Exposição homenageia a cantora Marlene

A cantora Marlene lançou seu primeiro disco, um 78 rotações com os sambas Swing no Morro e Ginga Ginga, Morena, em 1946, e, desde então, seu fã clube só cresceu. Em 60 anos de carreira é das poucas artistas brasileiras que não perdeu público quando a televisão surgiu, nos anos 50, nem foi relegada quando a Bossa Nova, a Jovem Guarda e o Tropicalismo mudaram os padrões da música brasileira. Gravou mais de 60 sucessos, alguns clássicos, como Lata d´Água na Cabeça e Mora na Filosofia e, nos anos 70, quando sua geração começou a ser chamada de velha guarda, ela foi fazer teatro, sempre com sucesso. Essa história é contada em fotografias e um DVD na exposição Seis Décadas de Vitória, aberta ontem na Biblioteca Pública do Estado, no Rio, com a presença programada da cantora. "Sua vida não é contada em ordem cronológica, mas vamos mostrá-la como crooner dos cassinos da Urca e do Copacabana Palace, nos programas de auditório da Rádio Mayrink Veiga, ela cantando com Edith Piaf em Paris, além de fotos e frases sobre Marlene", adianta o pesquisador Cézar Sepúlveda, que forneceu a maior parte do material que é base também para o livro que ele escreve sobre a cantora, Teu Nome é Vitória. "Foi uma frase que vi num cartaz de show dela e achei perfeito porque este é o nome de batismo de Marlene." Vitória Bonaiutti nasceu em São Paulo, na colônia italiana, como indica o nome, e, ao sair do colégio interno, aos 17, foi praticamente direto para o Programa dos Estudantes, na Rádio Bandeirantes. O sucesso foi imediato e ela virou Marlene, em homenagem à Dietrich, diva do cinema da época. No ano seguinte era atração da Rádio Tupi paulista. Como, naquela época, artista só virava estrela se acontecesse no Rio, logo depois aí estava, cantando na Rádio Mayrink Veiga (a única que competia com a Nacional) e nos cassinos, até eles serem fechados pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, em 1946. O culto a Marlene vem dessa época e virou lenda sua rivalidade com a cantora Emilinha Borba, que era a preferida da Marinha. Marlene tornou-se a mais querida da Aeronáutica e como todo cantor e cantora tinha um aposto, o dela era É a Maior. As fãs mais ardorosas criaram a Associação Marlenista (Amar), que desde então guarda tudo que diz respeito à cantora. "Se não fossem elas, eu não teria nada da minha história", confessa Marlene. "Eu tenho boas lembranças, mas não penso no passado, não sou saudosista, vivo o presente." Foi da Amar a idéia de realizar Seis Décadas de Vitória. "Em 1996, reunimos figurinos de shows, discos, troféus e um grande acervo na exposição que comemorava seus 50 anos de carreira. Agora fizemos diferente, pois só mostramos suas imagens, que Cezar vem reunindo há muitos anos", diz Glória Basílio, que é fundadora da Amar é secretária da cantora. "Desta vez, vamos exibir também um DVD de José Caminha, professor pernambucano que fez uma longa entrevista com ela e conseguiu filmes, programas de auditório e farto material." Marlene fica feliz com a homenagem, mas precisa se poupar. Sua aparição mais recente foi no Prêmio Rival BR de 2004, que homenageava o compositor Monsueto, de quem ela gravou uma infinidade de músicas. Na época ela mostrou toda sua verve, domínio de palco e encantou a platéia que estava dentro do teatro e fora, vendo pelo telão. Mas logo depois ela adoeceu e submeteu-se a várias cirurgias cardíacas. Tanto que, quando sua amiga/rival Emilinha morreu no ano passado, ela só foi avisada dias depois porque não podia se emocionar. "Fiquei com as pernas meio bambas, mas a cabeça e a voz permanecem intactas. E não parei de cantar", garante a cantora, que prometia repetir a dose na abertura da exposição. "O médico mandou evitar emoções, mas como me furtar à homenagem? Estarei lá e cantarei para o público que me segue aonde eu for."

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