Eu quero graves, médios e agudos!

Tim Maia tem seus melhores álbuns, além de um DVD, reunidos em caixa

Lauro Lisboa Garcia,

11 de dezembro de 2010 | 03h56

Se até hoje, passados mais de 12 anos de sua morte, o legado de Tim Maia permanece sem um herdeiro digno de comparação, imagina a repercussão de seu vozeirão vulcânico e seu estilo quando ele surgiu, único e inimitável, na virada dos anos 1960 para os 70. 3

Amigo de infância de outras pedras fundamentais do pop brasileiro - Jorge Ben, Roberto Carlos, Erasmo Carlos - do bairro da Tijuca, no Rio, Tim seguiu caminho peculiar. Enquanto Roberto, pré-iê-iê-iê, imitava João Gilberto como cantor mascarado no programa do Chacrinha e lançava seu primeiro compacto com duas bossas, em 1959, o teen Maia decidiu, aos 16 anos, ir para os Estados Unidos com a cara e a coragem atrás de um tal de rhythm’n’blues.

Arrumou encrenca, foi preso por posse de drogas e roubo de carro, acabou deportado, mas trouxe na bagagem de volta ao Brasil, cinco anos depois, a melhor influência da música negra americana. A partir daí fez história, criando o soul e o funk com feições brasileiras.

Depois de uns poucos (hoje raríssimos) compactos, e com um hit estourado nacionalmente no mesmo período na voz de Roberto Carlos, Não Vou Ficar (1969), Tim lançou seu primeiro álbum, clássico instantâneo que abre a caixa Tim Universal Maia, com seus principais discos.

A este seguiram-se outras três pedras fundamentais do soul brasileiro, até 1973, pela gravadora Polydor, catálogo que pertence hoje à Universal. É a primeira vez que a gravadora relança os títulos do cantor de seu catálogo com o capricho que merecia. Com exceção de Tim Maia (1970), O Descobridor dos Sete Mares (1983) e Sufocante (1984), os demais estavam fora de catálogo e saíram numa única e indigente edição na série Colecionador. Os discos já tinham sido remasterizados da outra vez, de modo que o relançamento não traz grandes diferenças em relação à qualidade técnica - só mesmo na arte gráfica, com capas e contracapas originais, ficha técnica e letras. E também não há nenhuma faixa extra, nenhuma curiosidade ou sobra de estúdio, mas os originais valem por si.

A caixa também inclui um encarte com textos do jornalista Silvio Essinger e o DVD Tim Maia in Concert (já lançado em 2007), com um show dirigido por Roberto Talma, gravado e exibido pela TV Globo em 1989. Até mesmo quem o viu no palco vai reconhecer o cantor nas melhores condições, acompanhado da sensacional banda Vitória Régia. Ele, que tanto reclamava de microfones, do eco, da equalização e da falta de retorno - implicância que virou folclore, mas tinha fundamento, porque os equipamentos no Brasil nunca estavam ao alcance de suas exigências -, teve o melhor som disponível na época.

Unanimidade. O primeiro LP foi um tremendo sucesso, de cara despejando uma avalanche de hits (leia no quadro abaixo), incluindo um baião, Coroné Antônio Bento (Luiz Wanderley/João do Vale), com toques de boogaloo, muito antes de Raul Seixas e Alceu Valença terem levado o ritmo nordestino para o rock. Uma das canções do disco, Padre Cícero, foi gravada com letra e título diferentes, João Coragem, adaptada para o personagem de Tarcísio Meira na trilha da novela Irmãos Coragem, grande êxito da TV brasileira em 1970/71.

Como o folhetim de Janete Clair, Tim virou uma espécie de unanimidade nacional, concorrendo até com Roberto Carlos. E, superando o mito do temido segundo disco, veio em 1971 com outra coleção bombástica de hits, novamente mesclando soul, baião, boogaloo, letras em inglês e até bossa. Mais dois álbuns na mesma linha e Tim caiu na onda da seita Universo em Desencanto, lançando dois discos independentes, Tim Maia Racional.

Voltou à realidade e à gravadora Polydor em 1976, lançou discos por outras gravadoras até o segundo retorno, já bastante influenciado pela disco music, mas só recuperaria a popularidade inicial em meados da década de 1980, como grande cantor romântico. Mesmo na fase mais comercial, conduzida pelo padrão Sullivan & Massadas, era um privilégio ter a voz de Tim Maia dominando as FMs com hits como Bons Momentos e Me Dê Motivo, presentes nos dois últimos discos dessa caixa.

 

TIM MAIA

TIM UNIVERSAL MAIA.

Preço: R$ 160

(8 CDs e 1 DVD)

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