MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO
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‘Eu sou contra a posição arrogante de Israel’, diz Caetano Veloso

Músico responde em carta a Roger Waters pedidos para que deixe de fazer show em Tel-Aviv; leia a íntegra

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

23 de junho de 2015 | 20h37

Quando não se esperavam por mais respostas, Caetano Veloso primeiro falou: “Eu quero dizer a todos que dizem ‘Israel, não’: Palestina, sim. ‘Israel, não’ é empobrecedor”, disse durante seu show na Virada Cultural de São Paulo, na noite de domingo, 21. E, depois, escreveu.

Caetano Veloso e Gilberto Gil receberam uma carta do ex-Pink Floyd Roger Waters, pedindo que eles cancelassem o show marcado para Tel-Aviv, em 28 de julho. O primeiro baiano havia feito silêncio, o segundo, não. Ao Estado, Gil respondeu há duas semanas que iria a Tel-Aviv “cantar para um Israel palestino”, dizendo que não via razões para boicotar o show e que, por outras três vezes, recebeu pedidos similares às vésperas de se apresentar em Israel. Depois disso, o bispo Desmond Tutu, que já ganhou música de Gil (Oração pela Libertação da África do Sul), entrou no coro de Waters e reforçou o pedido. Para ele, os brasileiros não deveriam pisar no território de um primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, que segue promovendo a política das ocupações dos territórios árabes.

Caetano agora resolveu responder, e escreveu uma carta ao roqueiro, divulgada ontem pelo jornal O Globo, que diz assim: “Eu preciso lhe dizer como meu coração é fortemente contra a posição de direita arrogante do governo israelense. Eu odeio a política de ocupação, as decisões desumanas que Israel tomou naquilo que Netanyahu nos diz ser sua autodefesa. E acho que a maioria dos israelenses que se interessam por nossa música tende a reagir de forma similar à política de seu país”.

Caetano segue no tom de Gil, reforçando que o maior manifesto talvez seja ir até a terra do inimigo, tomando cuidado para lembrar que o povo israelense não simboliza necessariamente a política de Israel. “Eu cantei nos Estados Unidos durante o governo Bush e isso não significava que eu aprovasse a invasão do Iraque. Escrevi e gravei uma música que se opunha à política que levou à prisão de Guantánamo – e a cantei em Nova York e Los Angeles. Eu quero aprender mais sobre o que está acontecendo em Israel, agora. Eu nunca cancelaria um show para dizer que sou basicamente contra um país, a não ser que eu estivesse realmente e de todo o meu coração contra ele. O que não é o caso. Eu me lembro que Israel foi um lugar de esperança. Sartre e Simone de Beauvoir morreram pró-Israel.”

O músico baiano fechou assim sua resposta: “Netanyahu não ganhou fácil a última eleição. Acho que o fato de eu cantar lá é neutro para a política do país, mas, se minhas canções, voz ou mera presença puderem ajudar os israelenses que não concordam com a opressão e a injustiça – em uma palavra, a se sentirem mais longe de votar em alguém como ele –, eu estarei feliz”.

Leia a íntegra da carta:

"Querido Roger,

Há cerca de um mês recebemos sua carta através de Pedro Charbel, um jovem brasileiro que faz parte do Movimento BDS. Pedro veio à minha casa, onde ele nos conheceu, a Gil e a mim — junto com nossas empresárias —, acompanhado de uma jovem brasileiro -israelense, Iara Haazs, uma judia (que também está com o BDS), para pedir que cancelássemos o show, em Tel Aviv, no próximo mês. Antes disso, nós recebemos a carta de um importante militante dos direitos humanos no Brasil com o mesmo pedido.

Hoje nós recebemos outra, desta vez do próprio Desmond Tutu (ele foi citado na sua e em todas as outras cartas e mensagens que recebemos sobre o assunto). Tentarei responder a ele também.

Quando a África do Sul estava sob o regime de apartheid, e eu soube que artistas estavam se recusando a tocar lá, concordei como que automaticamente com tal decisão.

A complicada situação no Oriente Médio não me mostra o mesmo tipo de imagem preto-no-branco que o racismo oficial, aberto, da África do Sul me mostrava então. Eu disse a Charbel como me sentia a respeito.

Ele pareceu achar, como você, difícil de acreditar que pessoas como Gil e eu não fôssemos recusar o convite dos produtores e do público de Israel (o show está esgotado) depois de ouvir o que ele tinha para nos contar sobre aspectos realmente sombrios da relação Israel-Palestina. 

Eu preciso lhe dizer, como disse a ele, como meu coração é fortemente contra a posição de direita arrogante do governo israelense. Eu odeio a política de ocupação, as decisões desumanas que Israel tomou naquilo que Netanyahu nos diz ser sua autodefesa. E acho que a maioria dos israelenses que se interessam por nossa música tende a reagir de forma similar à política de seu país. 

Aqui reproduzo o que disse a um jornalista brasileiro que me questionou como eu responderia ao pedido de cancelamento em uma curta sentença: Eu cantei nos Estados Unidos durante o governo Bush e isso não significava que eu aprovasse a invasão do Iraque. Escrevi e gravei uma música que se opunha à política que levou à prisão de Guantánamo — e a cantei em Nova York e Los Angeles. Eu quero aprender mais sobre o que está acontecendo em Israel agora. Eu nunca cancelaria um show para dizer que sou basicamente contra um país, a não ser que eu estivesse realmente e de todo o meu coração contra ele. O que não é o caso. Eu me lembro que Israel foi um lugar de esperança. Sartre e Simone de Beauvoir morreram pró-Israel. 

Gilberto Gil contou-me já ter sido aconselhado a cancelar shows em Israel antes, mas que ele se recusou a fazê-lo, mesmo após os terríveis acontecimentos de julho de 2014. Quanto a mim, eu gostaria de ver a Palestina e Israel como dois Estados soberanos. E entendo que Israel precisa escutar as reações que chegam do exterior. As Nações Unidas, muitos governos, e até artistas, como você, mostram os riscos de Israel ficar cada vez mais isolado, caso siga com suas políticas reacionárias. Às vezes, eu penso que é contraproducente isolar Israel. Isto é, se se está buscando a paz. Tenho muitas dúvidas sobre tema tão complexo. 

Charbel sabe quantos problemas de produção teríamos no caso de cancelamento de um show que já foi anunciado e completamente vendido. Mas eu desistiria alegremente de tudo se estivesse seguro de que essa é a coisa certa a fazer. Devo pensar por mim mesmo, cometer meus próprios erros. Eu te agradeço — e a muitos outros — pela atenção e o esforço dedicados a me esclarecer sobre a política naquela região. Sempre falarei a verdade de meus pensamentos e sentimentos, e se eu fosse cancelar esse show apenas para agradar pessoas que admiro, eu não seria livre para tomar minhas próprias decisões. Eu vou cantar em Israel e prestar atenção ao que está acontecendo lá. 


Netanyahu não ganhou fácil a última eleição. Acho que o fato de eu cantar lá é neutro para a política do país, mas se minhas canções, voz ou mera presença puderem ajudar os israelenses que não concordam com a opressão e a injustiça — em uma palavra, a se sentirem mais longe de votar em alguém como ele — eu estarei feliz".

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