou sabendo. Nos extras do DVD Ivete Sangalo Ao Vivo no Madison Square, ela comenta, incrédula, o feito de Carlos. Quando fala disso, ele se derrete: “Assim eu vou até para o Japão”.

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