Família Ozzetti lança crias de festivais

Quem entrava na casa da família Ozzetti, lá pelo fim da década de 60, pensava estar em um conservatório. Em cada quarto dos quatro irmãos - Ná, Dante, a flautista Marta e o guitarrista Marco - ensaiava uma banda diferente. O pai, sem agüentar tanto barulho, comprou um sítio para que os filhos ensaiassem nos fins de semana. O investimento tem sido recompensado.Dante Ozzetti e Ná Ozzetti, irmãos e músicos, participaram de grandes eventos do gênero realizados recentemente em São Paulo. Dante inscreveu-se no Prêmio Visa de MPB - Edição Compositores, de 1999. Ná concorreu na categoria melhor intérprete do Festival da Música Brasileira, de 2000, da Globo. Como prêmio por tirarem os primeiros lugares, lançam, coincidentemente na mesma época, discos de brilho raro na música brasileira.Dante e Ná, na estrada desde os anos 70, souberam fazer o vento dos festivais soprar a seu favor. Sem a obrigação de fazer música para vender disco, pressão freqüente das grandes gravadoras sobre seus artistas, eles aproveitaram os prêmios que ganharam para colocar em prática idéias que há tempos pensavam concretizar.Ná preferiu o passado. Buscou luz em sambas-canções feitos entre as décadas de 30 e 50, além da música Show (Luiz Tatit e Fábio Tagliaferri), que batiza o CD lançado pela Som Livre, e com a qual venceu o festival. "Não pensei em fazer releituras. Os arranjos respeitaram a essência das composições", resume.Dante pisou mais à frente. Com o parceiro letrista Luiz Tatit em 7 das 11 faixas de Ultrapássaro (Gravadora Eldorado), se atreveu a pegar rumos vanguardistas. Sempre evitando as trilhas óbvias, sobretudo na harmonia - traço comum aos músicos paulistas dos anos 80 -, fez um trabalho mais complexo. "É falsa a idéia de que o grande público não gosta de coisas elaboradas. O difícil é ter o canal para se chegar a ele", opina o compositor.Tarimba - Detalhes importantes: é Dante quem assina os arranjos das canções escolhidas por Ná. E é Ná quem canta em algumas faixas do disco de Dante. "Mas cada álbum tem um conceito bem distinto", avisa a intérprete.Se nos anos 60 os festivais de canção eram bons para revelar artistas novatos, hoje eles se mostram mais eficientes em valorizar gente tarimbada e com parcas chances na mídia. Mesmo com quase nada em comum, o Visa, que julga a obra do artista, e o Festival da Globo, que julga uma única música, deram visibilidade a criadores que já andavam com suas próprias pernas.Os Ozzetti são exemplos disso. Ná, abreviatura carinhosa para Maria Cristina, começou a cantar no grupo Rumo, em 1978, depois de guardar o diploma de artista plástica. Do dia em que ouviu Elis Regina em diante, ninguém mais a fez desistir de soltar a voz para ganhar a vida.Dante, aos 44 anos, sempre compôs, mas nunca havia lançado um disco. Antes de completar 10 anos, dedicou à mãe sua primeira criação. Ultrapássaro, a faixa letrada por José Miguel Wisnik, que abre o CD, ele fez quando tinha 16 anos.Se festival de música ainda serve para alguma coisa? Embora ninguém se lembre mais do nome de quem venceu o concurso que a Rede Globo promoveu no ano passado, a resposta é sim. E Ná e Dante Ozzetti são dois motivos para justificar tanto otimismo.

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