TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Fábio Jr. é reavaliado em três discos de sucesso

Caixa 'Popstar', com os primeiros álbuns pop do artista, aponta para uma chance de se fazer justiça, agora, ao compositor

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2015 | 04h00

A obra de Fábio Jr. deve ser reavaliada. A certeza do produtor Marcelo Fróes foi um dos fatores que o moveram para que lançasse uma caixa com os três primeiros discos mais comerciais do cantor. São eles os álbuns, todos com o nome do artista, de 1979, 1981 e 1982, a primeira fase pop depois de Fábio se livrar do codinome Mark Davis (com o qual lançou um álbum em inglês, em 1975) e de deixar na gravadora Philips um de seus discos de orientação mais 70, bem representado por Carona e Bicho de Sete Cabeças. Um Fábio bem distante do fã que o conhece das ‘metades da laranja’ e inimaginável aos que só o acompanham pelas revistas de fofoca.

Naqueles fins de anos 1970, Fábio começaria a trilhar uma rara carreira de impacto duplo: seu nome fazia as pessoas ligarem TVs e comprarem discos com a mesma intensidade. “Me diga outro artista brasileiro que conseguiu o mesmo?”, questiona Fróes. Muitas vezes, as duas frentes se alimentavam. Ao vê-lo cantando Pai no seriado Ciranda Cirandinha, de 1978, Janete Clair pediu que a canção fosse a abertura de sua trama, Pai Herói. Mesmo 36 anos depois, a música não sai de seu repertório.

Há argumentos para resgatar Fábio Jr. da invisibilidade moral embrenhada sobretudo em seu próprio meio artístico – um antistatus curioso que colide com sua imensidão renovável de fãs. Apenas nos discos relançados por Fróes, fica latente o compositor de pensamento pop, mas não padronizado, que busca uma saída harmônica menos óbvia desde que ela não se torne um ruído na história que se quer contar – o equilíbrio que difere os homens que conversam com as multidões daqueles que passam a vida falando aos amigos.

Do disco de 1979, 20 e Poucos Anos é uma que faz isso, mais precisamente na palavra “planos” de “nem por você, nem por ninguém, eu me desfaço dos meus planos”. É seu pulo do gato, tirando as facilidades de lugar com tensão para reforçar o relaxamento de logo depois. E isso justamente sobre a palavra “planos”. Do mesmo disco, Papo de Família, feita com Heraldo Correa, tem uma estrutura harmônica e um movimento de quadris que a levaria facilmente para um bom disco de Antonio Carlos e Jocafi (só o teclado Yamaha tocado pelo futuro maestro de Roberto Carlos, Eduardo Lages, poderia ser abduzido para alguma outra dimensão).

Seu primeiro sucesso, Pai, se resume a cinco minutos daquelas verdades que sublimam os maiores riscos. Fábio fez esta canção em 1978 para o pai, Antonio Galvão, um motorista de táxi que seria assassinado em 1982, enquanto trabalhava nas ruas de São Paulo. Sua súplica faz entender que as coisas não iam bem com o homem que chamava de seu “herói e bandido”. A voz treme sobre o piano de Lincoln Olivetti, ganhando volume e dramaticidade conforme Fábio se encoraja até o ponto de deixar a alma exposta. Ele sente a falta de tempo, de presença, o queria como um amigo. Diz que não faz questão de ser tudo, mas que não vai sufocar a palavra amor quando tiver de dizê-la. Implora ao pai que se sente à mesa e, com o sofrimento na respiração, diz que só quer que ele vá à sua casa brincar de avô com o seu filho.

O disco de 1981 traz um Fábio bem posicionado na figura que ele seria pelos próximos anos. Qualquer resquício do rock e do soul do fim dos 1970 estava superado em nome da construção de um ídolo romântico – uma equação que cobraria seu preço. “Cantor no Brasil tem de ser engajado. Se não for, será brega. Esse patrulhamento era muito pesado naqueles anos”, diz Fróes. O estouro de Seu Melhor Amigo, de Guilherme Lamounier, é arrebatador e, de certa forma, atropela qualidades de outras faixas. Muito Cacique Pra Pouco Índio, apesar de atingida pela maldição dos teclados de Olivetti, que iriam condenar carreiras a viverem eternamente nos anos 1980, mostra a forma de contestação. Em vez de apontar diretamente ao sistema e à censura de uma ditadura ainda em curso, ele primeiro mirava as mazelas do homem comum para depois chegar aos governos. “Pessoas se vendendo estão, completamente sem noção do caminho que elas mesmas escolheram. Essa loucura faz sentido, é pura manifestação de que você não foi ouvido. Se manda daí, vem pra cá, encarna de novo, sossega esse povo carente de amor, de esperança, de fé e de tudo que realmente tem valor”, diz.

Em 1982, a gravadora gasta ainda mais, enche o estúdio e reforça os poderes de Fábio. Um dos trompetes de Não Misture as Coisas é de Claudio Roditi e um dos saxes, de Léo Gandelman. Enrosca aponta para um popstar de pista e O Que É Que Há traz de volta o que Fábio nasceu para ser. Um cantor e compositor que a história colocou na prateleira errada.

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