Fábula musical 'Pedro e o Lobo' estréia em São Paulo

Com espetáculo, diretora teatral Muriel Matalou pretende aproximar as crianças do universo da música clássica

João Luiz Sampaio, de O Estado de S. Paulo,

11 de junho de 2008 | 17h07

"Quem disse que criança não pode gostar de música clássica?" Quem pergunta é a diretora teatral Muriel Matalou. E é ela mesmo que responde: "A música pode trazer conhecimentos importantes para elas, contanto, claro, que seja apresentada de modo inteligente, sem ser babaca." E é a isso que ela se propõe com o espetáculo Pedro e o Lobo, que estréia nesta quinta-feira, 12, no Auditório Ibirapuera. Veja também:Galeria com fotos do espetáculo 'Pedro e o Lobo'   Pedro e o Lobo é uma das mais queridas partituras de Sergei Prokofiev. Foi escrita ao longo de poucos dias de 1936, logo após a volta do compositor à União Soviética após viagens pelos Estados Unidos e pela França. Conta-se que a motivação para escrever a obra veio de seu filho, cansado de ter que ouvir alguém lhe contar ou então de ler a história do menino Pedro. Surgia assim a partitura. Outras versões, no entanto, afirmam que a obra foi encomendada a Prokofiev pelas autoridades russas com a finalidade de aproximar o público infantil da música clássica. Pedro vive no interior da Rússia com seu avô. Certo dia, decide sair pela floresta, deixando o portão aberto - um pato escapa e vai nadar em uma lagoa próxima, começa a discutir com um passarinho, chega então o gato... O avô de Pedro lhe dá uma bronca, não quer o neto brincando sozinho por ali. "E se aparece um lobo?" Bom, ele, claro, aparece, engole o pato. E Pedro trama com os outros animais para capturar a fera, sendo ajudado mais tarde por alguns caçadores - e, juntos, eles resolvem levar o lobo para um zoológico, com o pato grasnando dentro de sua barriga. O que torna a fábula interessante na recriação de Prokofiev é o sentido que ela ganha. Seu público alvo com Pedro e o Lobo foi sempre o infantil - e, nesse sentido, ele viu a possibilidade de transformar a peça em uma pequena e divertida lição sobre uma orquestra sinfônica. Com a ajuda de um narrador, a história é contada também pelos músicos - o som de cada instrumento é associado a um dos animais e, à medida em que a trama se desenrola, vão criando um interessante universo de sons e imagens. "Não quis, de maneira alguma, competir com a idéia original de Prokofiev", explica Muriel. "Tive em mente a todo instante o fato de que essa obra não foi escrita com o objetivo de ser montada no palco, com cenários, figurinos, etc. Mas criei um jogo de sugestões e referências que em nenhum momento disputa a atenção com a música. O foco está sempre nos músicos, na orquestra e, conseqüentemente, na música." As "sugestões" a que Muriel se referem aparecem na pele de bonecos que, sem preocupação naturalista, vão acompanhando a ação. "Mas não são eles que narram a história mas, sim, a orquestra e seus instrumentos. A música é o personagem principal, é ela que conduz a ação. Nosso jogo cênico tem como objetivo apenas ilustrar um pouco mais o que se passa no palco e não competir." Essa proposta também está de acordo com o objetivo de não tratar a criança como se ela fosse incapaz de entender o que está acontecendo no palco. "O público infantil não pode ser subestimado, isso é um erro. Prokofiev queria com essa obra contar bem uma história. Nós queremos fazer o mesmo. Mas não podemos ficar com babaquice, querendo ser didático demais. É por isso que optamos pela linguagem muito interessante dos bonecos. Acho fundamental o contato da criança com a música clássica. Sempre achei e, depois de ser mãe, só passei a concordar mais ainda com isso. A música oferece uma proposta estética, um elemento matemático, enfim, várias coisas que trazem conhecimento e são importantes na formação da criança." Além disso, Muriel defende a idéia de que Pedro e o Lobo toca em questões que estão bastante relacionadas a problemas da nossa época. "O medo é uma das grandes questões da vida contemporânea. A síndrome do pânico, o medo de sair de casa, da violência. Mas, às vezes, não se dimensiona esse medo corretamente, ele acaba ganhando um tamanho muito maior do que a realidade. Ao longo do meu processo de preparação, conversei com psiquiatras para discutir isso e ver como poderíamos trabalhar esse tema em uma apresentação como esta. Tivemos idéias curiosas, como um gato com síndrome do pânico." Uma orquestra foi especialmente formada para o projeto. À frente dela, estará o maestro Carlos Moreno, atual diretor artístico e regente titular da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo. A narradora será a atriz Giulia Gam.

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