Fagner e Zeca Baleiro: reunião de talentos em CD

Raimundo Fagner e Zeca Baleiro sãoartistas talentosos e sempre muito atentos ao que consideram,digamos, sensibilidade do mercado. Um olho na arte, um olho nonicho da indústria cultural onde possam florescer. A semelhançaestá mais nessa atenção do que no fato de serem nordestinos, doCeará, o primeiro, do Maranhão, o segundo. Juntaram-se para produzir, compor e cantar num disco deduo. Podia ser um desastre. Mas Raimundo Fagner & Zeca Baleiro(MZA), não sendo obra-prima, resultou no melhor disco deRaimundo, em muitos anos e, longe, longe, no melhor de todos osde Zeca. Fagner chegou à cena abençoado por Nara Leão e ElisRegina, avalizado, ainda, pela turma do velho e influentíssimoPasquim. Sérgio Ricardo havia criado e lançado, pela editorado Pasquim, um projeto chamado Disco de Bolso. Naquele tempo,discos tinham música nos dois lados. Num lado do Disco de Bolso,um artista famoso apresentava música nova e no outro lado, umartista novo mostrava o talento. No primeiro Disco de Bolsoestreou João Bosco, com Tom Jobim apresentando Águas de Março.No segundo e último Disco de Bolso, de 1972, Caetano cantava numlado e Fagner mostrava Mucuripe. Gravou um belíssimo disco, Manera, Fru-Fru, Manera, umsegundo razoável, um terceiro mais ou menos e no ângulodescendente fez carreira. Chegou a dizer que venderia maisdiscos do que Roberto Carlos, que marcava 1 milhão de exemplarespor cada novo título. O aval a Zeca Baleiro foi circunstancialmente maismodesto. Veio de pessoas importantes, mas não muito conhecidas,como as cantora Ceumar e Rita Ribeiro e o compositor, seuparceiro, Chico César. Venceu festivais de música pelo Brasilcom a belíssima canção Dindinha (gravada por Ceumar, cujodisco de estréia ele produziu), mas nunca fez um disco próprio àaltura do talento inegável. O encontro melhorou os dois. Como compositores, cantores- Fagner mais contido, Zeca mais à vontade -, idealizadores declimas sonoros. Voltaram a aparecer a ousadia e a criatividade,e emerge das faixas uma certa despreocupação com modismos.Compuseram juntos 8 das 11 faixas - belas canções. Duas sãodeles com outros parceiros. A restante é uma adaptação de cançãotradicional francesa do século 16, por Fausto Nilo. Que o bomresultado possa repetir-se em solos de ambos. Bom para amúsica.

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