YouTube/@Eurovision Song Contest
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Eurovision: em guerra com a Rússia, Ucrânia é favorita a ganhar festival

'Stefania', música da Orquestra Kalush, representa o país na tradicional competição musical europeia em 2022

Gaël Branchereau, AFP

30 de abril de 2022 | 12h43

O Festival da Canção Eurovision retorna em cerca de duas semanas, marcado pelas tensões geopolíticas que sacodem o continente europeu, com a Rússia excluída da disputa e a Ucrânia como grande favorita.

A canção Stefania, da Orquestra Kalush, uma canção de ninar que mistura rap e música tradicional, representará a Ucrânia no festival, cuja final ocorre em 14 de maio em Turim, no norte da Itália. 

"Sempre encontrarei o caminho de casa, ainda que todos os caminhos estejam destruídos", diz uma parte da canção. 

A duas semanas da competição, a Ucrânia parte como grande favorita, segundo o site eurovisionworld.com, que reúne os dados dos principais sites de apostas. 

Na sequência vem a Itália, com o duo Mahmood e Blanco, e a Suécia, com a cantora Cornelia Jakobs. No top 10 ainda aparecem Reino Unido, Espanha, Polônia, Grécia, Noruega, Países Baixos e Austrália.

Os organizadores da disputa excluíram a Rússia no dia seguinte ao que o país deu início à invasão contra o vizinho no fim de fevereiro.

Ecos da guerra

A guerra da Ucrânia com certeza marcará o evento, mas "isso não é inédito", explica o historiador Dean Vuletic, pesquisador da Universidade de Viena e autor de livros sobre a geopolítica do Eurovision.

"O público demonstra um forte apoio à Ucrânia, mas eu não assumiria que a Ucrânia vai ganhar", diz.

"Em 1993, Bósnia e Croácia não terminaram em boas colocações", apesar dos ataques da Sérvia, relembra à AFP, ressaltando que há outras candidaturas de grande qualidade.

Há outros exemplos. Em 1975, a Grécia boicotou a competição para protestar contra a invasão do Chipre por parte da Turquia, e em 1992 as guerras que sucederam a desintegração da Iugoslávia marcaram o festival.

Em 2019, a Ucrânia se retirou do Eurovision depois que seu representante abandonou a competição em protesto contra as normas que proibiam turnês na Rússia.

E no ano passado Belarus, aliado de Moscou e alvo de sanções da União Europeia, foi excluída do festival porque as letras da canção atacavam a oposição democrática ao presidente Alexander Lukashenko.

Mas para Slobodan Todorovic, redator-chefe do site de fãs Evrovizija.rs, da Sérvia, o Eurovision não deve se reduzir a política. 

"Uma vitória ucraniana [por motivos políticos] jogaria uma sombra sobre o Eurovision e os valores que representa, a neutralidade, a independência política, o respeito e a promoção da diversidade", opina.

Votos por blocos

Benoit Blaszczyk, secretário da France-Eurofans, vertente francesa da associação internacional dos aficionados OGAE, disse que a Ucrânia receberá o "voto de simpatia", mas não só ele. 

"Têm uma boa canção", declarou à AFP, adicionando que a Ucrânia - que sempre chega à grande final - "chama atenção a cada ano".

Os profissionais da indústria musical e o público de cada país emitem seus votos e, para serem justos, ninguém pode votas em sua própria nação.

No passado, alguns países costumavam votar juntos, como os países francófonos França, Bélgica, Suíça e Luxemburgo. Mas "quando se analisam os estudos, os votos por blocos não determinam os ganhadores", explica Vuletic.

Quase 4.400 fãs do Eurovision afiliados à OGAE tem votado em suas canções favoritas e a Ucrânia ficou na 11ª posição, enquanto a Suécia, que se repete como ganhadora, está na liderança, seguida por Itália e Espanha.

Ainda que não ganhem o Eurovision, muitos creem que a Orquestra Kalush - que necessitou de uma permissão especial para sair da Ucrânia - já ganhou a disputa somente por estar ali.

"O feito de que possam mostrar no palco que puderam sair do país e receber essas mensagens de apoio já é um êxito", diz Vuletic.

 

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