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Faith No More não se contenta em repetir o passado e lança disco depois de 18 anos

Músicos trazem o novo álbum para duas novas apresentações no Brasil, uma no festival carioca e outra em SP, em setembro

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

13 de maio de 2015 | 05h00

Foram dois dias de chuva quase ininterrupta quando o Parque Brasil 500, em Paulínia, presenciou (e ouviu) a primeira música inédita do Faith No More desde Album of the Year, disco de 1997. Matador, na época, ainda sem nome, era soturna, como se saída de um western futurístico e sombrio, com introdução de piano e a voz fantasmagórica do versátil Mike Patton. Naquele 14 de novembro, no encerramento do terceiro dia do festival SWU, o gigante da década de 1990 dava os primeiros passos de um renascimento marcado Sol Invictus, primeiro álbum de inéditas em 18 anos. O trabalho chega às lojas do mundo todo no dia 18, mas já pode ser ouvido por streaming.

Em 2011, a banda conhecida pelas performances ao vivo estava em estado de inanição. Dois anos e uma turnê de reunião depois, o gás já não era o mesmo. Fizeram apenas quatro shows, na Argentina, Uruguai, Chile e, por fim, Brasil. O SWU já havia sido palco da melancólica despedida do Sonic Youth, que meses depois anunciou o fim, após o rompimento entre Kim Gordon e Thurston Moore. O Faith No More parecia, ou poderia, seguir o mesmo caminho, não fosse pela deliciosamente estranha canção escolhida para encerrar o show.


“Tocamos aquela música na turnê para vermos se nos sentíamos confortáveis”, conta Mike Bordin, baterista e um dos integrantes fundadores do grupo, em 1979, ao lado do baixista Billy Gould. A banda passou por diferentes formações até se estabelecer em 1996, com Roddy Bottum (teclado), Jon Hudson (guitarra) e, claro, Patton. O tempo havia voado desde que o FNM lançara o último disco. O grupo havia interrompido as atividades em 1998 e os integrantes passaram a se dedicar a outros projetos. Patton, por exemplo, pode dar vazão à sua criatividade de forma ampla, com Mr. Bungle, Fantômas e Mondo Cane.

Em 2009, a banda anunciou o retorno em uma turnê de reunião, mas, dois anos depois, havia sentido a necessidade de algo inédito. “Foi ali que tudo começou”, diz Bordin. “Quando tocamos aquela música, era o que tínhamos. Naquele ponto, não sabíamos se faríamos algo juntos, se comporíamos. Um disco é um compromisso massivo. Eram dez músicas.”

Ao fim daquela pequena turnê latina, o grupo debandou, mas a semente estava plantada. “Naquele ponto, começamos a nos falar: ‘Você sentiu isso? Foi legal, não foi?’”, revela o baterista. “É como se tivéssemos sentado em uma mesa, em um restaurante. Primeiro, pedimos as entradas para ver como era, ou seja, a Matador. Queríamos ver como seria divertido. Um passo por vez, sabe. Até cogitarmos pedir a refeição completa.”

Por mais que Patton estivesse reticente em voltar a lançar um disco do Faith No more, Bordin e Gould começaram a gravar algumas faixas. “Tudo encaixou tão bem”, conta o baterista. O restante da banda entrou no projeto, assim como Patton. Diferentemente de outros discos, contudo, o Faith No More não tem uma grande gravadora por trás. Isso, afirma Bordin, foi essencial. “Era libertador, não havia mais ninguém no estúdio, só a gente.”

Sol Invictus, cujas gravações foram mantidas em segredo até o anúncio, em maio de 2014, chega sob a chancela da Reclamation Records, selo de Patton, e foi produzido por Gould. Dezoito anos depois de Album of the Year, o grupo ainda soa como sempre: devastador, apoteótico e caótico. “Para nós, soamos de forma natural. Não estamos querendo ser um artista country, um rapper gângster ou um garoto de 18 anos aborrecido com os pais”, diz Bordin. Tanto tempo depois, o Faith No More está livre da pergunta: E aí, quando vocês vão lançar um disco? “Nossa, queriam saber isso todos os dias”, diz Bordin. “É libertador.”

 Banda volta com ótimas lembranças do Rock in Rio 


Mesmo com a força do videoclipe de Epic, na recém-inaugurada MTV Brasil, o Faith No More estava longe de ser a atração mais esperada daquela noite da segunda edição do Rock in Rio, encerrada pelo Guns N’ Roses, na época, a banda mais estrelada do mundo.

Ninguém parecia preparado para o que seria visto naquele set de uma hora. Devastador, para dizer o mínimo. Aquele Axl Rose, ainda em forma, é bom lembrar, foi ofuscado por um outro bonitão do hard rock, Mike Patton. Começava ali, naquele 20 de janeiro de 1991, no palco montado no estádio do Maracanã, uma relação intensa entre o público brasileiro e o Faith No More. Foram 15 capítulos de história desde então. Dois a mais serão acrescentados em setembro deste ano, quando a banda volta a São Paulo, com show marcado para o Espaço das Américas, no dia 24, e ao Rock in Rio, no dia seguinte, dividindo o palco principal com Slipknot, Mastodon e De La Tierra – cidades pelas quais o grupo não passa desde 2009.

“Aquela apresentação no Rock in Rio de 1991 foi realmente importante para a gente”, diz Mike Bordin, baterista do grupo. “Éramos jovens quando subimos naquele palco. Não sabíamos o que esperar. E, sendo quem éramos e ainda somos, demos tudo o que podemos.”

O set no festival tinha apenas uma hora de duração e contou com dez canções, como The Real Thing, Epic, um cover de War Pigs, do Black Sabbath, e foi encerrado com o hit Easy, também uma versão, desta vez da canção do The Commodores, mas uma das canções mais radiofônicas lançadas pelo grupo. “Nós explodimos, fisicamente falando”, relembra o baterista. “Colocamos uma energia intensa ali sobre o palco e as pessoas reagiram a aquilo. Isso, cara, isso não se esquece.”

O festival carioca comemora 30 anos de existência em 2015. Diferentemente daquela segunda edição, montada no estádio carioca e lembrada pelo odor de urina que havia por todos os lados, o Rock in Rio se tornou global e colossal. Realizou edições em Madri, Lisboa e debutou nos Estados Unidos, em Las Vegas, no último fim de semana.

Fora do festival, em 1991, era possível encontrar os integrantes da banda pelas praias do Rio, assim como nas boates. Patton concedeu um punhado de entrevistas e destilou suas impressões sobre o mundo em uma visão ainda jovem e raivosa. Bordin garante que os elogios ao País não são parte da cartilha de respostas prontas sobre o País e seu público. “O Brasil significa muito para nós. Ajudou a entender quem nós éramos. Em essa coisa meio punk rock, uma energia física”, diz ele. “Nos sentimos bastante confortáveis aí.”

 Ouça o disco Sol Invictus:

1 - ‘Sol Invictus’

Canção mais curta do álbum, transpira ares épicos. Há um clima marcial e western.

2 - ‘Superhero’

Uma pancada sinistra. Se até o Superman fosse derrotado, qual o futuro da humanidade?

3 - ‘Sunny Side Up’

Ritmo alucinado cai, mas refrão quase gutural garante a faixa.

4 - ‘Separation Anxiety’

Patton mostra por que é conhecido por ter ‘Mil Vozes’.

5 - ‘Cone of Shame’

Clima marcial volta no fim da primeira metade do disco.

6 - ‘Rise of the Fall’

Jon Hudson alivia na guitarra e Roddy Bottum tensiona no piano.

7 - ‘Black Friday’

Uma versão apocalíptica de uma trilha de Ennio Morricone.

8 - ‘Motherfucker’

A mais próxima de ‘Epic’, mas menos pop e muito intensa.

9 - ‘Matador’

Western alucinado, com dueto de Patton e Bottum, no piano.

10 - ‘From the Dead’

Fim da batalha, retorno dos heróis. Faith No More voltou.


 

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