Giuliano Gerbasi/Divulgação
Giuliano Gerbasi/Divulgação

Exclusivo: Supercordas lança novo disco entre 'utopias tortas'; ouça

Banda liderada por Pedro Bonifrate mostra 'Terceira Terra', três anos depois do segundo álbum

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

02 Outubro 2015 | 09h00

Enquanto não é o vocalista da banda indie psicodélica Supercordas, Pedro Bonifrate passa seus dias como funcionário público do Museu Forte Defensor Perpétuo, em Paraty, no Rio de Janeiro. A vista do "escritório” tem a Baía Carioca de fundo, e toda a sua estenção quase infinita, por todo o oceano Atlântico. “Quando amigo ou músico paulista que vem me visitar fica impressionado com isso aqui”, ri Bonifrate, de 34 anos, ao telefone, sob a persona do músico prestes a lançar mais um disco, Terceira Terra, o terceiro álbum do grupo fundamental por trazer um tempero alucinógeno para as nossas guitarras.

O trabalho, que chega sob o selo underground Balaclava Records, nesta sexta-feira, 2, e ganha lançamento exclusivo no site do Estado (ouça abaixo), marca um recomeço mais endireitado da banda que, nascida em 2003, terá somente agora três discos na carreira de 12 anos. A distância entre o primeiro, Seres Verdes ao Redor e A Mágica Deriva Dos Elefantes, de seis anos, era uma preocupação para Bonifrate e companhia.

Não repetir a delonga motivou à criação da regra: um disco lançado pelo menos três anos depois de A Mágica. “(A demora) tornou as coisas erradas. A gente começou fazer o segundo disco em 2008”, relembra. “Foi muito estranho aquilo tudo. Acho que por isso a gente teve essa ‘pilha’ de fazer um disco sem ter grandes ideias pelas quais ele brotasse. Foi uma ideia de contornar, de não repetir a fórmula que deu errado.”

E eis que surge Terceira Terra, já no fim de seu prazo, mas potente pelo seu momento. Nunca o rock de guitarras brasileiro soou tão psicodélico no seu underground. Muito disso se deve à geração do Supercordas, que trazia um toque campestre, bucólico, às guitarras encharcadas e venenosas, hipnotizantes.

O novo álbum, como conta Bonifrate, não teve início com um conceito, diferentemente dos antecessores. A urgência para um novo material de inéditas do Supercordas se fez maior do que isso. “A partir disso, começamos a reunir algumas canções que já tínhamos, como Espectralismo ou Barbárie?, do (guitarrista Filipe) Giraknob, e Sobre o Amor e Pedras (de Bonifrate). Esta última a gente pensou que poderíamos construir um disco em cima dela.”

Ele continua: “Eu tenho pensado que, neste disco, nós encontramos um existencialismo musical, no sentido de que, nos outros, a gente tinha essência que precedia a existência da música. Com Seres Verdes e Mágica, havia isso. Desta vez, não ouve uma essência antes da existência, entende?”

Era outubro do ano passado, meses depois da saída do baterista Sandro Rodrigues, também conhecido como Digital Ameríndio, quando o grupo decidiu gravar um novo disco durante um período de dez dias em São Paulo, no estúdio Canoa, de Gui Jesus, em janeiro. A urgência promoveu em Bonifrate, principal letrista do grupo, formado ainda por Gabriel Ares (teclado e sinterizadores), Diogo Valentino (baixo) e Giraknob (guitarra), uma aceleração no processo de compor.

Único integrante a morar em Paraty, cidade onde nasceu a amizade com o baixista Valentino e onde nasceu a primeira banda cover dos dois, Bonifrate costumeiramente recebia as canções do seu entorno, compunha enquanto caminhava pelas ruas velhas da cidade histórica. As palavras precisaram ser empurradas para fora com mais velocidade desta vez. “Esse disco talvez tenha sido um pouquinho mais racional nesse sentido. Não que a escrita mais fluida e surrealista não esteja mais lá, mas tive que soltar algumas canções, fazê-las com certo prazo”, ele conta.

A ideia do disco, para se ter um conceito, uma linha guia, nasceu de Terceira Terra, a faixa que encerra o disco e flerta com a cultura indígena do encontro da utopia, da terra perfeita, criada pelos deuses e na qual não há corrupção criada pelo homem – ou o homem criado pela corrupção. “Existe (no disco) um pé na atual conjuntura política na qual vivemos hoje, com as manifestações que aconteceram em julho de 2013”, diz ele. “É tudo uma utopia. Utopia de esquerda, de direita. Há um choque de utopias.”

A palavra “utopia”, aliás, é citada duas vezes no álbum, em  Terceira Terra, canção-título, e Colunas, onde surge o termo “utopia torta”. Ou seja, o mundo utópico, a tal terceira terra, corrompida de alguma forma. “Foi uma ideia que minha companheira deu, quando conversávamos sobre a abertura de Cuba, como seria ver cubanos com cartões de crédito.  Essas utopias que criamos para gente, de Cuba, por exemplo, é toda errada. As utopia, nas nossas cabeças, são tortas.” 

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