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Existência dos Mamonas Assassinas foi essencial nos anos 90

Vinte anos depois do estrondo, fica mais nítida a importância comportamental de um grupo que peitou sozinho a tríade hegemônica 'pagode-axé-sertanejo'

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2015 | 05h00

Vinte anos se passaram desde que os Mamonas Assassinas surgiram arrebatando um público sobretudo adolescente e intrigando boa parte da crítica e de defensores dos bons modos no rock and roll. Afinal, o que é que aquele quinteto de Guarulhos liderado por um rapaz que se vestia de Chapolim Colorado tinha para se dar tão bem, vendendo milhões de discos e sair lotando shows pelo País? A morte trágica acionou imediatamente o status “idolatria” e, de sucesso pop inusitado de uma banda de garagem originalmente séria chamada Utopia, os Mamonas eram mitificados. O avião em que estavam caiu na Serra da Cantareira, despedaçando os cinco amigos de banda e uma carreira em absoluta ascensão.

Olhar para trás agora, 20 anos depois, pode facilitar um entendimento maior. A obra dos Mamonas Assassinas, reunida em um único disco, lançado em 1995, era livre e criativa, mas nada perto de antológica, como a falta de regravações por todos estes anos comprova. Dinho estava longe de ser um grande vocalista e o escárnio que passou a ser chamado de ‘rock besteirol’ não foi invenção do grupo. Mas algo naquele ano de 1995 fazia dos Mamonas Assassinas um golpe necessário.

A música pop vivia a era de retornos estrondosos para as gravadoras. Zezé Di Camargo & Luciano lideravam a frente sertaneja com Pão de Mel; o É o Tchan saía da Bahia para varrer o País no axé de Pau Que Nasce Torto; e o Raça Negra assegurava a terceira fatia do bolo para o pagode paulistano com É Tarde Demais. As TVs e as emissoras de rádio, na era pré-internet, davam as cartas, recebendo ‘jabás’ das gravadoras para inundar suas programações com a chamada tríade dos 1990, axé-pagode-sertanejo, promovendo uma das lavagens cerebrais mais acachapantes da história da música pop.

Os Mamonas aparecem, então, atingindo dois alvos ao mesmo tempo: crianças e adolescentes se identificam de imediato com sua linguagem corporal circense e suas piadas escatológicas, formando uma imensa base de fãs. Enquanto isso, jovens e seus pais, desalinhados com tudo o que tocava até então nas rádios, sentem o doce sabor da vingança ao ver a banda chutando as canelas do romantismo de FM. Na terra arrasada de 1995, os Mamonas chegam fazendo rock pesado mesmo quando unem as distorções da guitarra de Bento Hinoto ao repente (Jumento Celestino), aos trompetes mexicanos (Pelados em Santos) ou ao vira português (Vira-Vira). Desafiam as patrulhas assassinando o discurso politicamente correto com Robocop Gay e destroçam a dor do amor cantada por sertanejos e sambistas com versos entoados pelo nordestinês destrutivo de Dinho, inaugurando a era dos mêmes antes da própria internet: “Mina, seus cabelo é da hora, seu corpo é um violão, meu docinho de coco, tá me deixando louco”. O resultado foi a venda de três milhões de discos e a criação laboratorial de outras bandas que pudessem imitá-los. O fracasso de todas elas seria a prova irrefutável de algo maior do que a própria obra passageira dos Mamonas. Eles só venceram naquele tanque de tubarões de 1995 porque eram de verdade. 

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