Falta tristeza em ´Turista Aprendiz´

Mário de Andrade escreveu: "Na minha casa da rua Lopes Chaves/ De sopetão senti um friúme por dentro/ Fiquei trêmulo, muito comovido/ Com o livro palerma olhando para mim" - ficou trêmulo, sofreu de friúme. É o que falta em Turista Aprendiz, do grupo A Barca. Na exuberância deles não há lugar para desconfortos: a tradição popular é brilhante, colorida, confortável, sobretudo alegre.Ora, a música brasileira, toda ela, desde o culto português da tristeza à tristeza inevitável do negro deslocado, do índio abatido, para usar a expressão já conjugada por Gilberto Gil, que, aliás, muito bem retrata a convivência das disposições díspares. Para A Barca, não há esse sentimento. Tudo brilha e reluz, tudo se festeja e se festejará, tudo se colore como num palco iluminado.Por outro lado, eles são ótimos: que extraordinário que jovens como Sandra Ximenes, Juçara Marça e Marcelo Pretto, cantores; Renata Amaral, contrabaixista; Lincoln Antônio, pianista (um dos semifinalistas da edição dedicada aos compositores do Prêmio Visa, em curso); Chico Saraiva (violonista); Thomas Roher (rabequeiro e saxofonista); Ligeirinho, Valquíria Roza e Beto Teixeira (percussionistas) tenham os olhos, a atenção acadêmica voltados para a obra de fundo da música popular.Talvez não seja culpa deles que tudo soe tão assim, como olhar estrangeiro, de turista. A intenção, claro, é a melhor possível. Mas houve um hiato, há um buraco separando a academia da real tradição popular, e essa não é uma questão só musical, nem só acadêmica - e nem exclusivamente fruto de boas intenções equivocadas: com intenções diferentes, Walter Sales e Bruno Barreto criaram Brasis que só existem na tela em seus filmes mais recentes.A Barca, como Walter e Bruno, estiliza o que percebe mais imediatamente no tom das vozes populares. Há o colorido, o frescor, a sensualidade, sem dúvida. Mas tudo vem permeado pela imensa tristeza - permeado, por sinal, não é a melhor expressão. A tristeza não permeia a festa, dá-lhe identidade. Acontece no blues e no tango, também, no som e música não-comercial da Jamaica (o reggae não é de lá, é da regionalmente inidentificável indústria fonográfica). Todo o mérito de Turista Aprendiz fica comprometido pela incapacidade de compreender o fato tão simples: a festa é tanto do desejo quanto da perda.

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