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Ex-líder do Simply Red, Mick Hucknall fala das versões que faz para feras como Otis Redding

'Usamos conceitos modernos de produção. Nós fizemos com que elas soem atuais', diz cantor sobre atualização da soul music

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 07h00

Blue-eyed soul, ou “soul de olhos azuis”, é a soul music feita por cantores brancos. E embora Mick Hucknall, ex-líder do Simply Red, compositor de pop com aquele inconfundível verniz “suave”, tenha sido um exímio praticante do gênero (em voz e cor dos olhos), só recentemente resolveu voltar às suas raízes e cantar clássicos da Stax e da Motown. Seu disco de releituras, American Soul, o primeiro desde o fim do Simply Red, chega às lojas no fim do mês. Em entrevista ao Estado, Hucknall falou sobre o álbum, sobre o fim da banda, e sobre seu eterno amor pelos Beatles. 

Como decidiu fazer um disco de releituras de soul music?

Quando eu terminei o Simply Red, em 2010, comecei a trabalhar em um disco de composições originais. Logo, recebi um convite de Ronnie Wood, dos Rolling Stones, para substituir Rod Stewart em um concerto beneficente que ele faria com sua antiga banda, The Faces. O entrosamento foi excelente, e o Ronnie me chamou para fazer turnê, no lugar de Rod, que estava ocupado. Ao mesmo tempo, Charlie Watts, também dos Stones, me chamou para cantar algumas canções na banda de boogie woogie dele. O elo entre estas participações foi o repertório de r&b clássico. Assim, quando terminei meu primeiro disco, o meu produtor me disse: ‘Você gosta tanto de fazer estas releituras. Por que você não grava um disco de r&b antigo?’. 

E quais são os covers escolhidos? 

Os mesmos que os Stones e os Beatles interpretavam nos anos 60: Arthur Alexander, Otis Redding, Jimmy Reed... Caras que foram os alicerces do rock n’ roll. Sem r&b americano, não haveria Stones, ou Beatles, ou Hendrix ou Led Zeppelin. Junto ao blues, é a raiz de tudo. Mas o meu interesse é interpretá-las ciente de que estou em 2012, não 1963. Quis dar a elas uma sonoridade contemporânea. Fizemos Thats How Strong My Love Is, do Otis Redding. Tentei usar canções que não são óbvias. Não faria Knock on Wood, ou Mustang Sally. A canção de Arthur Alexander, Girl That Radiates Her Charm, é raríssima. 

E como fez para atualizar a soul music? 

Usamos conceitos modernos de produção. Nós fizemos com que elas soem atuais. Não as copiamos. Quisemos tocá-las da forma com que fazemos música hoje em dia. 

Muita gente gosta de recriar as sonoridades dos anos 60 à risca. Você faz parte disto? 

Não vejo o porquê. Se fosse fazer isso, iria ouvir as versões originais. Quero fazer algo que soe como 2012. Você pode argumentar que nunca há nada de novo, as coisas são apenas recombinadas. É a mesma coisa que no mundo da moda. São as combinações que fazem algo moderno.

O que mudou desde o fim do Simply Red? Você continua compondo no mesmo estilo? 

Eu era o único compositor. Eu queria que o Simply Red fosse uma banda que nem os Beatles. Mas eu não tinha meu Paul, meu John ou meu George. Ninguém na banda compunha. Se fosse fácil, muitos estariam fazendo isso. Entenda, quando você faz turnês sem parar, é difícil compor. Há pouco tempo e muita pressão. E não havia ninguém para me ajudar. Por que você acha que os Beatles ainda são a maior banda do mundo? Porque eles tinham dois gênios e um grande compositor: John e Paul, e George, que está no nível de um Burt Bacharach. George escreveu possivelmente a melhor canção de amor de todos os tempos, Something. E de pensar que ele era o terceiro compositor. Terceiro! Então, é lógico que os Beatles devem ser a maior banda do mundo. E não acho que alguém os ultrapassará nos próximos anos. Eles foram um momento Da Vinci. Foi como se Leonardo fizesse um álbum com Michelangelo e Raphael resolveu acompanhar na guitarra. É tão extraordinário. Não dá para competir com isso. Nós temos que fazer nossa própria música, do nosso próprio jeito. 

Quando e como começou a compor?

Comecei com a minha primeira banda, Frantic Elevators, que saiu da geração punk. Em 1976, economizei para comprar uma guitarra e comecei a compor no meu quarto com um amigo. Todo sexta-feira ele ia em casa e eu tinha uma canção nova. Holding Back The Years foi a segunda música que fiz, mas só terminaria o refrão em 1984, anos mais tarde.

Curioso, pois o seu som nada tem a ver com a geração punk. 

O movimento punk nos interessou no começo. Mas logo percebemos que eles não estavam preocupados com as melodias. Eu era fã dos Beatles, desde os 4 anos. E toda vez que sentava em um pub com o meu parceiro da banda, acabávamos falando das canções de Lennon e McCartney. Por isso, as melodias que eu compunha estavam completamente fora de moda. Todos queriam ser punks. Mas nós ignoramos isto e continuamos com as melodias. Holding Back The Years simplesmente não era de seu tempo. Demorou para eles entenderem. Mas nos anos 1980 eles entenderam o Simply Red. 

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