NILTON FUKUDA/ESTADÃO
NILTON FUKUDA/ESTADÃO

Fabiana Cozza volta aos mistérios de Bola de Nieve

Pianista cubano que sofreu por ser gay, gordo e negro na Havana dos anos 40 e 50 ganha agora um DVD da cantora paulistana, que será lançado nesta quinta (6), com um show no Blue Note

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 06h00

A muitos cubanos, Bola de Nieve, mesmo ignorado pelas gravadoras da Ilha entre 1944 e 1959, é um nome sagrado, algo além da nostalgia dos boleros, ao largo das trovas e guarachas, distante das salsas. Um pianista, cantor e compositor que subestimava-se nas três funções quando dava entrevistas, revelando seu principal talento: um intérprete. “Eu sou a música que eu canto”, dizia. E, para isso, era capaz de passar até um ano mapeando uma canção antes que pudesse torná-la sua ao mesmo tempo em que ele, como dizia, tornar-se a própria música. Negro, gordo e gay, enfrentou o racismo desde sempre, mesmo em sua mágica Guanabacoa, ao leste de Havana, os deslocamentos de uma realidade fidelista, pós Revolução de 1959, que declarou perseguição aos homossexuais.

Morto em 1971 na Cidade do México, aos 60 anos, sua obra não tem grande histórico de releituras pelas novas gerações. Mesmo músicos cubanos pensam bem antes de tocar em algo já interpretado pelo mistério de Bola, um sorriso grande, largo de olhos e boca, iluminando um piano antagonicamente triste e cortante. E como aquilo funcionava junto, tornando algo único e tocante, fazendo cada sílaba chegar à plateia, é o que não se explica. Nada do que Bola cantava era em vão e revê-lo hoje, para a brasileira Fabiana Cozza, passou a ser também um ato político. A primeira brasileira a gravar um álbum dedicado ao cubano, Ay Amor!, lançado em 2017, foi a Cuba, desta vez, apresentar-se em Havana, no Museo Nacional de Bellas Artes. Sem a certeza de que sua gravadora entraria na jogada, a Biscoito Fino, tirou dinheiro do bolso, contratou produtores cubanos, chamou Elias Andreatto para dirigi-la em cena, se uniu ao pianista naturalizado brasileiro Pepe Cisneros e gravou um belo concerto.

O resultado em vídeo de Ay Amor! reconduz Fabiana ao palco com o repertório do projeto. O show será hoje (6), às 22h30 (a casa abre às 21h), no Blue Note. Apenas voz e piano, com todas as tensões que Bola criava nos silêncios das pausas e da alma, o que pode exigir da casa que não abre mão dos serviços de bar durante os espetáculos uma carinho especial. “Fizemos um show para 150 pessoas em Havana. É um show para lugares menores mesmo, como era quando Bola se apresentava.” Ela entendeu que este é o momento para se lançar o DVD de Bola. “Cantar um artista que foi escorraçado por ser negro, gordo e homossexual se tornou uma defesa do afeto. O amor é transgressor.”

Fabi Cozza diz que não tem uma pretensão didática ao falar de Bola, mas artística, colocando foco em seu amor “não higiênico”, “de frestas, de carnaval, livre, acima de qualquer possibilidade de ser enquadrado.” O que importa, ela reproduz um pensamento, não é a voz plena, algo que muitas cantoras têm, mas o mistério da voz, uma cálice sagrado sobretudo entre as cantoras. Suas idas frequentes a Cuba, duas vezes por ano, podem trazer um termômetro da popularidade de Bola de Nieve hoje. Haveria algum sentimento de justiça tardia ou de constrangimento coletivo pelo fato de Bola ter sido evitado em seu próprio país? “Cuba tem uma sociedade que estuda. Eles podem não ouvi-lo nas rádios, mas conhecem e respeitam muito esse artista.” Nos extras do DVD, há uma entrevista que Fabi faz com Raquel Villa, uma das irmãs de Bola, e alguns depoimentos colhidos com as pessoas que foram vê-la no teatro.

Bola de Nieve, conforme algumas memórias, não gostava do apelido, nasceu para ser Ignácio Jacinto Villa Fernandez. Estudou música em Havana a partir dos oito anos e tocou piano no palco de um cinema de Guanabacoa que exibia filmes mudos na década de 1930. Seu primeiro canário foi a cantora também cubana Rita Montaner, com quem fez muitos shows no México e viu sua popularidade ser potencializada até o retorno triunfal a Cuba. Cantava em francês, inglês, catalão, português e italiano por países da Europa e da América Latina. O escritor Pablo Neruda se tornou um amigo. “Bola de Nieve se casou com a música e vive com ela nessa intimidade de gizos e pianos, tirando da cabeça as teclas do céu. Viva sua alegria terrestre! Saúde ao seu coração sonoro”, escreveu. O mitológico violonista espanhol Andrés Segovia o definiu assim: “Escutar Bola é assistir o nascimento conjunto da palavra e da música. A Bola de Nieve, mais do que impressionar, o interessou expressar, tocar a sensibilidade do que escuta e, nisso, quem sabe, se encerra o mistério de sua arte, seu magistério artístico”.

O show de Fabi Cozza, com um espanhol fluente e fluído, aproveita canções como Ay Amor!, em que Bola diz “amor, se vai levar minha alma, leve de mim também a dor”; Devuelveme mis besos, em que pede a devolução de seus carinhos e de toda a esperança que um dia sentiu; e Mesié Julián, com a voz de Fabi saindo de outro lugar, com outra postura, para chegar à ironia fina que Bola usava para falar dele mesmo, um “negro social, intelectual e chique” que conhece Nova York dança cancan em Paris.


FABIANA COZZA CANTA BOLA DE NIEVE

LANÇAMENTO DO DVD ‘AY, AMOR!’ HOJE, ÀS 22h30 (A CASA ABRE ÀS 21H) BLUE NOTE.

CONJUNTO NACIONAL – AV. PAULISTA, 2073, 2º ANDAR.  

INGRESSOS: R$ 60 INTEIRA / R$ 30 MEIA

Tudo o que sabemos sobre:
Bola de Nieve

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.