WILTON JUNIOR/ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ESTADÃO

'Eu não quero ser novo, quero ser sempre', diz Djavan

Cantor que lança álbum 'Vidas pra Contar' em SP se diz um artista "extremamente popular" que faz música "não exatamente popular"

Julio Maria / SANTOS, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2016 | 19h16

Os mistérios de Djavan podem ficar mais ou menos intrigantes depois de alguns minutos sentado à sua frente na suíte presidencial do Hotel Parque Balneário, em Santos. Duas horas antes de subir ao palco do Mendes Convention Center para mostrar na cidade do litoral paulista o show do álbum 'Vidas pra Contar', no último sábado, dia 5, ele recebeu o 'Estado' de alma desarmada. Aos 67 anos, o homem que desembarcou no Rio direto de Alagoas aos 26 sem turma nem padrinho e que chegou a marcar três shows para uma plateia de zero pessoas falou dos enigmas de sua formação, de como sua cabeça funciona para criar acordes "inusuais" e de sua consequente condição de "artista popular que não faz exatamente uma música popular”. Suas harmonias são estudadas em universidades e suas complexas ideias rítmicas já lhe trouxeram problemas. "Sempre teve músico que não entendeu o que eu queria dizer. Eu acabava mudando para conseguir algum resultado". Foi a sensação de estar falando sozinho que o fez centralizar tudo. "Se eu não abraçasse minha vida, chegaria um dia em que eu não seria mais eu". E para conter o que chamou de invenções da internet, Djavan reafirmou estar "maravilhosamente" bem de saúde. Os shows de 'Vidas pra Contar', em São Paulo, serão hoje, 11, e amanhã, às 22h, no Citibank Hall.

Seu novo disco tem algo de intrigante: você, ao contrário de outros artistas de sua geração, não parece procurar romper com a linguagem que criou, não busca o estranhamento. O desafio é esse? Criar o novo dentro de uma fórmula estabelecida?

Essa pergunta é boa para eu responder algo que tanta gente questiona. Eu sou um dos artistas que mais lida com a diversidade, sempre tive curiosidade pela diferença entre os gêneros, entre as culturas. Eu não tenho a preocupação de ser novo ou velho porque o meu material já me dá, naturalmente, um leque grande de opções. O material que eu tenho para explorar é a diversidade e eu me divirto com isso. Não quero ser novo, quero ser sempre.

E qual é o seu desafio?

É estar motivado, ter sempre a impetuosidade de fazer. Quarenta anos de carreira é algo que te aproxima de muita coisa que pode levar à inércia, ao desestímulo. Existem motivações várias no começo de uma carreira, você quer conquistar, quer provar, quer ver o que pode ocorrer com tudo o que tem pra dar. Essa motivação não existe mais. Hoje, eu crio apenas para manter o humor, ficar feliz. Sobretudo porque são sensações efêmeras, eu fico feliz com uma coisa por muito pouco tempo.

Imagino que os anos sejam cruéis a um artista. Depois de um tempo você, de deslumbramento, passa a ter apenas que confirmar expectativas, por melhor que faça um novo disco.

Sim, mas é por isso que faço a migração dessa sensação, ela não pode permanecer no mesmo lugar o tempo todo. Você pode se alegrar com as conquistas, mas o mais importante é manter o estado de espírito no alto.

Um crítico norte-americano, Zeth Lundy, diz que os músicos têm o pico de sua criatividade concentrada em um período compreendido entre, no máximo, cinco ou seis anos, o que explicaria o fato de muitos não conseguirem repetir êxitos. Isso faz sentido para você?

O importante para mim sempre foi atrair pessoas de novas gerações. Eu preciso, para me sentir conectado com a criação, atrai-las. E comigo acontece uma coisa: embora eu não faça uma música exatamente popular, eu sou um artista extremamente popular. É um paradoxo inexplicável.

Eis o ponto. Seu conceito harmônico e sua divisão rítmica não são fáceis e poderiam te levar para um campo de música bem menos abrangente. Você poderia falar para poucos se caísse na tentação de usar mais informações do que a canção precisa, algo que acaba isolando muitos músicos em turmas e guetos acadêmicos. Imagino que puxar o freio faça parte do seu processo de criação.

A minha divisão sempre foi uma questão séria, a vida inteira. Eu tive problemas com músico americano, latino, brasileiro. É uma divisão diferente e, em vários momentos, eu tive que mexer na ideia original para facilitar as coisas de um músico e garantir algum retorno. Isso também me levou a abraçar todas as fases. Passei a fazer tudo, arranjo, produção, tudo. E até interferir na mixagem. O produtor de um disco, independente do que você gravou, pode levar, na mixagem, esse disco para onde ele quiser. E eu achava isso um horror. Olha, nos Estados Unidos, uma vez, um produtor me disse: “Djavan, agora é a hora da mixagem. Eu não preciso mais de você”. “Mas o quê? Você está louco?”, eu respondi.

Isso foi com o 'Lilás' (de 1984)?

Sim, esse foi um disco muito conturbado. Foi difícil trabalhar com o (engenheiro de som) Humberto Gatica e o produtor Erich Bulling. Eles estavam acostumados a  dominar toda a produção de artistas que não diziam nada, que cantavam e depois deixavam tudo na mão deles. Eu não conseguia fazer isso e dizia a eles: “O disco é meu, você não sabe mais do que eu o que eu quero. Eu não sei mexer nos botões, mas sei exatamente o que eu quero ouvir.” Foi uma confusão enorme porque eram pessoas com egos enormes também. Foi muito difícil, mas foi ali que tudo começou a se radicalizar. Eu logo percebi: ou abraçava a minha vida ou um dia eu não seria mais eu. E Deus dá o filho conforme a roupa: Ele me deu essa música exclusiva e uma personalidade forte para segurar essa onda.

E para onde te levariam se você deixasse?

Vou te dar um exemplo: eu estava na EMI muito bem, depois da Som Livre, quando me apareceu um homem chamado Tomás Munhoz, um espanhol que veio para o Brasil com a incumbência de levantar a Sony (que ainda era CBS). Ele me disse: “Olha, você é o primeiro artista que eu quero levar para a Sony, mas quero que você grave e more nos Estados Unidos para fazer carreira a partir de lá”. Depois de muita conversa, eu disse não. Eu precisava do Brasil, precisava cantar em português. E eu não tive dúvida de recusar, tomei a atitude mais correta. Eu só canto em português, amo essa língua cheia de recursos.

Como é que surge sua música? Digo, você é produto do quê?

Olha, em geral as pessoas condicionam a melodia à harmonia. Eu aprendi a fazer muito o contrário. Ou seja: eu tenho uma melodia e, se naquele momento melódico eu não tenho nenhum acorde que eu queira para acompanhá-lo, eu invento um. A harmonia é responsável pelo destino da melodia. Mudando a harmonia você muda a melodia sem mudar uma nota desta melodia. Se eu crio um acorde de acordo com a necessidade daquela melodia, isso faz com que minha harmonia acabe sendo mais difícil para algumas pessoas.

Mas você cria sabendo o que está fazendo, sabendo o nome dos acordes, dos intervalos? As pessoas estudam isso por anos nas faculdades de música.

Eu apenas crio buscando os sons que eu quero.

E as regras da harmonia?

(Risos) Isso não me interessa. O que me interessa é o que o meu ouvido me diz.

Seu primeiro disco, 'A Voz, o Violão, a Música de Djavan', faz 40 anos agora. Curioso que ele foi gravado com o baixista Luizão Maia, o guitarrista Hélio Delmiro e o baterista Paulo Braga, a tropa de choque de Elis Regina. O que eles faziam com você?

Sim, o pessoal da Elis (risos). Eles que me abraçaram quando eu cheguei ao Rio de Janeiro (de Alagoas). Luizão foi o primeiro. Ele disse que gostava do meu violão e me apresentou aos outros. Acabaram todos topando fazer um show comigo sem receber nada. Ensaiamos por três semanas e fomos estrear em um teatro do Colégio Sacre Coeur de Marie, em Copacabana. Ficamos três noites esperando e não foi ninguém.

Ninguém?

Ninguém, nem a família. E estava tudo lindo, bonito, mas não tocamos.

As pessoas sempre perguntam de sua saúde (no ano passado, apareceram rumores de que o músico estaria sofrendo com a doença de Parkinson). E aqui está a pergunta: como vai sua saúde?

Eu estou maravilhosamente bem. As pessoas me arranjam as coisas. Eu faço check up todos os anos, acabei de fazer um. Estou zerado em tudo. Quando eu tiver alguma coisa vai ser muito difícil esconder porque eu estou na área o tempo todo. E eu vou dizer: não tenho nada mesmo. A internet existe para sedimentar inverdades. Tem uma história por aí de que a música Flor de Lis foi inspirada em uma mulher minha que morreu no parto e que a minha filha também teria morrido neste parto. Eu já falei na internet dez milhões de vezes que não é verdade. Essa mulher e essa menina nunca existiram. Eu tenho uma saúde de ferro. Vá ao show que você vai ver como estou bem.

Serviço do show

Citibank Hall. Av. das Nações Unidas, 17.955. Santo Amaro.

Tel. 2846-6010. 6ª (11), sáb. (12), às 22h. R$ 80 a R$ 320

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