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Exposição no Rio aborda relação entre o samba e as artes visuais

'O Rio do Samba' tem obras de Portinari, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres com trechos de Noel Rosa, Candeia e Dorival Caymmi

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2018 | 06h00

RIO - Não é sempre que uma exposição contagia o visitante já à entrada. Acontece com quem chega a O Rio do Samba – Resistência e Reinvenção, em cartaz no Museu de Arte do Rio (MAR). A instalação sonora de Djalma Corrêa parte da batida de um coração, acrescida passo a passo dos instrumentos que dão corpo ao ritmo: a cuíca, o cavaquinho, o pandeiro, o reco-reco. Quando adentra o espaço expositivo, depois de ver nas paredes do corredor de acesso trechos de sambas fundamentais, de Noel Rosa, Candeia, Dorival Caymmi e Chico Buarque, o espectador já está conquistado. 

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“A gente já ouve essa batida nos nove meses no ventre da mãe. Por isso o samba é universal. As pessoas inconscientemente fazem essa ligação”, diz Corrêa, percussionista e um dos cinco artistas convidados a criar obras especialmente para a mostra. Os outros foram Jaime Lauriano, Gustavo Speridião, João Vargas, Ernesto Neto e Leandro Vieira – os dois últimos produziram juntos. Eles fazem companhia a artistas do acervo do MAR e de instituições como o Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) e o Instituto Moreira Salles, que colaboraram também.

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Quadros de Portinari, Di Cavalcanti, Heitor dos Prazeres, Guignard, fotografias de Marcel Gautherot, Walter Firmo, Bruno Veiga, Evandro Teixeira, réplicas de parangolés de Helio Oiticica, e objetos contam a trajetória de cem anos de samba. Dos terreiros das casas das tias baianas onde o samba carioca se firmou, no início do século 20, às escolas de samba e blocos de carnaval em sua versão do século 21. 

O samba é retratado como parte da cultura do dia a dia do carioca, para além das apropriações pela indústria cultural e mesmo pelo carnaval. Entre as raridades, o prato e a faca que o lendário músico João da Baiana tocava, um turbante de 1946 de Carmen Miranda e um tabuleiro original de uma baiana, do século 19. A narrativa começa na “herança africana” e no “Rio negro”, passa pelo auge da Praça Onze, berço do samba, e chega ao samba e do carnaval como patrimônios da cidade e do País. 

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Pictoricamente, o samba é lido como manifestação popular de comunidades pobres. Na exposição, sua ancestralidade negra é destacada. “Os pintores quase sempre estereotiparam o universo do samba, pintando as mulheres pelo lado da sensualidade e os homens, pelo perfil de malandros e vadios. Mas não se poderia querer mais do que isso. Criar uma tela que traduza toda a riqueza rítmica, todo o encadeamento melódico e harmônico que o samba tem me parece difícil”, aponta o compositor e escritor Nei Lopes, um dos curadores, com Evandro Salles, Clarissa Diniz e Marcelo Campos.

Da repressão – que veio desde que o samba se mostrou “perigoso”, por seu poder aglutinador, como destaca Nei Lopes – veio a necessidade de resistência e reinvenção. “Já os escravos resistiram através de sua cultura. Os cantos de trabalho eram uma forma de se colocarem”, diz Evandro Salles. “Em meio a uma violência absurda, pessoas de origens e línguas diferentes mantiveram suas tradições religiosas e culturais, reinventaram suas tradições, indo dar no samba, elemento fundamental da identidade nacional”.

Sambistas de todos os tempos, como Martinho da Vila – que abriu a mostra com show gratuito no dia 28 de abril –, João Nogueira e Alcione estão em retratos na sala Encontro, onde fica a instalação Carnaval – o grito do quê?, de Ernesto Neto e Leandro Vieira. Uma escultura de rosto de 2,5 metros e expressão exacerbada criada por Vieira – artista plástico que é carnavalesco da Mangueira, uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio, e que completou 90 anos – é contida por uma trama de Neto. O prazer e a dor do samba estão ali. Ao lado, surdos podem ser tocados pelo público.

“Nós fomos impactados pela morte da Marielle Franco (vereadora negra e representante de favelas), que reverberou em mim e nele”, conta Vieira. “A gente vive numa sociedade que extermina vidas negras e pobres e, ao mesmo tempo, essa cultura está sendo celebrada no museu. Por isso não é possível identificar na obra se a expressão é de alegria ou de dor”.

Carlos Vergara, que há 40 anos trabalha a temática do carnaval em sua trajetória, “recheou” esculturas altas e ocas com restos de fantasias de desfiles. “O carnaval não é apenas uma festa popular, é um ritual da passagem do tempo. O ano não vira no 31 de dezembro nas comunidades das agremiações, mas no carnaval”, acredita. “Meu ateliê fica perto do Sambódromo e os lixeiros levam as fantasias deixadas no chão para mim. Já não são tecidos, mas memória, cor. Com todo o respeito ao Brancusi (escultor romeno), é minha Coluna para o Infinito”.

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