Matt Licari/ Invision/ AP
Matt Licari/ Invision/ AP

Ex-vocalista do R.E.M. volta com novo single após hiato de oito anos

Embalado pelas comemorações do clássico 'Monster', Michael Stipe faz um balanço de sua vida profissional e pessoal anos após o fim do grupo

David Bauder/ AP, Agências

12 de novembro de 2019 | 18h03

Quando Michael Stipe abre o portão da loja abandonada de Manhattan que lhe serve de estúdio, deparamos com um homem que navega com facilidade em criativas vidas passadas, presentes e futuras.

Ele está promovendo as comemorações dos 25 anos do álbum Monster, da R.E.M, enquanto se entusiasma com a acolhida a seu primeiro single desde o fim da banda, em 2011. A seu redor, veem-se trabalhos da arte fotográfica e visual com a qual tem ocupado seu tempo.

Stipe primeiro disponibilizou o single Your Capricious Soul no mês passado, com a renda revertendo para o grupo ambientalista Extinction Rebellion. Manteve o single fora do serviço de streaming por um mês, num protesto mudo contra o “comportamento monopolístico”. Agora, a obra já está lá.

A percussão e som pulsante da canção marcam claramente um afastamento de Stipe do rock de guitarra do R.E.M. Era ele quem geralmente fazia as letras para a banda, com música dos companheiros de estrada Peter Buck, Mike Mills e Bill Berry (até este deixar a banda, em 1997). Em Your Capricious Soul, é tudo dele.

“É uma sensação aterrorizante, e é por isso que estou fazendo”, disse ele. Embalado pela boa recepção do single, Stipe espera em breve lançar mais músicas. Como não tem gravadora, sente-se livre para lançá-las quando e como quiser.

“É fantástico ouvir a voz de Michael no rádio em sua nova encarnação”, disse Rita Houston, diretora de programação da WFUV-FM de Nova York. “Não tem nada de R.E.M. É puro Michael Stipe, versão 2019.”

Stipe, hoje com 59 anos, lembra bemde 1994, quando a R.E.M. estava no auge da popularidade. Após duas gavações discretas e comerciais, Out of Time e Automatic for the People, a R.E.M. subiu de tom com hits como Man on the Moon. Pela primeira vez em cinco anos, e com milhões de novos fãs, eles fizeram uma turnê.   

Em Monster, a R.E.M. entrou no glam rock, influencidada por antecessores como T. Rex e New York Dolls, além de contemporâneos como o U2 da era Achtung Baby. O carro-chefe do álbum era What’s the Frequency, Kenneth, título inspirado numa frase esquisita que alguém um dia gritou para o âncora de TV Dan Rather.

“Olhando para trás, eu não acredito que tivemos a coragem e a audácia de pular juntos do penhasco criando algo que soava tão diferente”, disse Stipe. O novo Monster tem trechos que ficaram de fora (“outtakes”) do álbum  anterior e ilustram como as canções foram tomando forma no estúdio. Stipe reconhece que os fãs gostam de ouvir a progressão, mas acha a experiência excruciante. Ele mesmo só ouviu os outtakes uma vez.  

“Abrir tanto a cortina do passado é meio humilhante”, disse ele. “Quero que as pessoas pensem em mim como aquele gênio perfeito que já surgiu arrasando – e é claro que não é esse o caso.”

Stipe mostra uma vulnerabilidde, um lado sensível de que se orgulha. Nos primeiros anos do R.E.M. ele costumava cantar nas sombras, de costas para o público. Nunca perdeu a timidez, mas conseguiu liderar confiantemente a banda.

Sua saída do armário coincidiu com o lançamento do álbum e ele sentiu uma certa pressão com os rumores de que estaria com aids. A banda deixou de fazer duas turnês no lançamento de dois álbuns e Stipe ficou um longo período sem dar entrevistas.    

“Nunca ocultei [minha homossexualidade] e tenho muito orgulho”, disse ele. “Jamais alguém viu uma foto minha fingindo ter namorada ou sendo alguém que não sou. Qualquer fã do R.E.M. que não visse que eu era gay estava enxergando mal.”

A saída de cena da R.E.M., em 2011, foi exemplar. Não houve turnê de despedida , e sim o lançamento de uma canção que serviu de adeus: We All Go Back to Where We Belong (livremente, Voltamos Todos Para o Lugar de Onde Saímos) – uma das músicas mais bonitas do catálogo da banda. Stipe, Buck e Mills nunca lamentaram a decisão pôr fim à R.E.M. Stipe sugere que ela preservou a amizade entre eles.

Buck e Mills continuam ativos na música, enquanto Stipe, recentemente, passou a se dedicar à arte visual. Os negócios da marca R.E.M. prosseguiram e seus ex-membros se dedicaram a novos projetos.

“Preservar o trabalho criativo da banda nos permitiu dar um passo atrás e avaliá-la pelo que foi”, disse Stipe. “Não estaremos aqui indefinidamente e, francamente, acho que isso nos fez um grande favor.”

(Tradução de Roberto Muniz)

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