Ex-deputado Roberto Jefferson vai lançar CD

Os vizinhos de apartamento de Roberto Jefferson são as primeiras testemunhas da transformação do ex-deputado que denunciou o mensalão em um tipo de Luciano Pavarotti da política. Surpreso com o que a própria voz, Jefferson prepara-se em sua sala de estar. Faz treinos vocais pela manhã, exercita a voz com a ajuda de um piano elétrico e sente que a hora está chegando. A vizinhança também. "Quando começo a cantar, tudo começa a vibrar. Aí eu sinto batidas no chão da sala, no teto. São os vizinhos batendo, mas batendo para eu parar", conta.Jefferson está isolando as paredes da sala para ensaiar sem despertar os instintos mais primitivos dos vizinhos. Uma gravadora italiana, a TBA Records, o convidou para lançar um CD com músicas românticas cantadas em italiano. Afastado da política, após de ter tido seu mandato de deputado cassado, está mais perto dos palcos. "Gostaria de fazer shows em dueto com um grande cantor amigo. Vamos ver. A música me ajudou nos piores dias", afirma, na entrevista exclusiva abaixo.Como está a vida de cantor?Quando comecei a pensar nisso, em novembro, me faltava ainda muita experiência. Sempre gostei de música italiana, que é o que faz sucesso. Eu sou barítono, e a voz do barítono é mais escura. Estou estudando para cantar árias de barítono e músicas mais românticas.As pessoas diziam que o senhor cantava bem?Eu era cantor mas só de fim de semana e de banheiro. Cantava muito, mas depois do terceiro chope. Me apaixonei primeiro pela disciplina. Foi com a música que passei a respirar dominando a emoção. Aprendi a controlar o diafrágma, o aparelho respiratório. Quando quer bíceps não tem que treinar? Pois com as cordas vocais é a mesma coisa. Elas são responsáveis pela força da voz.Na época em que o senhor denunciou o mensalão, os repórteres iam para a frente de seu apartamento e ouviam o senhor cantando. Como tinha espírito para cantar naqueles dias?A Denise Tavares foi mais que uma professora de canto para mim. Quando via que eu estava para baixo, olhava para mim e dizia ´vamos cantar´. Eu começava a respirar e a fazer exercícios, era um momento especial. Não sou de ferro e muitas vezes ficava mal. Aprendi a cantar quando me sentia assim. Meu canto oxigenava minhas células nervosas nos dias de CPI. Quando tomava uma cacetada em um depoimento, respirava fundo, abria a costela, sentia o ar. E me preparava para continuar falando.Pelo jeito o senhor pensa em uma carreira profissional.Coloquei um piano elétrico em meu escritório no Rio de Janeiro para me ajudar a treinar. Mas vira e mexe um vizinho bate no teto ou no chão, o pessoal está ficando louco comigo. Estou isolando a sala para não incomodar as pessoas. Estou me ouvindo e me gravando. Não quero errar nisso não, quero fazer uma coisa boa, mas boa mesmo. Tenho pavor de coisa mal feita. Eu tenho convite de um grupo de São Paulo para fazer o meu disco, o TBA Records. Os proprietários são dois tenores, inclusive um deles é Tiago Arancán, tenor no Scala de Milão.A primeira vez que ouvimos o nome do senhor ligado à música foi quando apareceu com o olho roxo. O que aconteceu? O senhor disse que foi pegar um disco do Ataulfo Alves e a estante caiu.Não, aquele era um disco do Lupicínio Rodrigues.E prateleira caiu no senhor?Fui subir para pegá-lo mas não abri a escada direito. Minha assessora de imprensa estava em casa e disse que eu deveria cantar a música Nervos de Aço porque ela retratava meu momento. Disse a ela que embora se chamasse Nervos de Aço, a história não tinha nada a ver comigo. Era sobre um homem que se via traído pela mulher. Isso não fazia jus a mim. Mas quando subi na escada veio tudo pra cima de mim e deu no que deu.O senhor já viu o senador Suplicy cantando?Nunca tive esse prazer. Mas fico feliz por ele, o fará um homem mais sensível. Ele tem um filho artista, não tem?Sim, o Supla.Pois é, olha que interessante. Quem será que cantou primeiro?Acho que foi o pai.Interessante isso.O senhor conhece outros políticos cantores?O José Múcio, líder do PTB na Câmara, tem uma linda voz de baixo, canta em ré, toca um violão e um piano muito especial. Seixo Almeida, do PTB de Roraima, é outro artista de grande sensibilidade. É só a gente começar a cantar que ele pega um acordeom e sai atrás.Música e política têm a ver?A música faz as pessoas muito melhores. Quando falam, elas refletem demais. Quando cantam, não. Para cantar é preciso ser verdadeiro. Ninguém mente cantando. A emoção vem de dentro, não tem como disfarçar.Os depoimentos nas CPIs deveriam ser cantados?O José Dirceu, por exemplo, não tem sinceridade para cantar. A sinceridade que vejo no senador Suplicy não existe no Zé Dirceu. Ele só que o poder, o poder.Gabriel Chalita, ex-secretário de educação do Alckmin acabou de lançar um disco.É mesmo? Não sabia.Ia perguntar se o senhor ouviu.Não, não ouvi. Mas ele deve ser bem preparado para isso.O disco saiu rápido.Bem, no meu caso eu não quero errar nisso. Quando ficava tímido eu não conseguia, por exemplo, subir em algumas notas mais agudas, ficava com medo. Isso eu já superei. Já estou dominando essa técnica.Quando serão os shows?Shows? Quem sabe? Eu propus ao Leonardo Páscoa (cantor) para cantarmos em ´duet´. Falei para ele que não adiantava cantar clássicos. Para se ganhar dinheiro cantaríamos popular (risos). Estou falando com ele para nos apresentarmos juntos.O senhor ouve rádio?Não, confesso que não.Mas ouve CDs.Sim, gosto muito do Il Divo, um disco de tenores. E do novo do Andrea Bocceli.Não tem nada mais popular?Gosto muito de Ana Carolina e do Seu Jorge. Mas curto ainda o Ivan Lins, Milton Nascimento e o Chico Buarque.A vida não teria sido mais fácil se o senhor tivesse escolhido a profissão de cantor?Vida de cantor, pelo que vejo por aí, não é nada fácil. Mas sem dúvida teria sido um caminho mais romântico, mais humano, mais sensível.O senhor seria mais realizado?Sem dúvida que sim, seria muito mais realizado.

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