Fagner revela o grande poeta Francisco Carvalho

O poeta cearense Francisco Carvalho chegou aos 77 anos sem pagar os dividendos que a fama normalmente cobra de talentos extraordinários como o é o dele. Pública e notoriamente acanhado, nunca teve algo que se possa chamar de uma vida social e, quando sai de casa, quase somente em bastante esporádicas visitas à Academia Cearense de Letras, onde tem cadeira cativa, esse cantor da solidão (?meu Deus, essa cadela insigne, anda comigo e meu destino?) se comporta de forma tão discreta que quase nunca é percebido, nem mesmo pelos velhos amigos. Embora tenha recebido o Prêmio Nestlé de Literatura de 1982 pelo livro Quadrante Solar, um dos 30 que publicou em meio século de militância poética, o que lhe valeu o reconhecimento da crítica nacional, e continue a produzir de forma copiosa, sim, mas nunca enxundiosa, a definição que melhor cabe a sua figura é a do título do caderno especial lançado há alguns domingos pelo jornal O Povo: ?o homem invisível?. Comparado com ele, seu colega itabirano Carlos Drummond de Andrade era um ?exibido?.Agora, contudo, vai ficar cada vez mais difícil para ele não ser abordado na rua e não ter a casa - onde costuma se reunir apenas o núcleo familiar, composto pelos próprios filhos, netos e bisnetos - invadida por fãs embasbacados com a natureza singular de sua lírica no panorama árido (e estéril) da poesia brasileira contemporânea. É que um de seus leitores, outro cearense, Raimundo Fagner, astro de primeira grandeza do negócio do espetáculo e da indústria fonográfica nacionais, pôs melodias e interpretou cinco poemas dele em seu mais recente CD, Donos do Brasil. Depois de ter feito suas platéias se esgoelarem cantando o soneto Fanatismo, da galega Florbela Espanca, convencido um dos maiores poetas brasileiros, o maranhense Ferreira Gullar, a verter uma canção hispano-americana para fazer com ela enorme sucesso popular, apresentado ao público urbano o poeta matuto Patativa do Assaré e dado a conhecer o espanhol Rafael Alberti, o compositor e cantor jogou a luz dos próprios holofotes no personagem secreto da cidade onde ele também vive.Sutura Inconsútil - Francisco Carvalho é, sem favor nenhum, um dos melhores poetas em atividade no Brasil. E Raimundo Fagner mergulhou fundo em sua produção (reconhecida pelo especialista Gilberto Mendonça Teles como ?uma das mais volumosas da atual poética brasileira?) para dela extrair e reproduzir momentos de beleza sublime. É o caso do poema O Bicho Homem, que abre o CD. O texto, apoiado no jogo dos contrastes, faz parte do veio filosófico da obra, cuja unidade foi detectada pelo presidente da Academia Brasileira de Letras, o também poeta Ivan Junqueira, que anotou: ?Os poemas de Francisco Carvalho possuem aquela unidade descontínua própria da lírica.? O poeta, crítico e professor pernambucano César Leal realçou esse caráter unitário do material trabalhado pelo compositor e intérprete, ao escrever: ?É como se ele escrevesse um poema único, tamanha a coesão de um todo, cujas partes parecem articular-se graças a uma sutura que se diria mesmo inconsútil.?O poeta já havia escrito ?O homem não é um sonho / nem alguma utopia. / O homem é senhor de seu destino / e dos caminhos que passam / por dentro da alma? (Desenho Rupestre). E agora radicalizou na mesma direção: ?Que bicho te oferta um ramo de rimas / e a sombra dos mortos semeia gemidos por sete Hiroximas?? No momento mais feliz da parceria, Fagner incorporou a esses versos profundos e instigantes uma dolente seresta brasileira de uma beleza e de uma simplicidade que a fazem ficar à altura dos versos que a inspiraram.O boi e outros bichos - Mas o homem não é o único bicho a merecer a atenção do poeta, como captou Fagner. Fanático por vaquejadas, este sertanejo de Orós percebeu a riqueza da tauromaquia nos poemas selecionados pelo autor em Memórias do Espantalho, seleta dos 19 livros que editou de 1971 para cá. Em Notícia do Boi (Rosa dos Eventos, 1982), o poeta constatou: ?O boi às vezes pasta / a vontade de não pastar.? Agora, Fagner musicou o poema Esse Touro Vale Ouro e canta: ?Esse touro quando muge / parte o arame das estacas.?Cristão fervoroso, camoniano inveterado, leitor atento de romances de cordel, fã de Murilo Mendes, Manoel Bandeira, Euclides da Cunha, Carlos Drummond de Andrade e Octavio Paz, dos quais se encontram muitos intertextos e paráfrases em sua poesia, Francisco Carvalho goza de invejável intimidade com o vernáculo. E cultiva um sense of humour muito mais sertanejo (é natural de Russas, no interior do Ceará) que britânico. Em Dialética do Poema, ele escreveu: ?Fazer um poema não é dizer coisas profundas. / É ver as coisas como as coisas não são.? Essa contundência folgazã está presente no poema Cesta Básica, um dos musicados por Fagner, do qual vale a pena citar os dois versos finais: ?Um quilo de aipim, pra não morrer de esplim / Um tiro no ouvido, pra não morrer de rir.? O uso da palavra esplim (que significa enfado, melancolia), quase nunca usada na comunicação cotidiana, reforça o estranhamento desse fecho, sem dúvida antológico.Impacto idêntico será produzido pela decisão do astro da MPB de dar ao Brasil o privilégio de conhecer a obra secreta desse poeta maior, embora ?invisível?.

Agencia Estado,

29 de outubro de 2004 | 20h20

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