Agliberto Lima/Estadão
Agliberto Lima/Estadão

Faixa a faixa: Ruy Castro comenta 'Amoroso', de João Gilberto

Jornalista e escritor é autor de 'Chega de Saudade' (Companhia das Letras)

Alberto Bombig, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2018 | 06h00

O jornalista e escritor Ruy Castro, autor de Chega de Saudade (Companhia das Letras), comenta faixas do álbum Amoroso, de João Gilberto, que será relançado em vinil pela Polysom em outubro:

'S Wonderful

Gravar 'S Wonderful em inglês com sotaque baiano pode parecer uma decisão corajosa, mas apenas refletia um velho hábito de João Gilberto na intimidade, de cantar canções americanas --- outra que ele adorava era Day In, Day Out. Numa enquete promovida pelo José Domingos Rafaelli em 1952, ele citou seus dois cantores americanos favoritos: Sinatra e Doris Day. Seguindo, aliás, o que, na época, era uma tendência geral no Brasil.

Estate

Estate foi uma total descoberta de João Gilberto. Bruno Martino era um cantor italiano que dividiu com ele a cena de um resort na Itália em 1963 — imagino que fosse um Jerry Adriani local. João ouviu Estate, ouviu nela coisas que talvez nem o próprio Bruno soubesse que estavam lá e gravou-a. A partir daí, a canção entrou para o repertório internacional dos cantores sofisticados. 

Besame Mucho

Besame Mucho, de Consuelo Velásquez, foi uma surpresa entre os que achavam até então que João só cantava coisas recherchées — e não podia haver nada menos recherchée do que Besame Mucho, todo mundo conhecia. Mas ele já havia quebrado essa barreira anos antes, no disco João Gilberto en México, em que gravara Farolito, de Ernesto Lecuona, também muito popular no Brasil. O mais importante é que eram boleros, e uma das bandeiras originais da bossa nova, segundo Ronaldo Bôscoli, era o combate ao bolero.

Escolhas posteriores de João Gilberto provariam que ele seria capaz de cantar qualquer tipo de música, desde que gostasse dela — e a playlist do que ele ouvia no alto-falante em Juazeiro, BA, citada no começo do meu livro Chega de Saudade, é uma prova disso. [No futuro, ele gravaria outros títulos daquela lista.]    

Tin Tin por Tin Tin

Tin Tin por Tin Tin foi o começo da grande contribuição de João Gilberto ao ressuscitar Geraldo Jacques, autor também de Adeus, América, ambos em parceria com Haroldo Barbosa. O outro da mesma linha [e também parceiro de Haroldo] que ele trouxe de volta foi Janet de Almeida, autor de Pra que Discutir com Madame, Eu Sambo Mesmo e outras maravilhas. Esse tipo de samba supersincopado — samba de bossa —, muito praticado aqui no pós-guerra, é que é o antecessor direto da bossa nova, na minha opinião. E era inevitável que fosse João Gilberto a não deixar que eles ficassem esquecidos. Aliás, Haroldo Barbosa [amigo do Tom e deles todos] é um dos grandes nomes esquecidos da música brasileira. Falei com a filha dele sobre a possibilidade de um musical, mas ela acha mais importante ser autora de novela...

As quatro faixas de Tom Jobim

Wave, Caminhos Cruzados, Triste e Zíngaro [título original de Retrato em Branco e Preto] são quatro composições de Tom Jobim com parceiros, compondo metade do disco — todo o lado B do LP original. Interessante como João Gilberto, apesar de não querer nada pessoalmente com Tom, se mantinha atento à sua produção e nunca deixou de gravá-la. O arranjador de Amoroso, Claus Ogerman, foi outra "herança" de Tom, com quem Ogerman trabalhava regularmente.       

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